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antes e depois

“EXCURSÕES À ITÁLIA via marítima ou aérea. Preços e condições excepcionais. Inscreva-se na S.I.T.- Sociedade Internacional de Turismo. Rua 7 de Abril 277, fone 2-1065.”

Com esse texto no outdoor, a foto só pode ser de São Paulo. Mas descobrir o local exato me deu um certo trabalho.

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Quem me ajudou a reconhecer o lugar foi o predinho de três andares que aparece à direita. Ele continua igual até hoje, embora não apareça mais, escondido entre outros maiores. Fica na rua Manoel Dutra 577, a poucos metros da avenida 9 de Julho.

O posto de gasolina também está em pé, na avenida, de frente para a praça 14 Bis. Hoje ele está assim:

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A  foto antiga é reproduzida de  um slide de 35mm, meio azulado pelo tempo mas ainda nítido. Na moldura do slide, alguém anotou uma data a lápis: abril de 1950. A foto atual é do Google Street View.

O post de hoje é uma colaboração do Edson Luiz Mendes, um leitor do blog.

O Edson me escreveu comentando que, nas listagens de projetos reconhecidos como sendo do Oscar Niemeyer, existe um que nunca é mencionado: um restaurante, ou boate, que se chamava Bon Voyage e que existe até hoje, embora com outro uso.

O prédio fica próximo ao local onde o Edson morou durante muitos anos: no km 13 da rodovia Raposo Tavares, no bairro do Rolinópolis, bem próximo do Butantã.

Existem pouquíssimas referências ao prédio como sendo do Niemeyer. Uma delas está no livro  “Bairros Paulistanos de A a Z”, do jornalista Levino Ponciano (editora Senac, 2001): “No km 13 da Raposo Tavares foram erguidos, por volta de 1952, um drive-in e a boate Bon Voyage, projetados nas pranchetas sagradas de Oscar Niemeyer e Gaus Estelita, para um grande amigo de ambos” (pág.176).

Outra referência, enviada pelo Edson, é bastante curiosa: um LP da gravadora Copacabana, editado em 1960. A capa do disco traz uma foto do prédio. A contracapa descreve o restaurante, atribuindo a autoria do prédio ao Niemeyer e de seus jardins ao arquiteto, paisagista e designer José Zanine Caldas:

644“Rodeado de magníficos jardins tropicais de autoria de Zanine, é o ‘Bon Voyage’ uma das pequenas jóias da arquitetura moderna brasileira. Constitui, sem dúvida, um dos mais aprazíveis e procurados passeios da grande São Paulo. Situado nos altos do bairro do Butantan, a 800 metros de altitude e a 3 Kms do Jockey Club, é o “Bon Voyage” o restaurante-monumento da capital paulista, projetado pelo famoso arquiteto de renome internacional, Oscar Niemeyer.”

Fiquei curioso com a história e resolvi pesquisar nos arquivos do Estadão e da Folha, para ver se encontrava mais alguma referência. Encontrei três.  A primeira foi um pequeno anúncio, publicado no Estadão de 19 de abril de 1956:

“BON VOYAGE – Via Bandeirantes, km.12 (S.Paulo-Paraná) – Tel. 809325 – DRIVE-IN BAR E RESTAURANTE – Concepção arquitetônica de Oscar Niemeyer”.

A segunda referência, também no Estadão, é um texto publicado numa coluna social, em 7 de setembro de 1960. Nele, além da referência à autoria, encontramos a data exata em que o restaurante foi inaugurado:

“Happy Anniversary ao Bon Voyage e o seu proprietário, Sergio Rolim. Justamente no dia 7 de setembro de 1954, depois de meses de planejamento pelo famoso Oscar Niemeyer até o último detalhe do projeto para o perfeito serviço num tipo de restaurante ainda inédito, o Sergio viu seu idealizado ‘drive in’ (o primeiro de todo o Brasil) em grande movimento pela primeira vez quando ofereceu o cocktail de inauguração (…)”.

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Finalmente, uma terceira referência aparece na Folha de S.Paulo de 5 de agosto de 1961, com direito até a uma foto (infelizmente pouco nítida) do estabelecimento:

647“Apresentamos hoje aos nossos leitores o casal ROLIM, ‘os pioneiros do Drive-in na América Latina’ com o seu BON VOYAGE (foto). Em construção arrojada e moderníssima, no km 12 da estrada de Cotia, o BON VOYAGE, projetado por Oscar Niemeyer, oferece o que ha de melhor para o seu conforto e bem-estar, ou seja ar-condicionado, magnifico jardim tropical, ‘play-ground’ com piscina, iluminação multicolorida, ‘boxes’ para carros em transito e amplo estacionamento além de uma cozinha de primeira classe com serviço externo e interno, a cargo de gentis senhoritas. A passeio, em viagem ou à saída do Joquei Clube, vale a pena chegar até o BON VIOYAGE que apresenta em seus jantares a boa musica de ROBLEDO e de TORALES com seus conjuntos.”

O prédio existe até hoje, mas está modificado e cercado de muros altos que quase impedem sua visualização. O Edson explica que ali hoje funciona uma escola. As fotos recentes que reproduzo abaixo, são do Google Maps. E o Edson nos informa que o interior do restaurante pode ser visto numa cena do filme “Moral em concordata”, de 1959, com Maria Della Costa, Jardel Filho e Odete Lara.

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Quem frequenta a rua Augusta certamente vai reconhecer este prédio, uma antiga estação de energia para os bondes da Light, pouco acima da esquina com a Peixoto Gomide.

Ou talvez nem todos o reconheçam tão facilmente, pois o prédio está um pouco mudado, com a fachada pintada de azul.

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As duas imagens são da dissertação de mestrado de Felipe Melo Pissardo, um lindíssimo trabalho defendido recentemente na FAU-USP.

A dissertação, que estuda as transformações da Augusta entre 1891 e 2012, merece ser lida e pode ser baixada aqui. Espero que o Felipe não se importe de eu ter roubado duas fotos para o blog… ;)

A rua Jaguaribe, neste trecho próximo à avenida Angélica, é uma das poucas da cidade em que duas fotos tiradas do mesmo ângulo, com 100 anos de diferença, ficam mais ou menos parecidas.

A primeira foto é de um cartão postal e deve ter sido tirada por volta de 1910. A segunda é do Google Street View.

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Quando se fala em Niemeyer em São Paulo, todo mundo pensa logo no edifício Copan. Quase ninguém lembra que o Copan tem irmãos mais velhos, como este.

Primeiro prédio residencial do Niemeyer na cidade, o edifício Montreal fica na mesma avenida do Copan. Mas pouca gente repara.

As fotos mostram o prédio em dois momentos. A de cima é da inauguração, em 1954. A de baixo é do Google Street View.

(PS: Reparem no poste da esquina. Vejam como ele resistiu bravamente.)

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A foto foi tirada em 1949, e é fácil saber disso por causa do cartaz colado no poste, que anuncia a temporada de automobilismo no autódromo de Interlagos.

O local exato da foto exigiu um pouco mais de pesquisa, mas também não foi difícil descobrir.

No sobrado atrás do poste está a Panificadora e Confeitaria Ponto Final. Ela funciona até hoje no mesmo lugar e não mudou muita coisa. O nome foi trocado por um outro sem graça: “Pão Caseiro”.  Fica na avenida Jabaquara 712, esquina com rua Guaraú.

Na esquina em frente, lá no canto esquerdo da foto, aparece outro sobrado. No andar de baixo vemos um toldo, onde se lê: “TODAS AS NOITES PIZZA A NAPOLITANA, ENTREGAS À DOMICÍLIO”. Assim mesmo, com dois erros de crase. Já o andar de cima era o endereço do “DR MICHELANGELO”, sobrenome ilegível, “MÉDICO OPERADOR”.

Confesso que o consultório do Dr. Michelangelo não me causou muito boa impressão. Mas não faz mal, ele não está mais lá mesmo. Junto com a pizzaria, foi demolido para a construção da estação Praça da Árvore do metrô.

Não sei quem é o autor da foto. A imagem está em alta resolução, então vale a pena clicar nela para ver os detalhes. E pra quem quiser ver o local hoje, aqui vai o link: http://goo.gl/maps/zYzmP.

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Estas fotos, apesar das cores desbotadas, mostram o prédio do Instituto de Arquitetos do Brasil em todo o seu esplendor, no começo dos anos 50.

Já nesta outra, capturada do Google, quem está desbotado é o prédio mesmo, e não a foto.

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As fotos dos anos 50 são do acervo da FAU-USP. O prédio fica na rua General Jardim, esquina com Bento Freitas. Quem sabe um dia o prédio e o local recuperem as cores.

Em tempo: o Instituto está em campanha para levantar fundos e restaurar o edifício. Não custa divulgar: http://iabsp.org.br/?noticias=campanha-eu_restauro.

A foto dos anos 50 é do Ibirapuera, e eu a mostrei a vários amigos para ver se alguém conseguia identificar o local exato dentro do parque.

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Quem deu a resposta mais legal foi a Mariangela Inocencio. Ela acredita que o objeto branco que aparece na extrema esquerda, cortado pela margem da foto, seja o monumento às bandeiras. Se for assim, a moça da foto está de costas para a avenida Pedro Álvares Cabral, e os prédios que aparecem no horizonte são os do final da Paulista e começo do Paraíso. O local hoje seria este:

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Não sei se está certo, mas parece fazer sentido. A foto antiga é de um site de leilões; a atual é do Google.

Atualização em 7 de julho: O Bento Pereira Bueno, leitor do blog, nos dá uma outra explicação que me parece mais correta. Segundo ele, a foto foi tirada bem ao lado do monumento às bandeiras. O fotógrafo está de costas para o monumento, e o lago que aparece atrás da moça não existe mais: no lugar dele, estão hoje o prédio e o estacionamento da Assembleia Legislativa. E os três cilindros sobre o gramado, que estão entre a moça e o automóvel, são refletores de iluminação do monumento.
Eu me convenci. Tinha mesmo ficado intrigado com esses cilindros, agora entendo o que são!
Nas duas imagens aéreas abaixo (uma de 1958 e a outra atual, ambas reproduzidas de geoportal.com.br), o ponto vermelho mostra o local da foto, descoberto pelo Bento.

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Confesso que eu era um dos que não gostavam da casa dos Matarazzo, na avenida Paulista, com seu jeitão pesado e sua arquitetura fascista. Mas hoje eu mordo a língua. No lugar dela estão construindo uma coisa muito pior.

A foto mistura dois registros: um de 1993, quando a casa ainda estava em pé, e outro de 2011, quando ali funcionava um estacionamento. Hoje o que se vê por lá são as obras de um prédio mastodôntico que abrigará um shopping, escritórios e, claro, milhares de vagas para carros distribuídas em sete andares no subsolo. Tudo cuidadosamente projetado, ao que parece, para entupir ainda mais a região e ajudar a inviabilizar a cidade.

A foto é de Olympio Augusto Ribeiro, a quem agradeço por ter permitido publicá-la aqui.

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As duas fotos dos anos 30, que colocadas lado a lado formam uma só imagem, são da esquina das ruas México e Alasca, no Jardim América. Loteado pela Cia City, o bairro era na época, e continua sendo até hoje, um dos mais caros e luxuosos da cidade.

Mas hoje é difícil reconhecer a esquina. Ela está muito diferente.

503Não sei se a casa é a mesma, profundamente deformada, ou se a derrubaram para construir outra do zero. Só sei que hoje existe lá uma autêntica casa-bunker, dessas em estilo neoclássico, cercadas por muro bege, que só se comunicam com o mundo exterior por meio de interfones, câmeras de segurança e homens de terno preto. As casas dos vizinhos, se é que o conceito de vizinhança se aplica a quem mora assim, seguem  o mesmo padrão.

As fotos dos anos 30 são de Carlos Niederecker (1887-1976). A foto atual é reproduzida do Google Street View.

E a expressão “casa-bunker” é roubada de um trabalho fabuloso que andei lendo esta semana: o livro “Palavracidade”, do Nivaldo Godoy.

Atualização em 30 de abril:  Fiquei muito feliz, hoje, ao receber uma mensagem da sra. Maria Cecilia França Monteiro da Silva.  Ela me conta que esta casa (a original, não a atual) pertenceu à sua família, e que ela própria morou lá por quase dez anos. A casa era residência da sua avó, falecida em 1971, e foi vendida no ano seguinte.  “O jardim era primorosamente cuidado e toda a vizinhança admirava as flores, cujas sementes eram trazidas da Europa por minha avó”, conta D. Maria Cecilia.  E embora a casa tenha sido demolida quando já não pertencia mais à família, seus alicerces foram mantidos. São a única coisa preservada da casa original, construída nos anos 20 pelo escritório Ramos de Azevedo. Fico feliz em saber que o post foi lido por alguém para quem a casa tem tanto significado. Deixo aqui meu agradecimento a D. Maria Cecilia pela gentileza de ter compartilhado parte de suas lembranças conosco.

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