Desde que fui apresentado a estas fotos pela Katia Kouzelis, uma leitora do blog, não consegui sossegar até fazer o post. Fiquei fascinado pelo acervo: são centenas de imagens, das quais estou publicando aqui somente uma pequena parte.

Elas foram feitas entre as décadas de 1920 e 1940, retratando os letreiros, anúncios e painéis publicitários que o empresário Miguel Braz Gentile, proprietário da “Officina de Pinturas Gentile”, espalhava pela cidade. Eu nunca tinha ouvido falar de Miguel nem de sua oficina, e fiquei maravilhado.

Hoje em dia, a arte de Miguel seria impossível. Desde 2007, ela está banida por lei das fachadas de São Paulo, em nome da “limpeza”. De qualquer maneira, as fotos que ele deixou são um registro fabuloso da história da cidade e da publicidade brasileira.

As fotos permaneceram inéditas até agora, mas estão vindo à tona graças à Adriana Gentile, neta de Miguel, que decidiu digitalizar e compartilhar o acervo. Eu não a conheço, mas agradeço a ela esse gesto generoso…

Não se fazem mais promoções de Natal como antigamente…

No final de 1945, a Mercantil Cruzeiro convidava os clientes a irem até a loja, na rua São Bento, para “realizar a sua mais íntima vontade”.

Não sei que vontades íntimas eram essas que as pessoas realizavam lá dentro… Mas pela quantidade de gente que se aglomerava na porta, devia ser algo realmente sensacional. O pagamento era em 10 prestações, mas “em virtude do acúmulo de serviço” era bom não deixar para última hora.

O anúncio foi veiculado na Folha da Manhã em dezembro de 1945. E quem gostou deste post provavelmente também gostará deste outro.

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Em 1950 a cidade já flertava perigosamente com os automóveis, mas seus postos de gasolina ainda eram simpáticos.

Os três slides de 35 mm, meio desbotados mas bastante nítidos, têm anotações na moldura indicando o bairro em que foram tirados. De cima para baixo, as fotos são da Consolação, Vila Mariana e Mooca.

Não deve ser muito difícil identificar os locais exatos. Eu quebrei a cabeça e não consegui, mas talvez vocês consigam. Algum palpite?

Não sei quem é o autor das fotos, mas com certeza é o mesmo desta outra, que publiquei no início do ano.

E quem gostou do post provavelmente também vai gostar deste outro, de 2012.

“Querido Buck,
Eu estou muito bem, vendo muitas coisas novas. As pessoas aqui são tão amigáveis! Queria que você visse este país. Parecem não ter fim as plantas novas e bonitas que a gente vê por aqui!
(…)
Sylvia”

Sylvia parece ter sido uma turista muito simpática, e certamente fez uma viagem agradável. Mas para mim, é um pouco chocante que ela tenha escolhido, para ilustrar a infinidade de plantas lindas que estava descobrindo por aqui, nada menos do que um postal do Parque Dom Pedro.

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756Outro dia dei de cara com a publicidade de um prédio de quitinetes recentemente lançado no centro da cidade. O anúncio imita o formato de um convite pessoal, assinado pelo diretor da incorporadora Settin, e o texto deixa claro que se trata de um um evento muito fino e grandioso:

“O momento é chegado, e com grande prazer convido você para a avant-première de lançamento do menor apartamento do Brasil”.

A combinação de “grande prazer” e “menor apartamento” é muito sugestiva. Fica evidente que a incorporadora resolveu aplicar ao marketing imobiliário um conhecido princípio, segundo o qual o que importa não é o tamanho do dispositivo, mas sim o prazer que ele proporciona. Parece fazer sentido: se é verdade para tanta coisa, por que não funcionaria também para apartamentos? A sacada é brilhante.

Em setembro de 1922, a Cia. City também anunciava um arrojado empreendimento de residências pequenas. Mas o marketing não chegava aos pés deste, em matéria de refinamento.

“Essa pequena residencia foi planejada para, no seu serviço domestico, ser dispensado o concurso de creados”, dizia o anúncio de 1922, justificando assim as pequenas dimensões e a ausência de quarto de empregada. As casas tinham “uma sala de visita que tambem serve de sala de jantar”, além de “quarto de banho, copa, cosinha, dois terraços, um pequeno deposito e dependencias externas como garage, galinheiro, pombal e canil”.

Uma casa modelo podia ser visitada na rua Brigadeiro Gavião Peixoto (antecipando o hoje tão batido “visite o decorado”), mas não houve avant-première.

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O anúncio da incorporadora Settin é uma contribuição do meu amigo André Fontan. O da Cia. Citiy foi enviado por outro amigo, o Reinaldo Elias.

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