Hoje eu ganhei o dia. Logo de manhã, li o elogio que o Mauro Calliari me fez em seu blog “Caminhadas Urbanas”, hospedado no Estadão. Fiquei todo orgulhoso: um elogio do Mauro tem muito valor!

Para ler o post do Mauro, o link é este: https://goo.gl/oj9XS2. Mas como o Estadão dificulta o acesso para quem não é assinante, tomo a liberdade de reproduzi-lo abaixo.

Obrigado, Mauro, pela deferência. E fica aqui um alerta: se continuarem me elogiando desse jeito, vou acabar acreditando!

934
“AVENIDA TIRADENTES. DE CIMA DA PASSARELA, UMA NOSTALGIA QUASE INEVITÁVEL PELO PASSADO QUE NÃO VIVEMOS.

Mauro Calliari
14 Novembro 2016 | 14h14

O passado está na moda. Há uma profusão de sites, arquivos, revistas e iniciativas para lembrar das mudanças da cidade e da história de São Paulo.

Outro dia, estava caminhando com um amigo. Depois do Bom Retiro, cruzamos o Parque da Luz e resolvemos ir ao Museu de Arte Sacra, ali, do outro lado da Avenida Tiradentes. no lindo prédio do Mosteiro da Luz. A rampa da passarela sobe bastante, em zigue zague. Lá em cima, o choque.

O mar de carros invadiu a visão, o olfato, a audição, talvez até o paladar.

A cena automobilística me fez lembrar de uma foto antiga da avenida Tiradentes que eu tinha visto em alguns blogs. É do fotógrafo suíço Guilherme Gaensly, que ficou famoso pelas fotos das paisagens urbanas que fez de Salvador e São Paulo do finzinho do século XIX até 1925 . Ela mostra a av. Tiradentes como um bulevar, com fileiras de árvores, limpo, imaculado. De outro ângulo, dá para ver também o mosteiro, imponente, cercado de árvores e não  de carros e grades como agora.

A nostalgia pelo passado é um culto perigoso. Nunca as coisas eram tão boas quanto achamos que eram. A memória prega peças, selecionamos fatos bons e deixamos de lado coisas ruins. É fácil sentir nostalgia de um tempo em que éramos jovens e não tínhamos dor nas costas. A visão da cidade também corre esse risco. Diante de fotos lindamente enquadradas, uma paisagem limpinha, esquecemos de injustiças e segregações de outros tempos que nem chegamos a viver.

Mesmo assim, conhecer o passado é essencial para entender as contradições da cidade hoje.

Diante desses pensamentos sobre o passado, lembrei-me dos bons blogs de pessoas e grupos que se dedicam a lembrar a história de São Paulo. Há o São Paulo antiga, com boas histórias de lugares e pessoas. Uma página no facebook mantida pelos usuários tem mais de 70 mil pessoas conversando sobre memórias e contando histórias: Memórias Paulistanas, Outro blog interessantíssimo é Quando a cidade era mais gentil, do professor de políticas públicas Martin Jayo, que faz pesquisas minuciosas e produz textos saborosos sobre as transformações da cidade. Outro site bacana é o Sampa histórica, de onde puxei essas duas imagens. Vários museus mantém páginas com imagens antigas, o acervo do IMS é maravilhoso e os acervos da Folha e do Estado são muito ricos e interessantes.

Há muitos outros sites, claro; a cidade é rica em lembranças e em mudanças. A profusão de sites e iniciativas para conhecê-las mostra que estamos todos tentando encontrar nosso papel nessa história.

932

Não sei quase nada sobre Alice Lebeis. Mas pelo que achei na internet, fiquei sabendo que ela viveu em São Paulo, onde morreu em dezembro de 1960, aos 84 anos de idade. Em 1904, portanto, quando escreveu este cartão, ela tinha 27 anos, ou talvez já tivesse feito 28.

Parece que por essa época Alice se dedicava ao intercâmbio de postais, um passatempo bastante comum num tempo em que as pessoas não dispunham do Facebook para fazer amizades virtuais. Uma de suas correspondentes foi uma tal Madame Vanderman, que entre 1903 e 1904 recebeu dezenas de cartões como este, com vistas de São Paulo, e deve ter enviado outros tantos de Paris. Os que recebeu foram mantidos juntos até agora, e acabam de aparecer à venda em um site especializado, por 20 euros cada um. Eu acho caro.

Em geral, como era de praxe, em cada cartão que enviava Alice escrevia um recadinho curto com uma pequena explicação em francês sobre o lugar retratado. Neste aqui, porém, resolveu fazer diferente: mandou ver um poema inteiro, com quatro estrofes, e precisou espremer a letra para que coubesse tudo no cartão.

O texto se intitula “Le Rosier” (A Roseira), e começa assim:

Je l’ai planté, je l’ai vu naître,
Ce beau rosier où les oiseaux,
Au matin, près de ma fenêtre,
Viennent chanter sur ses rameaux

(Eu a plantei, eu a vi nascer
Essa linda roseira onde os pássaros
Pela manhã, perto da minha janela,
Vêm cantar sobre seus ramos)

Alice certamente colocou o poema no cartão por achar que ele ornava com a paisagem bucólica fotografada por Guilherme Gaensly. Num primeiro momento, eu imaginei que os versos fossem dela própria, mas o Google logo desmentiu minha impressão. Eles são na verdade uma versão meio piorada (Alice devia estar distraída, escrevendo de memória, e acabou errando um pouco) de uma conhecida letra de música. E não é uma letra qualquer: foi escrita no século 18 por Alexandre Deleyre (1723-1796), para uma canção composta por ninguém menos, vejam só, do que o filósofo Jean-Jacques Rousseau.

Mas nessa história toda, o que soa mais curioso hoje em dia é que uma paisagem dos Campos Elíseos, com a rua Barão de Piracicaba em primeiro plano, tenha lembrado a alguém uma música que fala sobre flores, passarinhos e tranqulidade na janela…

933

(A primeira imagem é de um cartão postal à venda na internet; a segunda é das Obras Completas de Rousseau, edição de 1825. Agradeço ao Marcos César da Silva, que me ajudou a identificar os Campos Elíseos na foto.)

A foto veio junto com a do post anterior. Devem ter sido tiradas na mesma noite, por volta de 1980.

Nesta aqui, mais uma vez o fotógrafo anônimo conseguiu um bonito efeito visual, retratando a avenida Paulista com um longo tempo de exposição.

O mais interessante é o conjunto de casas à direita, na quadra entre a Brigadeiro e a Carlos Sampaio. Ao contrário da foto, elas tiveram um tempo de exposição curto: desapareceram logo depois.

931

Hoje o lugar está assim: https://goo.gl/maps/wjrKUYgFZE92.

930

A foto estava meio amassada, entre dezenas de outras bem menos interessantes, à venda numa barraca da feira do Bixiga. Por 5 reais, ela veio para o blog.

Não há nenhuma indicação de quem seja o autor, mas obviamente é alguém que sabia fotografar e conseguiu um bonito efeito com o recurso da longa exposição.

Mas o efeito mais interessante da foto não é esse. Ele não foi intencional, e sequer podia ser percebido na época.

É que, curiosamente, tudo aquilo que na imagem saiu nítido continua em seu lugar até hoje. O Instituto Pasteur, o edifício Tuiuti, o totem com nome de rua e até mesmo a arvorezinha permanecem iguais. Esta última, se não for a mesma, é uma réplica perfeita…

Já o que aparece borrado – um Chevette, dois Fuscas, um Puma, um Passat e um Dodge Dart – sucumbiu à passagem do tempo e não existe mais por lá.

Quem quiser conferir, é só olhar a foto atual: https://goo.gl/maps/gtcBacoLRyo.

“A Seringueira Paulista” era uma tradicional loja de artefatos de borracha, que ao longo dos anos ocupou diferentes endereços na última quadra da rua Clélia, na Lapa. Nas fotos abaixo, aqui a vemos instalada respectivamente nos números 2285, 2293 e 2290.

922

923

924

Atualmente, nesses três endereços existem comércios bem menos sedutores. Os dois primeiros, hoje unificados, abrigam uma concessionária de carros da marca chinesa Chery. No terceiro funciona uma loja de motos.

Mas o que eu gosto mesmo é o resto do álbum, que parece ter pertencido aos donos da Seringueira Paulista. Elas nos fazem passear por uma rua Clélia bem mais tranquila, no começo dos anos 70.

Destaque para o prédio da Escola Estadual Pereira Barreto, praticamente o único que não se alterou, e também para o posto de gasolina com frentistas gêmeos, no terreno hoje ocupado por uma escola de inglês CNA.

920

Esta fábrica de Coca-Cola ficava no Ipiranga, na avenida Teresa Cristina esquina com rua Lima Barreto. Não sei quando foi construída, mas na foto ela parece ter uma atmosfera meio anos 50.

Também não sei quando foi demolida. Só sei que parte de sua fachada permaneceu em pé, convertida em muro.

A antiga fachada tem cumprido muito a bem sua nova função segregacionista: seja lá o que for que ela protege, da rua não dá nem pra saber do que se trata. E sua metamorfose sintetiza bem a evolução de São Paulo, que deixou de ser uma cidade de fábricas para virar uma cidade de muros.

921

A foto da fábrica, cuja autoria desconheço, tem uma data anotada no verso: 1969. A foto do muro é reproduzida do Google.

Em quase cinco anos de blog, eu nunca tinha postado uma foto minha por aqui. Mas hoje, mexendo numas coisas velhas de família, acabei encontrando esta e não resisti.

Pelo meu tamanho, a foto deve ser de 1976. Mas o mais interessante nela não sou eu, e sim a vista para a rua Itambé. As casas do outro lado da rua não estão mais lá. Hoje existe um prédio feio, cercado por muro bege, que se chama Neoclass Helbor Higienópolis.

As casas não tinham nome, mas eram bem mais legais de se ver.

917