Arquivo

antes e depois

As duas fotos devem ter sido tiradas pela mesma pessoa, certamente impressionada com a transformação da paisagem. Foram colocadas em um mesmo álbum, com as datas anotadas a lápis: novembro de 1941 e outubro de 1947. Em menos de seis anos, a vista mudou completamente!

Olhando só para a primeira foto, eu teria dificuldade para reconhecer o lugar. Mas a segunda não deixa margem a dúvidas: é a avenida Ipiranga cruzando com a São João. A janela do fotógrafo, seja ele quem for, ficava na Ipiranga com a 24 de Maio.

694O texto que acompanha a foto em preto e branco informa que ela é de 1953. Mas nem precisava: basta ver o estado pouco adiantado das obras do edifício Conde de Prates, ao lado do Viaduto do Chá, para imaginar que ela seja dessa época mesmo. O prédio ficaria pronto em 1955.

Mas o detalhe que mais me chamou a atenção não foi esse. Foi ver o edifício Matarazzo, atual sede da prefeitura, sem o seu famoso jardim na cobertura.

E eu que achava que o prédio já tinha nascido com aquele jardim.

693

692

A foto de 1953 é da United Press. A foto atual é reproduzida da internet.

As duas fotos são do mesmo autor (Guilherme Gaensly) e foram tiradas do mesmo local (o prédio do Mackenzie, na esquina das ruas Itambé e Maria Antônia). Elas mostram a mesma vista em direção ao centro, em dois momentos diferentes.

A primeira deve ter sido tirada em 1906 ou 1907. O teatro municipal, que começou a ser erguido em 1905 e só ficaria pronto em 1911, pode ser visto ainda incompleto na linha do horizonte (clicando na foto, dá pra vê-lo com mais detalhe). A rua Major Sertório (no meio da foto, apontando para o teatro) está sem árvores, e a Maria Antônia (no canto inferior direito) tem umas mudinhas miúdas plantadas na calçada. À direita da Major Sertório, vemos duas grandes chaminés: são da usina a vapor da rua Araújo, que produzia eletricidade para o a iluminação e os bondes do centro. E mais à direita ainda, aparece a igreja da Consolação. Não a atual, em estilo neogótico, mas a anterior, demolida em 1907.

Algum tempo depois, na segunda foto, as chaminés e a igreja sumiram. A Major Sertório e a Maria Antônia estão bem arborizadas, e o teatro já ficou pronto…

Mas o que mais me chamou a atenção não foi nada disso. Foi perceber que de Higienópolis dava pra ver o Municipal.

687

688

Atualização em 30 de maio: O Alex Sartori me mandou esta terceira foto que, por coincidência ou não, foi tirada do mesmo ângulo das duas anteriores. Nela não dá mais pra ver o teatro municipal, que sumiu entre os prédios do centro. A igreja da Consolação reapareceu na sua versão nova, com a torre ainda em construção. E na Maria Antônia já vemos o prédio da USP. A foto é de 1947, da revista Life. Impressionante a mudança na paisagem em tão pouco tempo… Obrigado, Alex!

689

“EXCURSÕES À ITÁLIA via marítima ou aérea. Preços e condições excepcionais. Inscreva-se na S.I.T.- Sociedade Internacional de Turismo. Rua 7 de Abril 277, fone 2-1065.”

Com esse texto no outdoor, a foto só pode ser de São Paulo. Mas descobrir o local exato me deu um certo trabalho.

651

Quem me ajudou a reconhecer o lugar foi o predinho de três andares que aparece à direita. Ele continua igual até hoje, embora não apareça mais, escondido entre outros maiores. Fica na rua Manoel Dutra 577, a poucos metros da avenida 9 de Julho.

O posto de gasolina também está em pé, na avenida, de frente para a praça 14 Bis. Hoje ele está assim:

652

A  foto antiga é reproduzida de  um slide de 35mm, meio azulado pelo tempo mas ainda nítido. Na moldura do slide, alguém anotou uma data a lápis: abril de 1950. A foto atual é do Google Street View.

O post de hoje é uma colaboração do Edson Luiz Mendes, um leitor do blog.

O Edson me escreveu comentando que, nas listagens de projetos reconhecidos como sendo do Oscar Niemeyer, existe um que nunca é mencionado: um restaurante, ou boate, que se chamava Bon Voyage e que existe até hoje, embora com outro uso.

O prédio fica próximo ao local onde o Edson morou durante muitos anos: no km 13 da rodovia Raposo Tavares, no bairro do Rolinópolis, bem próximo do Butantã.

Existem pouquíssimas referências ao prédio como sendo do Niemeyer. Uma delas está no livro  “Bairros Paulistanos de A a Z”, do jornalista Levino Ponciano (editora Senac, 2001): “No km 13 da Raposo Tavares foram erguidos, por volta de 1952, um drive-in e a boate Bon Voyage, projetados nas pranchetas sagradas de Oscar Niemeyer e Gaus Estelita, para um grande amigo de ambos” (pág.176).

Outra referência, enviada pelo Edson, é bastante curiosa: um LP da gravadora Copacabana, editado em 1960. A capa do disco traz uma foto do prédio. A contracapa descreve o restaurante, atribuindo a autoria do prédio ao Niemeyer e de seus jardins ao arquiteto, paisagista e designer José Zanine Caldas:

644“Rodeado de magníficos jardins tropicais de autoria de Zanine, é o ‘Bon Voyage’ uma das pequenas jóias da arquitetura moderna brasileira. Constitui, sem dúvida, um dos mais aprazíveis e procurados passeios da grande São Paulo. Situado nos altos do bairro do Butantan, a 800 metros de altitude e a 3 Kms do Jockey Club, é o “Bon Voyage” o restaurante-monumento da capital paulista, projetado pelo famoso arquiteto de renome internacional, Oscar Niemeyer.”

Fiquei curioso com a história e resolvi pesquisar nos arquivos do Estadão e da Folha, para ver se encontrava mais alguma referência. Encontrei três.  A primeira foi um pequeno anúncio, publicado no Estadão de 19 de abril de 1956:

“BON VOYAGE – Via Bandeirantes, km.12 (S.Paulo-Paraná) – Tel. 809325 – DRIVE-IN BAR E RESTAURANTE – Concepção arquitetônica de Oscar Niemeyer”.

A segunda referência, também no Estadão, é um texto publicado numa coluna social, em 7 de setembro de 1960. Nele, além da referência à autoria, encontramos a data exata em que o restaurante foi inaugurado:

“Happy Anniversary ao Bon Voyage e o seu proprietário, Sergio Rolim. Justamente no dia 7 de setembro de 1954, depois de meses de planejamento pelo famoso Oscar Niemeyer até o último detalhe do projeto para o perfeito serviço num tipo de restaurante ainda inédito, o Sergio viu seu idealizado ‘drive in’ (o primeiro de todo o Brasil) em grande movimento pela primeira vez quando ofereceu o cocktail de inauguração (…)”.

645     646

Finalmente, uma terceira referência aparece na Folha de S.Paulo de 5 de agosto de 1961, com direito até a uma foto (infelizmente pouco nítida) do estabelecimento:

647“Apresentamos hoje aos nossos leitores o casal ROLIM, ‘os pioneiros do Drive-in na América Latina’ com o seu BON VOYAGE (foto). Em construção arrojada e moderníssima, no km 12 da estrada de Cotia, o BON VOYAGE, projetado por Oscar Niemeyer, oferece o que ha de melhor para o seu conforto e bem-estar, ou seja ar-condicionado, magnifico jardim tropical, ‘play-ground’ com piscina, iluminação multicolorida, ‘boxes’ para carros em transito e amplo estacionamento além de uma cozinha de primeira classe com serviço externo e interno, a cargo de gentis senhoritas. A passeio, em viagem ou à saída do Joquei Clube, vale a pena chegar até o BON VIOYAGE que apresenta em seus jantares a boa musica de ROBLEDO e de TORALES com seus conjuntos.”

O prédio existe até hoje, mas está modificado e cercado de muros altos que quase impedem sua visualização. O Edson explica que ali hoje funciona uma escola. As fotos recentes que reproduzo abaixo, são do Google Maps. E o Edson nos informa que o interior do restaurante pode ser visto numa cena do filme “Moral em concordata”, de 1959, com Maria Della Costa, Jardel Filho e Odete Lara.

 

Atualização em 26 de julho: A FAU, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, acaba de digitalizar a coleção completa da Acrópole, uma importante revista de arquitetura que circulou em São Paulo entre 1939 e 1971. O acervo agora está disponível online, facilitando a pesquisa. E o Luciano Rizzi, que é arquiteto e leitor do blog, me avisa que descobriu ali mais uma referência ao prédio do Niemeyer. É uma matéria que saiu no número 191, de agosto de 1954. Para ler a revista, basta clicar aqui. A matéria sobre o Bon Voyage está nas páginas 501, 502 e 503. Obrigado, Luciano!

616

Quem frequenta a rua Augusta certamente vai reconhecer este prédio, uma antiga estação de energia para os bondes da Light, pouco acima da esquina com a Peixoto Gomide.

Ou talvez nem todos o reconheçam tão facilmente, pois o prédio está um pouco mudado, com a fachada pintada de azul.

617

As duas imagens são da dissertação de mestrado de Felipe Melo Pissardo, um lindíssimo trabalho defendido recentemente na FAU-USP.

A dissertação, que estuda as transformações da Augusta entre 1891 e 2012, merece ser lida e pode ser baixada aqui. Espero que o Felipe não se importe de eu ter roubado duas fotos para o blog… ;)

A rua Jaguaribe, neste trecho próximo à avenida Angélica, é uma das poucas da cidade em que duas fotos tiradas do mesmo ângulo, com 100 anos de diferença, ficam mais ou menos parecidas.

A primeira foto é de um cartão postal e deve ter sido tirada por volta de 1910. A segunda é do Google Street View.

571

572

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 368 outros seguidores