Não faço ideia de quem são as duas crianças, mas a rua Maria Antônia, com o prédio da USP à esquerda e o muro do Mackenzie à direita, é inconfundível.

A data está anotada no verso – junho de 1968 – e é ela que torna a foto singular. A Maria Antônia de 68 ficou tão associada aos violentos confrontos de outubro, que parece até estranho que tão pouco tempo antes ela tenha sido palco de uma cena terna e suave como esta.

Pra completar, o carro da foto é um Simca Chambord, o mesmo que a banda Camisa de Vênus homenageou décadas depois. Na música, o Simca simboliza o clima de alegria e descontração dos anos 1960, que a ditadura enterrou:

Eu vi um futuro melhor
No painel do meu Simca Chambord
[…]
Mas eis que de repente foi dado um alerta

Ninguém saía de casa
E as ruas ficaram desertas
Eu me senti tão só
Dentro do Simca Chambord
Tudo isso aconteceu há mais de vinte anos
Vieram jipes e tanques
Que mudaram os nossos planos
Eles fizeram pior
Acabaram com o Simca Chambord!

E pensar que, tantos anos depois, estamos com a ré do Simca engatada de novo.

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Meu amigo Marcos César da Silva me fez viajar em lembranças, ontem, quando postou no Facebook esta foto de uma casa na Avenida Angélica. Em geral não falo muito de mim aqui, afinal o blog é sobre memórias de São Paulo, e não sobre as minhas, mas hoje não vai dar pra separar.

A foto não está datada, mas os vestidos e chapéus das duas mulheres sugerem que seja da década de 1920. A casa não pode ter sido construída muito antes, então gosto de pensar que as pessoas no portão são seus primeiros moradores, posando orgulhosos ao lado da casa nova. O endereço anotado à mão, Avenida Angélica número 1-A, permaneceria assim até a década de 1930, quando São Paulo adotou o sistema métrico vigente até hoje. Como a casa ficava a 55 metros do início da avenida, o endereço dela passou a ser Avenida Angélica 55.

Nos anos 80, quando eu conheci a casa, esse pessoal da foto já não andava mais por lá. Quem ocupava a casa era um casal já meio idoso, de quem guardo afetuosas lembranças.

Ele se chamava Marc e era francês. Ela chamava-se Miriam (mas todo mundo a conhecia por Dona Mary) e era de algum país da Europa Oriental, não lembro mais qual. Ambos judeus, chegados ao Brasil já casados, na década de 40, fugindo do horror nazista. Eles não moravam na casa. Eram meus vizinhos num prédio não muito longe dali, eles num apartamento no primeiro andar, eu no terceiro. Na casa da Angélica eles tinham uma editora de livros, a Nova Época Editorial. Eu nunca perguntei, mas sempre imaginei a razão desse nome: é um nome bonito para o negócio de alguém que deixou tudo pra trás e teve de recomeçar a vida.

Eu tinha uns 12 ou 13 anos quando comecei a visitar a editora, a convite deles, e sempre saía de lá com uns livros de presente. Foi assim que conheci a casa por dentro. Continuei ganhando livros até meus 16 ou 17 anos, e vários deles conservo até hoje.

O que eu achava estranho, na época, é que embora meus vizinhos fossem um casal muito culto, sofisticados até, o catálogo deles não primava em absoluto pela qualidade. Os livros eram baratos (pelo menos é a memória que tenho), mas nenhum se salvava: eram todos muito ruins.

Lembro, por exemplo, de uns dicionários curiosos. Tinha um Dicionário de Siglas e Abreviaturas, que o próprio dono da editora assinava como autor. E um Dicionário Multilíngue, que servia para traduzir palavras de qualquer idioma para qualquer outro. Curiosamente era um volume fino, que condensava essas línguas todas em umas cento e poucas, talvez duzentas páginas. Muitos títulos da Nova Época ainda podem ser achados em sebos. Numa busca rápida pelo nome da editora no site Estante Virtual, encontrei alguns: “Cavalos de Raça e Mulheres de Classe”, de David Niven; “Xaviera Supersex”, de Xaviera Hollander; “Shampoo”, de Robert Alley; “Como se entender melhor com seu filho”, de Shirley Camper Soman.

Também tinha uma biografia do Santos Dumont pelo jornalista Fernando Jorge, talvez o único livro melhorzinho. Esse também é o único que continua sendo reeditado, atualmente no catálogo de outra editora.

Mas eu quero falar mesmo é dos livros do Franz Kafka. Naquela época a obra do Kafka ainda não estava em domínio público, e a editora do casal Mary e Marc detinha os direitos de publicação no Brasil. E eles a publicavam em edições muito mal feitas, toscas mesmo. Nem sequer traduziam do original alemão. As traduções do Kafka eram feitas a partir de edições já traduzidas ao inglês!

Mas o fato é que eram esses os livros que eu ganhava e faziam a minha alegria. E foi desse jeito que, ainda adolescente, fui incentivado a ler A Metamorfose e O Processo. Felizmente, alguns anos depois a obra do Kafka passou a ser publicada pela Brasiliense, e eu pude ler tudo de novo em traduções decentes.

Quando o sr. Marc morreu, no final dos anos 80, Dona Mary fechou a editora. Continuou morando no meu prédio um bom tempo, mas depois se mudou e eu perdi o contato. Fiquei sabendo que ela morreu quase centenária, em 2016.

A casa também ficou em pé por muitos anos, com outros usos. Foi demolida em 2015 e até hoje não construíram nada no lugar, como se vê nas fotos do Google que reproduzo no final do post.

Passados tantos anos da minha convivência com eles, eu me lembro com carinho do casal de editores e lhes agradeço por terem publicado tanto livro ruim. Devia ser o que vendia, e o que dava pra fazer. E muita gente, como eu, deve ter tomado gosto pela leitura lendo os livros rústicos e baratos que eles faziam. Hoje tem bem menos livros sendo feitos, e os que tem são bem menos acessíveis. Assim como aconteceu com a casa, ninguém construiu nada melhor no lugar.

Hoje o post não é meu. Uso o espaço do blog para divulgar um texto sobre memórias de São Paulo que o Emerson Meneses, doutorando da EACH-USP, publicou ontem no blog do seu grupo de pesquisa.

Alguns autores, como a historiadora gaúcha Sandra Pesavento e o arquiteto paulista Benedito Lima de Toledo, já usaram a imagem do palimpsesto – pergaminho que é raspado para dar espaço a novas camadas de escrita – como metáfora para o espaço e a memória da cidade. O apagamento nunca é perfeito, e novas escritas são sempre feitas sobre vestígios das anteriores.

Emerson é cirúrgico ao exlorar, por meio de “queertografias”, camadas apagadas do pergaminho urbano. Vale muito ser lido:

https://pesquisaqualiemcena.blogspot.com/2021/03/o-que-e-lembrado-vive-quatro.html

Eu tenho escrito muito pouco aqui no blog, mas de vez em quando escrevo em outros lugares. Então passo aqui hoje para compartilhar com vocês este meu artigo, em parceria com Adriana Lima, que acaba de sair na revista Domínios de Linguagem, editada na Universidade Federal de Uberlândia.

O artigo é sobre a comercialização de “naming rights” e sua chegada às estações do metrô de São Paulo. Discussão atualíssima, que está no noticiário da semana e tem tudo a ver com a memória da cidade.

Aqui vão o título e o resumo do trabalho:

Comodificação Toponímica e a Cidade Neoliberal: sobre a venda de direitos de nomeação (naming rights) das estações do metrô de São Paulo

Depois de quase três décadas sendo praticada na cidade de São Paulo em equipamentos privados como cinemas, teatros e mais recentemente estádios esportivos, a comercialização de direitos de nomeação chega também a espaços de propriedade estatal: em abril de 2020, a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Cia. do Metrô) anunciou um projeto de conceder à exploração privada o direito de nomear suas estações. Este artigo analisa esse projeto, suas premissas e expectativas. Conclui que uma série de conflitos relacionados à memória da cidade e a seus marcos espaciais, embora apontados em estudos recentes sobre comodificação toponímica e também sugeridos pelos próprios antecedentes paulistanos no tema, não parecem fazer parte da agenda de preocupações do projeto.

E pra quem se interessar, o texto em pdf (em duas versões: português e inglês) está disponível no link abaixo. Espero que gostem!

http://www.seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/57050

Fotos dos bondes de São Paulo são muito comuns na internet. Quase todas são do exterior do bonde, como essa aí de cima, e costumam despertar sentimentos saudosistas. “Ai, como era bom andar de bondinho”, as pessoas gostam de comentar, morrendo de saudade do que não viveram.

São bem mais raras as imagens do interior dos veículos, como essa aí embaixo, que permite apreciar mais de perto a experiência de andar de bonde.

O que eu mais gosto nessa segunda foto é a clara divisão em dois planos, muito contrastantes. O plano inferior é da realidade. O de cima é o do desejo, das idealizações criadas pela publicidade.

Eu contei, em toda a imagem, um total de dois rostos alegres e um olhar bem-disposto: todos no plano de cima. No de baixo, só mesmo semblantes pesados, transmitindo cansaço, desesperança e resignação. O estado desses passageiros, em sua maioria trabalhadores, é de acabar com qualquer saudosismo.

Interessante também ler o que diz um dos anúncios em cima deles:

“2 amigos de sua beleza: pó de arroz compacto e baton Kadija Palermont”.

O pó de arroz e o batom talvez fossem mesmo amigos da beleza. Já o bonde e a vida na cidade certamente não eram!

(As fotos são reproduzidas de dois slides Kodachrome datados de janeiro de 1957. São com certeza do mesmo autor, e possivelmente do mesmo bonde.)

Este é um blog que fala do passado da cidade, mas hoje abro uma exceção e falo do presente.

Em abril, meu amigo (virtual, mas ainda assim amigo) Mauro Calliari publicou em seu blog Caminhadas Urbanas, e em seguida também na revista Arquiteturismo, um sensível artigo sobre os encantos de caminhar nas escadas do próprio prédio, descobertos durante a pandemia de Covid 19.

Andarilho contumaz, Mauro se viu forçado a caminhar bem menos por causa da quarentena. E resolveu então que, pelo menos, não usaria mais o elevador. “Moro no 11º andar, então, nas poucas vezes em que preciso descer, ponho a máscara e encaro as escadas com determinação”, conta ele. E as subidas e descidas acabaram se revelando “uma experiência surpreendentemente boa, incapaz de rivalizar com as surpresas e prazeres das caminhadas na rua, mas que tem seus encantos”.

Mauro atribui uma parte desses encantos aos sapatos deixados pelos vizinhos para fora das portas, uma atração especial oferecida pela pandemia:

“Há vários, por toda parte. No terceiro andar, porém, tem o meu preferido, o casal de All Star. Antes, tinha só um par, vermelho. Um dia, apareceu outro par, um branco, menorzinho, como se não pudessem ficar longe um do outro”.

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O texto do Mauro influenciou a minha própria fruição das duas escadarias que tenho frequentado: a do meu próprio prédio, onde moro no 3º andar, e a do prédio dos meus pais, enclausurados desde março no 12º.

Juntando-se por vezes a cheiros, a vozes ou música, a um ou outro objeto decorativo e à enorme variedade de tapetinhos e capachos, os sapatos na porta de cada casa tornaram-se um prazeroso meio de fabular histórias, sinais sugestivos da vida que há lá dentro. Alguma coisa tem que ter poesia e beleza neste período tão triste. Que sejam então os sapatos dos vizinhos!

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Mas por que conto isso agora? Porque quero relatar que esta semana, aqui no prédio onde moro, matou-se essa poesia.

Faço aqui uma reconstituição do crime. Tudo começou no início do mês, quando o elevador de serviço foi parado para reforma. A explicação veio por meio de uma circular aos moradores e um aviso caprichosamente pendurado em cada andar: teremos uma equipe de técnicos trabalhando no prédio por 30 dias. Durante esse tempo teremos que subir e descer a pé, mas a compensação virá. Ao fim do período, desfrutaremos de um “equipamento modernizado com tecnologia de última geração”!

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Eu poderia contar pra vocês o que achei sobre fazer essa obra durante a pandemia, ou sobre o significado simbólico de iniciá-la na semana em que se atingia a terrível marca dos 100 mil mortos oficiais. Mas não vou fazê-lo, porque só vim mesmo para falar de sapatos. E também porque, no fundo, a perspectiva de subir e descer a pé por um mês não estava me incomodando: eu já gostava disso desde abril, graças ao Mauro!

Mas um segundo e fatal golpe veio alguns dias depois, na forma de uma nova circular. Já que, além de sapatos, também estou falando de poesia, reproduzo aqui os versos do poema recebido:

“Prezados Srs. Condôminos,
Na qualidade de administradores e por determinação do Corpo Diretivo, vimos ressaltar que é expressamente proibido depositar quaisquer objetos (todo e qualquer tipo de calçado […]) nas áreas comuns do condomínio, como escadarias e hall de serviço, que são rota de fuga, e no hall social. Informamos que tal prática caracteriza infração regulamentar, estando sujeita às sanções previstas na Convenção Condominial, tais como advertência e multa. Sem mais, contando com a colaboração e compreensão de todos, subscrevemo-nos.”

Pelo jeito, quando a falta de elevador mostrou poesia condominial àqueles que ainda não a conheciam, houve quem se incomodou. A beleza tem dessas coisas: alguns convivem bem com ela, outros precisam varrê-la escada abaixo.

Paro por aqui, para ir fazer minha despedida. Ainda dá tempo de subir e descer todos os andares uma última vez.

(As duas primeiras fotos são de Mauro Calliari, no prédio dele. A terceira é minha, no meu.)

Esta é a segunda tentativa de publicar este post. Uma versão anterior dele, que se chamou “Os enigmas do Ipiranga”, foi publicada algumas semanas atrás e chegou a ficar uns dias no ar, mas depois resolvi tirá-la do blog. Já já explico por quê.

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Tudo começou quando encontrei este cartão postal, que uma tal de Marcie (parece ser esse o nome) recebeu em 1908 lá na cidade de Spa, na Bélgica:

Ma chère Marcie,
Pour l’elève photographe j’envoie une vue chic prise de la fenêtre de la maison vers le Musée d’Ypiranga; pour tous trois, tout ce qu’il y a de plus choisi comme souhaits de nouvel an de la part de Jeanne, des enfants et de Louis.

(Minha querida Marcie,
Para o aprendiz de fotógrafo, eu envio uma vista chique tomada da janela de casa em direção ao Museu do Ipiranga; para todos os três, tudo o que houver de melhor, como desejo de ano novo da parte de Jeanne, das crianças e de Louis.)

O texto pode até parecer trivial, mas para mim ele guardava três mistérios, e o post convidava os leitores a opinar sobre eles:
1. Se isto é um cartão postal, como assim a foto foi tirada “da janela de casa”?
2. Como alguém pode achar chique essa paisagem cheia de mato?
3. Onde ficava essa tal “janela de casa”, se é que de fato existiu?

Os leitores do meu blog são sempre muito generosos. Dois deles, a Mariana Pabst Martins e o Luís Salvucci, rapidamente resolveram o enigma nº 1. Eles me lembraram que, na época, era relativamente comum as pessoas mandarem fazer suas fotos com o verso preparado para cartão postal, para enviá-las pelo correio. Normalmente, esses cartões eram feitos com retratos de gente. Mas nada impedia que mostrassem alguma outra coisa, por exemplo a vista da janela.

Mariana e Luís têm razão: eu mesmo me lembro de já ter visto alguns cartões assim: o retrato da pessoa ou uma pose da família de um lado, e o impresso padronizado de cartão postal do outro. Mas não me lembrei disso ao escrever o post. Enigma resolvido!

O enigma nº 2 foi desvendado por outra leitora, minha amiga Patricia Carvalhinhos, professora do curso de Letras da USP. Para ela, a solução é linguística: a palavra “chic”, em francês, tanto pode referir-se a elegante ou refinado, como a bonito ou agradável. No Brasil estamos acostumados ao galicismo “chique” com o primeiro desses sentidos, mas desconhecemos o segundo. A vista da janela, então, é “chic” no sentido de bonitinha, pitoresca. E a explicação da Patricia é “chic” de chique mesmo!

Já o terceiro enigma foi o que mais deu trabalho, e a culpa foi toda minha.

É que, na postagem original, ele foi o único dos três que eu tentei responder. Desenvolvi um longo e tortuoso raciocínio para descobrir o ponto exato de onde a foto teria sido tirada em 1908.

A teoria era muito bonita, mas tinha um pequeno defeito: estava toda errada. Quando o José Carlos Vaz me convenceu disso, resolvi retirar o post do ar por um tempo, para reescrevê-lo. Afinal, por mais que desinformação e notícia falsa estejam em alta na internet, essa moda não chegou a este blog. Nos dias seguintes, com ajuda do Diego Vargas, que é bom detetive, comecei uma pesquisa pra ver se resolvíamos o enigma de forma correta.

E não é que conseguimos? Não só descobrimos de onde a foto foi realmente tirada, mas de quebra resolvemos um quarto mistério, que nem estava listado: quem são Jeanne, as crianças e Louis, a família que assina a mensagem do cartão.

Não vou contar aqui todos os detalhes da investigação, mas o fato de o cartão ter sido enviado a Spa foi, desde o início, uma pista importante. Em 1908 devia haver em São Paulo pouca gente dessa cidade, mandando cartões para amigos ou parentes. Fazia sentido, então, pesquisar famílias belgas morando por aqui na época.

A segunda pista importante veio em um artigo de pesquisadores do Instituto de Zootecnia do Estado de São Paulo, apresentado em 2010 no 2º Seminário de Patrimônio Agroindustrial, na Escola de Engenharia da USP em São Carlos.

O artigo conta a história do Posto Zootécnico Central, instituição que durante anos ocupou um grande terreno com frente para a atual rua Borges de Figueiredo, na Mooca. Ao ser inaugurado em 1905, o Posto Zootécnico teve como diretor provisório um engenheiro agrônomo belga (Hector Raquet, professor do Real Instituto de Agricultura de Gembloux), que, por sua vez, acabou trazendo da Bélgica outros agrônomos, imagino que ex-alunos seus. Um deles se chamava Louis Misson.

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O artigo ainda mostra uma planta do Posto Zootécnico datada de 1909, e descreve as benfeitorias ali existentes. Na página 2, lemos o seguinte:

“Quase metade da área é assinalada como sendo de várzea e a outra metade, parte em capoeira e parte com construções rurais, residências, pista para desfile de animais, campos de experimentação, horta e pomar, piquetes com pastagens, caixa d’água, bebedouro e estrumeira.”

As pistas estavam ficando quentíssimas. Já tínhamos um lugar descampado como o do cartão, que tinha residências, onde moravam belgas. A localização (imediações da rua Borges de Figueiredo, Mooca) é bastante compatível com o ângulo em que o museu aparece na foto. E um dos belgas do lugar se chamava Louis!

Para ter certeza mesmo, faltava encontrar uma ligação desse Luis Misson, do Posto Zootécnico, com a cidade de Spa, para onde o cartão foi enviado. Não foi difícil achá-la: bastou uma busca rápida em arquivos de jornais. Uma ata de reunião da Sociedade Rural Brasileira, publicada na Folha da Manhã de 21 de abril de 1929, menciona que o “dr. Luiz Misson e filho, exportadores de animaes de raça pura, de Spa, na Belgica” estavam pleiteando tornar-se sócios da instituição.

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Com isso a história se fechou: o Louis do cartão para Spa era mesmo o agrônomo Louis Misson. Em 1908, ele morava com a família em uma das residências do Posto Zootécnico, de onde a vista que se tinha em direção ao museu era essa mesmo. E em 1929 ele continuava por aqui, com o nome abrasileirado para Luiz mas ainda trabalhando com gado. O terceiro enigma do Ipiranga (que na verdade era da Mooca) estava assim resolvido.

O mais curioso é que só depois de todo esse trabalho eu fui me lembar deste outro post, sobre o Posto Zootécnico, que publiquei há 7 anos, e que mostra que de certa forma a resposta já estava aqui no blog. Se alguém ainda tiver dúvida de onde a foto do cartão foi tirada, basta comparar a posição do museu nas fotos dos dois posts.

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Depois disso tudo, só espero que o Vaz não destrua de novo a minha argumentação! 😀

Os saudosistas adoram dizer que, lá pelas décadas de 1940 e 50, as pessoas em São Paulo eram mais elegantes. Todo mundo andava bem-vestido na rua, e a cidade era um chiquê só.

Claro que não é verdade, e a nostalgia não resiste a uma foto.

Basta ver estes homens caminhando em 1952 pela avenida Ipiranga, em seus ternos três números maiores que o corpo, sobrando pano pra tudo que é lado. Os saudosistas vão me desculpar, mas não consigo achar isso elegante.

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A foto é do jornalista George Grim (1912-2012), na época correspondente do jornal Minneapolis Tribune.

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“Quereis a saúde?
Bebei Ferro-Quina!”

A Ferro-Quina Bisleri servia para muita coisa: da anemia à tosse, da inapetência a problemas nervosos. Se curava alguma coisa eu não sei, mas por ser levemente alcóolica decerto ajudava a encarar todos esses males de forma mais leve e relaxada.

Vendido em farmácias, o santo remédio era anunciado pela cidade afora. Aqui vemos três anúncios: na via Anchieta, no viaduto Santa Ifigênia, e em algum ponto do centro de São Paulo que eu não consigo reconhecer.

Ultimamente apóstolos do atraso têm apregoado, para doença muito mais grave, panaceia de nome assemelhado. Este blog faz um alerta a seus leitores: não caiam na esparrela e não acreditem em imitações.

Foi-se há muito o tempo em que para os males da saúde havia remédios milagrosos. Quereis a saúde? Ficai em casa!

(O anúncio impresso é reproduzido da revista A Cigarra de abril de 1926. As três fotos são requentadas de outro post, que publiquei aqui no blog em dezembro de 2014.)

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Hoje não vou escrever no blog. Entro aqui só para divulgar um artigo sobre os Arcos do Bixiga que acaba de sair na revista Arquitextos, assinado por mim e pelo Diego Vargas.

A ideia do artigo foi reconstituir até onde possível a história dos Arcos a partir de fontes confiáveis. Ao fazer isso, o texto ajuda a esclarecer as lendas urbanas que envolvem esse monumento paulistano.

Para ler, é só clicar no link abaixo. Espero que gostem!

https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/20.239/7672