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antes e depois

756Outro dia dei de cara com a publicidade de um prédio de quitinetes recentemente lançado no centro da cidade. O anúncio imita o formato de um convite pessoal, assinado pelo diretor da incorporadora Settin, e o texto deixa claro que se trata de um um evento muito fino e grandioso:

“O momento é chegado, e com grande prazer convido você para a avant-première de lançamento do menor apartamento do Brasil”.

A combinação de “grande prazer” e “menor apartamento” é muito sugestiva. Fica evidente que a incorporadora resolveu aplicar ao marketing imobiliário um conhecido princípio, segundo o qual o que importa não é o tamanho do dispositivo, mas sim o prazer que ele proporciona. Parece fazer sentido: se é verdade para tanta coisa, por que não funcionaria também para apartamentos? A sacada é brilhante.

Em setembro de 1922, a Cia. City também anunciava um arrojado empreendimento de residências pequenas. Mas o marketing não chegava aos pés deste, em matéria de refinamento.

“Essa pequena residencia foi planejada para, no seu serviço domestico, ser dispensado o concurso de creados”, dizia o anúncio de 1922, justificando assim as pequenas dimensões e a ausência de quarto de empregada. As casas tinham “uma sala de visita que tambem serve de sala de jantar”, além de “quarto de banho, copa, cosinha, dois terraços, um pequeno deposito e dependencias externas como garage, galinheiro, pombal e canil”.

Uma casa modelo podia ser visitada na rua Brigadeiro Gavião Peixoto (antecipando o hoje tão batido “visite o decorado”), mas não houve avant-première.

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O anúncio da incorporadora Settin é uma contribuição do meu amigo André Fontan. O da Cia. Citiy foi enviado por outro amigo, o Reinaldo Elias.

As duas fotos devem ter sido tiradas pela mesma pessoa, certamente impressionada com a transformação da paisagem. Foram colocadas em um mesmo álbum, com as datas anotadas a lápis: novembro de 1941 e outubro de 1947. Em menos de seis anos, a vista mudou completamente!

Olhando só para a primeira foto, eu teria dificuldade para reconhecer o lugar. Mas a segunda não deixa margem a dúvidas: é a avenida Ipiranga cruzando com a São João. A janela do fotógrafo, seja ele quem for, ficava na Ipiranga com a 24 de Maio.

694O texto que acompanha a foto em preto e branco informa que ela é de 1953. Mas nem precisava: basta ver o estado pouco adiantado das obras do edifício Conde de Prates, ao lado do Viaduto do Chá, para imaginar que ela seja dessa época mesmo. O prédio ficaria pronto em 1955.

Mas o detalhe que mais me chamou a atenção não foi esse. Foi ver o edifício Matarazzo, atual sede da prefeitura, sem o seu famoso jardim na cobertura.

E eu que achava que o prédio já tinha nascido com aquele jardim.

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A foto de 1953 é da United Press. A foto atual é reproduzida da internet.

As duas fotos são do mesmo autor (Guilherme Gaensly) e foram tiradas do mesmo local (o prédio do Mackenzie, na esquina das ruas Itambé e Maria Antônia). Elas mostram a mesma vista em direção ao centro, em dois momentos diferentes.

A primeira deve ter sido tirada em 1906 ou 1907. O teatro municipal, que começou a ser erguido em 1905 e só ficaria pronto em 1911, pode ser visto ainda incompleto na linha do horizonte (clicando na foto, dá pra vê-lo com mais detalhe). A rua Major Sertório (no meio da foto, apontando para o teatro) está sem árvores, e a Maria Antônia (no canto inferior direito) tem umas mudinhas miúdas plantadas na calçada. À direita da Major Sertório, vemos duas grandes chaminés: são da usina a vapor da rua Araújo, que produzia eletricidade para o a iluminação e os bondes do centro. E mais à direita ainda, aparece a igreja da Consolação. Não a atual, em estilo neogótico, mas a anterior, demolida em 1907.

Algum tempo depois, na segunda foto, as chaminés e a igreja sumiram. A Major Sertório e a Maria Antônia estão bem arborizadas, e o teatro já ficou pronto…

Mas o que mais me chamou a atenção não foi nada disso. Foi perceber que de Higienópolis dava pra ver o Municipal.

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Atualização em 30 de maio: O Alex Sartori me mandou esta terceira foto que, por coincidência ou não, foi tirada do mesmo ângulo das duas anteriores. Nela não dá mais pra ver o teatro municipal, que sumiu entre os prédios do centro. A igreja da Consolação reapareceu na sua versão nova, com a torre ainda em construção. E na Maria Antônia já vemos o prédio da USP. A foto é de 1947, da revista Life. Impressionante a mudança na paisagem em tão pouco tempo… Obrigado, Alex!

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“Excursões à Itália via marítima ou aérea. Preços e condições excepcionais. Inscreva-se na S.I.T.- Sociedade Internacional de Turismo. Rua 7 de Abril 277, fone 2-1065.”

Com esse texto no outdoor, a foto só pode ser de São Paulo. Mas descobrir o local exato me deu um certo trabalho.

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Quem me ajudou a reconhecer o lugar foi o predinho de três andares que aparece à direita. Ele continua igual até hoje, embora não apareça mais, escondido entre outros maiores. Fica na rua Manoel Dutra 577, a poucos metros da avenida 9 de Julho.

O posto de gasolina também está em pé, na avenida, de frente para a praça 14 Bis. Hoje ele está assim:

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A  foto antiga é reproduzida de  um slide de 35mm, meio azulado pelo tempo mas ainda nítido. Na moldura do slide, alguém anotou uma data a lápis: abril de 1950. A foto atual é do Google Street View.

O post de hoje é uma colaboração do Edson Luiz Mendes, um leitor do blog.

O Edson me escreveu comentando que, nas listagens de projetos reconhecidos como sendo do Oscar Niemeyer, existe um que nunca é mencionado: um restaurante, ou boate, que se chamava Bon Voyage e que existe até hoje, embora com outro uso.

O prédio fica próximo ao local onde o Edson morou durante muitos anos: no km 13 da rodovia Raposo Tavares, no bairro do Rolinópolis, bem próximo do Butantã.

Existem pouquíssimas referências ao prédio como sendo do Niemeyer. Uma delas está no livro  “Bairros Paulistanos de A a Z”, do jornalista Levino Ponciano (editora Senac, 2001): “No km 13 da Raposo Tavares foram erguidos, por volta de 1952, um drive-in e a boate Bon Voyage, projetados nas pranchetas sagradas de Oscar Niemeyer e Gaus Estelita, para um grande amigo de ambos” (pág.176).

Outra referência, enviada pelo Edson, é bastante curiosa: um LP da gravadora Copacabana, editado em 1960. A capa do disco traz uma foto do prédio. A contracapa descreve o restaurante, atribuindo a autoria do prédio ao Niemeyer e de seus jardins ao arquiteto, paisagista e designer José Zanine Caldas:

644“Rodeado de magníficos jardins tropicais de autoria de Zanine, é o ‘Bon Voyage’ uma das pequenas jóias da arquitetura moderna brasileira. Constitui, sem dúvida, um dos mais aprazíveis e procurados passeios da grande São Paulo. Situado nos altos do bairro do Butantan, a 800 metros de altitude e a 3 Kms do Jockey Club, é o “Bon Voyage” o restaurante-monumento da capital paulista, projetado pelo famoso arquiteto de renome internacional, Oscar Niemeyer.”

Fiquei curioso com a história e resolvi pesquisar nos arquivos do Estadão e da Folha, para ver se encontrava mais alguma referência. Encontrei três.  A primeira foi um pequeno anúncio, publicado no Estadão de 19 de abril de 1956:

“BON VOYAGE – Via Bandeirantes, km.12 (S.Paulo-Paraná) – Tel. 809325 – DRIVE-IN BAR E RESTAURANTE – Concepção arquitetônica de Oscar Niemeyer”.

A segunda referência, também no Estadão, é um texto publicado numa coluna social, em 7 de setembro de 1960. Nele, além da referência à autoria, encontramos a data exata em que o restaurante foi inaugurado:

“Happy Anniversary ao Bon Voyage e o seu proprietário, Sergio Rolim. Justamente no dia 7 de setembro de 1954, depois de meses de planejamento pelo famoso Oscar Niemeyer até o último detalhe do projeto para o perfeito serviço num tipo de restaurante ainda inédito, o Sergio viu seu idealizado ‘drive in’ (o primeiro de todo o Brasil) em grande movimento pela primeira vez quando ofereceu o cocktail de inauguração (…)”.

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Finalmente, uma terceira referência aparece na Folha de S.Paulo de 5 de agosto de 1961, com direito até a uma foto (infelizmente pouco nítida) do estabelecimento:

647“Apresentamos hoje aos nossos leitores o casal ROLIM, ‘os pioneiros do Drive-in na América Latina’ com o seu BON VOYAGE (foto). Em construção arrojada e moderníssima, no km 12 da estrada de Cotia, o BON VOYAGE, projetado por Oscar Niemeyer, oferece o que ha de melhor para o seu conforto e bem-estar, ou seja ar-condicionado, magnifico jardim tropical, ‘play-ground’ com piscina, iluminação multicolorida, ‘boxes’ para carros em transito e amplo estacionamento além de uma cozinha de primeira classe com serviço externo e interno, a cargo de gentis senhoritas. A passeio, em viagem ou à saída do Joquei Clube, vale a pena chegar até o BON VIOYAGE que apresenta em seus jantares a boa musica de ROBLEDO e de TORALES com seus conjuntos.”

O prédio existe até hoje, mas está modificado e cercado de muros altos que quase impedem sua visualização. O Edson explica que ali hoje funciona uma escola. As fotos recentes que reproduzo abaixo, são do Google Maps. E o Edson nos informa que o interior do restaurante pode ser visto numa cena do filme “Moral em concordata”, de 1959, com Maria Della Costa, Jardel Filho e Odete Lara.

 

Atualização em 26 de julho: A FAU, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, acaba de digitalizar a coleção completa da Acrópole, uma importante revista de arquitetura que circulou em São Paulo entre 1939 e 1971. O acervo agora está disponível online, facilitando a pesquisa. E o Luciano Rizzi, que é arquiteto e leitor do blog, me avisa que descobriu ali mais uma referência ao prédio do Niemeyer. É uma matéria que saiu no número 191, de agosto de 1954. Para ler a revista, basta clicar aqui. A matéria sobre o Bon Voyage está nas páginas 501, 502 e 503. Obrigado, Luciano!

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