Este é um blog que fala do passado da cidade, mas hoje abro uma exceção e falo do presente.

Em abril, meu amigo (virtual, mas ainda assim amigo) Mauro Calliari publicou em seu blog Caminhadas Urbanas, e em seguida também na revista Arquiteturismo, um sensível artigo sobre os encantos de caminhar nas escadas do próprio prédio, descobertos durante a pandemia de Covid 19.

Andarilho contumaz, Mauro se viu forçado a caminhar bem menos por causa da quarentena. E resolveu então que, pelo menos, não usaria mais o elevador. “Moro no 11º andar, então, nas poucas vezes em que preciso descer, ponho a máscara e encaro as escadas com determinação”, conta ele. E as subidas e descidas acabaram se revelando “uma experiência surpreendentemente boa, incapaz de rivalizar com as surpresas e prazeres das caminhadas na rua, mas que tem seus encantos”.

Mauro atribui uma parte desses encantos aos sapatos deixados pelos vizinhos para fora das portas, uma atração especial oferecida pela pandemia:

“Há vários, por toda parte. No terceiro andar, porém, tem o meu preferido, o casal de All Star. Antes, tinha só um par, vermelho. Um dia, apareceu outro par, um branco, menorzinho, como se não pudessem ficar longe um do outro”.

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O texto do Mauro influenciou a minha própria fruição das duas escadarias que tenho frequentado: a do meu próprio prédio, onde moro no 3º andar, e a do prédio dos meus pais, enclausurados desde março no 12º.

Juntando-se por vezes a cheiros, a vozes ou música, a um ou outro objeto decorativo e à enorme variedade de tapetinhos e capachos, os sapatos na porta de cada casa tornaram-se um prazeroso meio de fabular histórias, sinais sugestivos da vida que há lá dentro. Alguma coisa tem que ter poesia e beleza neste período tão triste. Que sejam então os sapatos dos vizinhos!

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Mas por que conto isso agora? Porque quero relatar que esta semana, aqui no prédio onde moro, matou-se essa poesia.

Faço aqui uma reconstituição do crime. Tudo começou no início do mês, quando o elevador de serviço foi parado para reforma. A explicação veio por meio de uma circular aos moradores e um aviso caprichosamente pendurado em cada andar: teremos uma equipe de técnicos trabalhando no prédio por 30 dias. Durante esse tempo teremos que subir e descer a pé, mas a compensação virá. Ao fim do período, desfrutaremos de um “equipamento modernizado com tecnologia de última geração”!

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Eu poderia contar pra vocês o que achei sobre fazer essa obra durante a pandemia, ou sobre o significado simbólico de iniciá-la na semana em que se atingia a terrível marca dos 100 mil mortos oficiais. Mas não vou fazê-lo, porque só vim mesmo para falar de sapatos. E também porque, no fundo, a perspectiva de subir e descer a pé por um mês não estava me incomodando: eu já gostava disso desde abril, graças ao Mauro!

Mas um segundo e fatal golpe veio alguns dias depois, na forma de uma nova circular. Já que, além de sapatos, também estou falando de poesia, reproduzo aqui os versos do poema recebido:

“Prezados Srs. Condôminos,
Na qualidade de administradores e por determinação do Corpo Diretivo, vimos ressaltar que é expressamente proibido depositar quaisquer objetos (todo e qualquer tipo de calçado […]) nas áreas comuns do condomínio, como escadarias e hall de serviço, que são rota de fuga, e no hall social. Informamos que tal prática caracteriza infração regulamentar, estando sujeita às sanções previstas na Convenção Condominial, tais como advertência e multa. Sem mais, contando com a colaboração e compreensão de todos, subscrevemo-nos.”

Pelo jeito, quando a falta de elevador mostrou poesia condominial àqueles que ainda não a conheciam, houve quem se incomodou. A beleza tem dessas coisas: alguns convivem bem com ela, outros precisam varrê-la escada abaixo.

Paro por aqui, para ir fazer minha despedida. Ainda dá tempo de subir e descer todos os andares uma última vez.

(As duas primeiras fotos são de Mauro Calliari, no prédio dele. A terceira é minha, no meu.)

Esta é a segunda tentativa de publicar este post. Uma versão anterior dele, que se chamou “Os enigmas do Ipiranga”, foi publicada algumas semanas atrás e chegou a ficar uns dias no ar, mas depois resolvi tirá-la do blog. Já já explico por quê.

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Tudo começou quando encontrei este cartão postal, que uma tal de Marcie (parece ser esse o nome) recebeu em 1908 lá na cidade de Spa, na Bélgica:

Ma chère Marcie,
Pour l’elève photographe j’envoie une vue chic prise de la fenêtre de la maison vers le Musée d’Ypiranga; pour tous trois, tout ce qu’il y a de plus choisi comme souhaits de nouvel an de la part de Jeanne, des enfants et de Louis.

(Minha querida Marcie,
Para o aprendiz de fotógrafo, eu envio uma vista chique tomada da janela de casa em direção ao Museu do Ipiranga; para todos os três, tudo o que houver de melhor, como desejo de ano novo da parte de Jeanne, das crianças e de Louis.)

O texto pode até parecer trivial, mas para mim ele guardava três mistérios, e o post convidava os leitores a opinar sobre eles:
1. Se isto é um cartão postal, como assim a foto foi tirada “da janela de casa”?
2. Como alguém pode achar chique essa paisagem cheia de mato?
3. Onde ficava essa tal “janela de casa”, se é que de fato existiu?

Os leitores do meu blog são sempre muito generosos. Dois deles, a Mariana Pabst Martins e o Luís Salvucci, rapidamente resolveram o enigma nº 1. Eles me lembraram que, na época, era relativamente comum as pessoas mandarem fazer suas fotos com o verso preparado para cartão postal, para enviá-las pelo correio. Normalmente, esses cartões eram feitos com retratos de gente. Mas nada impedia que mostrassem alguma outra coisa, por exemplo a vista da janela.

Mariana e Luís têm razão: eu mesmo me lembro de já ter visto alguns cartões assim: o retrato da pessoa ou uma pose da família de um lado, e o impresso padronizado de cartão postal do outro. Mas não me lembrei disso ao escrever o post. Enigma resolvido!

O enigma nº 2 foi desvendado por outra leitora, minha amiga Patricia Carvalhinhos, professora do curso de Letras da USP. Para ela, a solução é linguística: a palavra “chic”, em francês, tanto pode referir-se a elegante ou refinado, como a bonito ou agradável. No Brasil estamos acostumados ao galicismo “chique” com o primeiro desses sentidos, mas desconhecemos o segundo. A vista da janela, então, é “chic” no sentido de bonitinha, pitoresca. E a explicação da Patricia é “chic” de chique mesmo!

Já o terceiro enigma foi o que mais deu trabalho, e a culpa foi toda minha.

É que, na postagem original, ele foi o único dos três que eu tentei responder. Desenvolvi um longo e tortuoso raciocínio para descobrir o ponto exato de onde a foto teria sido tirada em 1908.

A teoria era muito bonita, mas tinha um pequeno defeito: estava toda errada. Quando o José Carlos Vaz me convenceu disso, resolvi retirar o post do ar por um tempo, para reescrevê-lo. Afinal, por mais que desinformação e notícia falsa estejam em alta na internet, essa moda não chegou a este blog. Nos dias seguintes, com ajuda do Diego Vargas, que é bom detetive, comecei uma pesquisa pra ver se resolvíamos o enigma de forma correta.

E não é que conseguimos? Não só descobrimos de onde a foto foi realmente tirada, mas de quebra resolvemos um quarto mistério, que nem estava listado: quem são Jeanne, as crianças e Louis, a família que assina a mensagem do cartão.

Não vou contar aqui todos os detalhes da investigação, mas o fato de o cartão ter sido enviado a Spa foi, desde o início, uma pista importante. Em 1908 devia haver em São Paulo pouca gente dessa cidade, mandando cartões para amigos ou parentes. Fazia sentido, então, pesquisar famílias belgas morando por aqui na época.

A segunda pista importante veio em um artigo de pesquisadores do Instituto de Zootecnia do Estado de São Paulo, apresentado em 2010 no 2º Seminário de Patrimônio Agroindustrial, na Escola de Engenharia da USP em São Carlos.

O artigo conta a história do Posto Zootécnico Central, instituição que durante anos ocupou um grande terreno com frente para a atual rua Borges de Figueiredo, na Mooca. Ao ser inaugurado em 1905, o Posto Zootécnico teve como diretor provisório um engenheiro agrônomo belga (Hector Raquet, professor do Real Instituto de Agricultura de Gembloux), que, por sua vez, acabou trazendo da Bélgica outros agrônomos, imagino que ex-alunos seus. Um deles se chamava Louis Misson.

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O artigo ainda mostra uma planta do Posto Zootécnico datada de 1909, e descreve as benfeitorias ali existentes. Na página 2, lemos o seguinte:

“Quase metade da área é assinalada como sendo de várzea e a outra metade, parte em capoeira e parte com construções rurais, residências, pista para desfile de animais, campos de experimentação, horta e pomar, piquetes com pastagens, caixa d’água, bebedouro e estrumeira.”

As pistas estavam ficando quentíssimas. Já tínhamos um lugar descampado como o do cartão, que tinha residências, onde moravam belgas. A localização (imediações da rua Borges de Figueiredo, Mooca) é bastante compatível com o ângulo em que o museu aparece na foto. E um dos belgas do lugar se chamava Louis!

Para ter certeza mesmo, faltava encontrar uma ligação desse Luis Misson, do Posto Zootécnico, com a cidade de Spa, para onde o cartão foi enviado. Não foi difícil achá-la: bastou uma busca rápida em arquivos de jornais. Uma ata de reunião da Sociedade Rural Brasileira, publicada na Folha da Manhã de 21 de abril de 1929, menciona que o “dr. Luiz Misson e filho, exportadores de animaes de raça pura, de Spa, na Belgica” estavam pleiteando tornar-se sócios da instituição.

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Com isso a história se fechou: o Louis do cartão para Spa era mesmo o agrônomo Louis Misson. Em 1908, ele morava com a família em uma das residências do Posto Zootécnico, de onde a vista que se tinha em direção ao museu era essa mesmo. E em 1929 ele continuava por aqui, com o nome abrasileirado para Luiz mas ainda trabalhando com gado. O terceiro enigma do Ipiranga (que na verdade era da Mooca) estava assim resolvido.

O mais curioso é que só depois de todo esse trabalho eu fui me lembar deste outro post, sobre o Posto Zootécnico, que publiquei há 7 anos, e que mostra que de certa forma a resposta já estava aqui no blog. Se alguém ainda tiver dúvida de onde a foto do cartão foi tirada, basta comparar a posição do museu nas fotos dos dois posts.

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Depois disso tudo, só espero que o Vaz não destrua de novo a minha argumentação! 😀

Os saudosistas adoram dizer que, lá pelas décadas de 1940 e 50, as pessoas em São Paulo eram mais elegantes. Todo mundo andava bem-vestido na rua, e a cidade era um chiquê só.

Claro que não é verdade, e a nostalgia não resiste a uma foto.

Basta ver estes homens caminhando em 1952 pela avenida Ipiranga, em seus ternos três números maiores que o corpo, sobrando pano pra tudo que é lado. Os saudosistas vão me desculpar, mas não consigo achar isso elegante.

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A foto é do jornalista George Grim (1912-2012), na época correspondente do jornal Minneapolis Tribune.

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“Quereis a saúde?
Bebei Ferro-Quina!”

A Ferro-Quina Bisleri servia para muita coisa: da anemia à tosse, da inapetência a problemas nervosos. Se curava alguma coisa eu não sei, mas por ser levemente alcóolica decerto ajudava a encarar todos esses males de forma mais leve e relaxada.

Vendido em farmácias, o santo remédio era anunciado pela cidade afora. Aqui vemos três anúncios: na via Anchieta, no viaduto Santa Ifigênia, e em algum ponto do centro de São Paulo que eu não consigo reconhecer.

Ultimamente apóstolos do atraso têm apregoado, para doença muito mais grave, panaceia de nome assemelhado. Este blog faz um alerta a seus leitores: não caiam na esparrela e não acreditem em imitações.

Foi-se há muito o tempo em que para os males da saúde havia remédios milagrosos. Quereis a saúde? Ficai em casa!

(O anúncio impresso é reproduzido da revista A Cigarra de abril de 1926. As três fotos são requentadas de outro post, que publiquei aqui no blog em dezembro de 2014.)

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Hoje não vou escrever no blog. Entro aqui só para divulgar um artigo sobre os Arcos do Bixiga que acaba de sair na revista Arquitextos, assinado por mim e pelo Diego Vargas.

A ideia do artigo foi reconstituir até onde possível a história dos Arcos a partir de fontes confiáveis. Ao fazer isso, o texto ajuda a esclarecer as lendas urbanas que envolvem esse monumento paulistano.

Para ler, é só clicar no link abaixo. Espero que gostem!

https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/20.239/7672

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De todas as imagens que já publiquei no blog, a de hoje é uma das mais raras, e certamente a que mais me impressionou. Eu já tinha visto a São Paulo desta época retratada neste ângulo em pinturas e gravuras, mas não me lembro de tê-la visto por este ângulo em foto.

São duas fotos que, postas lado a lado, formam uma panorâmica. O fotógrafo está na Várzea do Carmo, atual Parque Dom Pedro, e a visão que ele tem da cidade é bem completa. São Paulo ainda não cresceu muito além da colina histórica, e é pequena o suficiente para caber em duas chapas.

Sugiro clicar na imagem para ver melhor os detalhes. Na extremidade esquerda, cortada pela margem da primeira foto, há uma igreja que parece ser a da Boa Morte, existente até hoje na rua do Carmo. Seguindo pelo horizonte para a direita, uma segunda torre aparece em destaque: é o antigo convento do Carmo, ao lado do atual Poupatempo Sé. Uma terceira torre aparece um pouco mais à direita, e talvez seja de uma das igrejas que havia no antigo Largo da Sé. Demorei para achar a torre da igreja do Colégio, que aparece meio cortada na divisa entre as duas fotos. Curioso que o local de fundação da cidade apareça exatamente no centro da imagem formada pelas fotos. Deve ter sido de propósito.

Já na foto da direita, é impossível não notar um prédio baixo e comprido, cheio de portinhas. É o “mercado dos caipiras”. O mercadão atual funciona ali pertinho, em outro prédio, da década de 1930. À direita do mercado se vê uma longa fileira de casinhas, bem ao pé da colina. É a rua 25 de Março. No alto da colina, avista-se mais uma torre: pode ser a igreja do Mosteiro de São Bento (na época bem mais acanhada que hoje, e com uma torre só), ou então a antiga igreja do Rosário, demolida em 1903.

Quem quiser explorar mais, com certeza reconhecerá vários outros lugares interessantes. Aproveitem o passeio!

O par de fotos estava à venda na Alemanha, em um site, sem qualquer informação de autoria ou de data. A foto da esquerda está perfeita, e a da direita tem manchas que parecem ser defeito do próprio processo de revelação.

Provavelmente nunca saberemos quem é o fotógrafo, mas a data é relativamente fácil de aproximar. O mercado dos caipiras foi construído em 1867, portanto a imagem não pode ser anterior a isso. Mas também não é muito posterior, a julgar pelos montes de pedra e de areia ou terra que vemos espalhados pela várzea, indicando que a área está em plena reforma. Meu palpite é que são as obras feitas ali pelo governo da província na gestão de João Teodoro (1872-1875), quando o rio Tamanduateí teve suas primeiras obras de retificação. João Teodoro entregou a obra com o trecho de rio canalizado e alguns melhoramentos paisagísticos.

Ou seja: a imagem flagra o momento exato em que São Paulo começava a mexer com seus rios. Deu no que deu.

O post anterior, há duas semanas, foi sobre uma foto tomada de uma janela do hotel Jaraguá por algum turista ou visitante americano. Vejam só a coincidência: descubro agora estas outras quatro fotos, feitas do mesmo hotel, na mesma época, também por um viajante.

Entre as imagens dos dois posts há uma distância de 2 anos: estas são de 1959, a do anterior era de 1957.

Há também uma distância de 2 mil quilômetros. A do post anterior tinha aparecido em Johnston, no estado americano de Rhone Island; as de hoje estão em Plymouth, Illinois.

As quatro fotos de hoje foram feitas de diferentes janelas de algum andar alto, ou quem sabe do terraço de cobertura do hotel Jaraguá. Elas apontam para lados bem diferentes, então dá pra ter uma visão bem ampla da cidade. Quase uma síntese. A cores, coisa rara na época.

Na primeira foto, a grande estrela é o edifício Viadutos, de João Artacho Jurado, que já tinha aparecido no post anterior. Mas se lá o prédio ainda estava inacabado, com janelas sem esquadrias, aqui ele parece já ter ficado pronto (embora ainda esteja desocupado, como se nota pela ausência de cortinas).

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A segunda foto aponta para o lado oposto: uma avenida São Luís como sempre muito arborizada, onde casas baixas e prédios altos ainda convivem. À esquerda está o edifício Louvre, outro prédio do Artacho Jurado, ainda em construção. Atrás dele, chama a atenção a ausência do Itália. No lado direito da foto está o casarão onde funcionava o Laboratório Paulista de Biologia, que nos anos 60 deu lugar à Galeria Metrópole.

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O cenário da terceira foto é o que menos mudou. A biblioteca Mário de Andrade (vemos um pedacinho dela à esquerda) e os prédios da Xavier de Toledo não sofreram alterações. Também os quatro arranha-céus ao fundo (Banco do Brasil, Martinelli, Banespão e Conde Prates) permanecem mais ou menos do mesmo jeito. Em compensação, hoje seria difícil tirar a foto: um prédio construído há pouco tempo no canto inferior direito – o Setin Downtown São Luís, famoso pelos apartamentos de 18 metros quadrados – tamparia uma boa parte da visão do fotógrafo.

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Mas de todas as fotos, a que mais me fascina é a última, tirada dos fundos do hotel. Mais ou menos no centro da imagem está uma praça Roosevelt praticamente irreconhecível, antes da desfiguração que sofreu em 1970. Eu só soube que era a Roosevelt por causa da igreja da Consolação. E também graças à fachada curva do Teatro Cultura Artística, que se vê no lado inferior da praça, e ao prédio do colégio Porto Seguro (atual Escola Estadual Caetano de Campos), no superior.

Um pouco acima da praça está o Colégio Des Oiseaux, atual-futuro Parque Augusta. E a rua reta à esquerda dele é a Augusta, subindo em direção ao horizonte. O horizonte é a Paulista, ainda com poucos prédios.

Tem muitos outros detalhes que podem ser explorados, mas vou deixá-los para vocês.

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Fotos são imagens estáticas, filmes nos permitem ver movimento. Tem sido assim desde a invenção do cinema.

Mas certas fotos são teimosas, e é difícil não ver movimento nelas. É o caso desta aqui, de uma São Paulo em plena metamorfose, em 1957. Eu, pelo menos, olho pra ela e tenho a impressão de ver a cidade “se mexendo”.

O viaduto em primeiro plano é o Major Quedinho, sobre a avenida 9 de Julho. Está lá o edifício Major Quedinho, concluído poucos anos antes, em 1954. Sua bonita fachada em curva com sacadas, hoje coberta de hera, virou marca registrada do local.

E em torno do viaduto e do prédio, tudo o que se vê é paisagem em transformação. Na esquerda da foto, um edifício Viadutos ainda em obras (reparem nas aberturas ainda vazadas, sem esquadrias). Dali para a direita, vários esqueletos de concreto sendo erguidos, e outras tantas torres recém-acabadas. E entre eles estão velhas casas agonizantes e muitos terrenos cercados por tapumes, onde em breve pipocarão mais e mais esqueletos. A dinâmica está evidente na foto, sem que precisemos de um filme para mostrá-la.

A foto é um slide Kodachrome, coisa muito rara no Brasil dos anos 50. Embora essa tecnologia estivesse disponível em outros lugares do mundo desde 1935, entre nós ela ainda não tinha se difundido. Os filmes eram caros, e por aqui não havia onde revelá-los.

Isso, junto com o fato de a foto ter sido tirada de uma janela de hotel (o Jaraguá, na esquina da Consolação com a Martins Fontes) e ter aparecido à venda em Rhode Island, nos Estados Unidos, indica que o fotógrafo não é daqui. Só pode ser algum turista ou viajante de passagem pela cidade.

Eu fico pensando o que terá atraído a atenção desse gringo, motivando-o a fazer o clique. Minha aposta é que foi justamente essa feição mutante da paisagem: o novo substituindo o velho e os vazios sendo preenchidos, num processo que, de tão tão rápido, permitia tirar fotos “dinâmicas”.

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Dias atrás, por meio de uma fotografia de 17 por 23 centímetros que encontrei à venda na Internet, fui apresentado a este estabelecimento paulistano: a Brasserie High Life.

Graças a um carimbo (“Aristides Greco, photographo”) e uma anotação manuscrita no verso (“31 de maio de 1914”), temos informações precisas sobre a autoria e a data da foto. Mas as informações mais interessantes estão na imagem em si, que é repleta de detalhes. Por um deles – duas placas de rua na fachada – sabemos que a brasserie ficava em alguma esquina do Largo do Arouche. Em qual delas exatamente, dependerá da nossa habilidade para decifrar a placa da esquerda, semioculta por um poste e um galho de árvore. Eu matei a charada, mas vou guardar a resposta para o final do post.

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Também gostei da variedade de produtos, listada em pequenas tabuletas na fachada. São 7 placas no total, anunciando “sorvetes, refrescos, chops”, “café, leite, coalhada, chocolates”, “manteiga fresca e queijos de Minas”, “acceitam-se encommendas para festas”, “biscoutos e doces finos, fabricação especial”, e “cigarros 34, mistura da moda”.

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Um detalhe importante é o homem encarando a câmara, em pé junto a uma das portas da brasserie. É impossível não se sentir estranhamente atraído por essa figura soturna: reparem no olhar lúgubre, nas roupas forçadamente elegantes… Ele deve ser um funcionário à espera de clientes, mas eu confesso que pensaria duas vezes se tivesse que comer um “biscouto fino” ou qualquer coisa servida por alguém que me encara com esse ar.

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Há muitos outros detalhes, mas os deixo para a exploração do leitor. O que eu queria mesmo dizer é outra coisa. Até conhecer a foto eu nunca tinha ouvido falar desta Brasserie High Life, mas já sabia de um cinema homônimo, que funcionou também no Arouche nesta mesma época: o High Life Theatre. Fico imaginando que tipo de relação terá havido entre os dois estabelecimentos. Será que a brasserie era uma espécie de café do cinema? O tamanho da loja, as portas para a rua e a extensão do cardápio indicam que não. Talvez ambos pertencessem a um mesmo dono, daí os nomes idênticos, ou quem sabe um deles tenha apenas copiado a denominação do vizinho.

Seja como for, é muito provável que eles compartilhassem a mesma clientela, e isso nos diz algo sobre o imaginário do lazer paulistano daquele início do século 20. Assistir a um filme mudo numa sala de cinema, emendando com um lanche, um chope ou um café com “biscoutos” servido pelo atendente engravatado da brasserie ao lado, era um programa associado à ideia de bem-viver, de high life.

Fiquei curioso para descobrir em qual esquina exata funcionava a brasserie, já que apenas pela foto, como já vimos, não me foi possível saber. Não foi difícil achar a resposta. Em um anúncio publicado no Correio Paulistano, em 28 de fevereiro do mesmo ano de 1914, a “Secção de Licores” da Companhia Antarctica Paulista divulgava os endereços de seus principais distribuidores. Um dos citados é “Brasserie High Life, rua Sebastião Pereira”, matando a charada.

O ponto exato em que portanto ficava a Brasserie High Life – esquina do Largo do Arouche com a rua Sebastião Pereira – está hoje totalmente coberto pelo Minhocão, como se vê na foto abaixo. Sobre o viaduto, há quem esteja querendo implantar um parque ao estilo do novaiorquino High Line Park.

O que nos mostra que, de algum modo, a mudança nestes mais de 100 anos não foi tão grande assim: de high life para high line, a mudança é de apenas uma letra!

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“Nesta rua nº 7 é a entrada para a Casa Allemã”: só se for a entrada dos fundos, pois a foto é da rua da Quitanda, e a Casa Allemã funcionava na rua Direita, que é a primeira paralela.

De qualquer forma, o prédio que mais me chamou a atenção não está no número 7, mas no 17.

Ou no 127, seu endereço atual, já que até a numeração da rua, como quase tudo por ali, se modificou bastante.

Só não se modificou o sobradão, que até hoje assiste impassível às mudanças.

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(A foto da década de 1920 é minha mesmo; a atual é do Google Street View.)

Atualização às 14:15: Pouco depois da publicação do post, o Diego Vargas me confirmou que a Casa Allemã tinha, sim, uma entrada pela rua da Quitanda. A loja ficava na rua Direita, mas ia até o fundo do lote, comunicando as duas ruas. A informação está no livro “Cidade-exposição: comércio e cosmopolitismo em São Paulo”, de Heloisa Barbuy. Obrigado, Diego!