A foto é dos primeiros anos do século passado, ali por volta de 1910. Ela mostra a parte nova e moderna da cidade, que crescia com força depois que a mancha urbana atravessara o vale do Anhangabaú. Talvez por isso tenha sido estampada em cartão postal.

O edifício grande e quadradão que ocupa quase um quarto da imagem, na parte inferior esquerda, é o mercado São João, instalado em 1890 na rua de mesmo nome, para abastecer de alimentos a cidade em expansão. Ficava onde hoje é a Praça do Correio, mas não durou muito: foi derrubado em 1916, com as obras que transformaram a rua São João em avenida.

As demais construções não tiveram sorte muito diferente, e em poucas décadas quase tudo que vemos na foto também foi varrido da paisagem.

Com duas grandes exceções. A primeira e mais fácil é o Teatro Municipal, que já se vê imponente na foto, embora ainda em construção. Ele ficaria pronto em 1911.

E a segunda é o casarão branco quase no centro da imagem, com cinco janelas na frente e publicidade estampada na empena lateral. É o prédio que por muitos anos abrigou o Conservatório Dramático e Musical, e que segue em pé na avenida São João, 269.

Um teatro e uma escola de música: não deixa de ser interessante que os dois prédios da foto que conseguiram sobreviver sejam justamente os dedicados à cultura e às artes.

A probabilidade de dois posts seguidos sobre a Vila Bertioga era baixíssima, mas o improvável às vezes acontece. Poucos dias depois da foto que Diniz de Mello Fraga enviou à sua madrinha, eis que cai nas minhas mãos esta outra, que um vizinho dele mandou para a Eslovênia.

O Cine Bertioga abriu em 1953, mas os filmes anunciados na fachada mostram que a foto é de uns anos depois. “Testemunha do crime” é de 1954, e “Os tiranos também morrem” foi lançado em 1955. Há ainda mais dois filmes em cartaz: “Bomba em a selva do terror”, de 1952, e “Em busca de amor”, sobre o qual não encontrei nada.

O cinema ficava na rua Teresina 625, dez minutos a pé da casinha do post anterior. A madrinha do Diniz tinha portanto não só uma casa às suas ordens, mas também um cinema para se entreter. Se fosse hoje, ela teria que andar 4 quilômetros até o Shopping Plaza Mooca.

A foto foi revelada por ali mesmo, no número 221 da mesma rua. Taí outra coisa que não dá mais pra fazer no bairro.

O texto em esloveno, que o google me ajudou a traduzir, não permite saber quem são o homem e os três meninos na porta, mas nos conta um pouco do cinema por dentro:

“Toje naś kino ima 770 mesta napred ima salu di če kaju i sa strasse ularak to śtó pise to je ime od kino.”
(Nosso cinema tem 770 lugares. Na frente há um salão de espera, e o que se lê da rua é o nome do cinema.)

Um cinema de bairro com 770 lugares! Hoje nem os complexos de shopping têm isso.

“Madrinha
esta e a nova Rezidencia que mandei fazer recente mente na cuál esta as cuas ordes
Sao Paulo 24 de Novembro
Rua Jaboticabál 245
afilhado Diniz de Mello Fraga”

A rua Jaboticabal fica na Vila Bertioga, simpático bairro no distrito da Mooca. Mas a casa da foto não está mais no número 245. No seu lugar ergueu-se outra bem maior.

Diniz de Mello Fraga deu o endereço completo, mas foi impreciso na data. Ele enviou a foto à madrinha em 24 de novembro, mas não sabemos de que ano.

De qualquer forma, foi num tempo em que um trabalhador pouco letrado como ele conseguia “mandar fazer” uma casinha como esta na Mooca e colocá-la às ordens da madrinha.

Hoje ele estaria ralando num Uber ou entregando iFood. Talvez nem isso.

A Vila Itororó está na moda. Transformada em centro cultural, ela foi aberta ao público há pouco mais de um mês. É o resultado de um longo processo, que envolveu o tombamento pelo Conpresp em 2002 e pelo Condephaat em 2005, a desapropriação em 2010, a luta dos moradores para ficar, a remoção deles em 2011, e um minucioso projeto de restauração que ainda não foi concluído e provavelmente nunca será. 

Compartilho com vocês estas fotos, que foram feitas muito provavelmente na década de 1940. São de um tempo em que a vila não estava na moda. Ao contrário: sua fase áurea já tinha passado, e ela começava a se encortiçar. Foi nesta época que se consolidou sua vocação para local de moradia popular.

Não faço ideia de quem fez as fotos, nem para que, mas gosto de imaginar um possível caminho que o fotógrafo percorreu. Vejo-o chegando na vila por cima, pela rua Martiniano de Carvalho, de onde tirou a primeira foto:

Descendo o escadão, ele chegou aos pés das enormes colunas que sustentam a casa principal, e que em outros tempos também foram do Teatro São José. Impossível não notá-las, tamanha sua imponência e desproporção. Aqui ele tira mais duas fotos.

Seguindo o caminho de paralelepípedos, nosso fotógrafo não tardou a alcançar a outra ponta, na rua Maestro Cardim. Ali, uma segunda presença imponente chamou sua atenção: a vila acabava em uma gigantesca área verde, com direito a campo de futebol. Era o Vale do Itororó, parque urbano improvisado que se perdeu anos depois, com a abertura da avenida 23 de Maio.

Um parque anexo. Taí uma coisa que projeto nenhum de restauração vai devolver à Vila Itororó.

A foto atual, que abre o post, é da Secretaria Municipal da Cultura (imagem divulgação). As demais são parte de um conjunto de 15 fotos da Vila Itororó e seu entorno, encontrado à venda sem informações quanto à data ou autoria. Arrisco que sejam de meados da década de 1940.

A foto, de 1934, é de um casal endinheirado morador do Jardim América. Ela está dentro do carro; ele, certamente atrás da câmera.

Pelo jeito, a intenção foi enviar para a Alemanha um registro do padrão de vida conquistado por aqui. Eu não falo nada de alemão, mas o Google me ajudou a traduzir:

Unsere privatvilla, rua Venezuela 35 im hintergrund. Unser neuer Chevrolet-wagen kaki farbe hell, mit dunkelbraum.”

(Nossa villa privada, na rua Venezuela 35, ao fundo. Nosso novo Chevrolet de cor caqui e marrom.)

Sorte deles terem feito esse registro, que atualmente seria impossível.

Quem mora hoje nesse bairro (se é que alguém mora, pois olhando não dá pra saber) conseguiria no máximo fotografar a mulher e o carro. A casa fica sempre invisível, escondida atrás de um muro fortificado.

Não faço ideia de quem são as duas crianças, mas a rua Maria Antônia, com o prédio da USP à esquerda e o muro do Mackenzie à direita, é inconfundível.

A data está anotada no verso – junho de 1968 – e é ela que torna a foto singular. A Maria Antônia de 68 ficou tão associada aos violentos confrontos de outubro, que parece até estranho que tão pouco tempo antes ela tenha sido palco de uma cena terna e suave como esta.

Pra completar, o carro da foto é um Simca Chambord, o mesmo que a banda Camisa de Vênus homenageou décadas depois. Na música, o Simca simboliza o clima de alegria e descontração dos anos 1960, que a ditadura enterrou:

Eu vi um futuro melhor
No painel do meu Simca Chambord
[…]
Mas eis que de repente foi dado um alerta

Ninguém saía de casa
E as ruas ficaram desertas
Eu me senti tão só
Dentro do Simca Chambord
Tudo isso aconteceu há mais de vinte anos
Vieram jipes e tanques
Que mudaram os nossos planos
Eles fizeram pior
Acabaram com o Simca Chambord!

E pensar que, tantos anos depois, estamos com a ré do Simca engatada de novo.

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Meu amigo Marcos César da Silva me fez viajar em lembranças, ontem, quando postou no Facebook esta foto de uma casa na Avenida Angélica. Em geral não falo muito de mim aqui, afinal o blog é sobre memórias de São Paulo, e não sobre as minhas, mas hoje não vai dar pra separar.

A foto não está datada, mas os vestidos e chapéus das duas mulheres sugerem que seja da década de 1920. A casa não pode ter sido construída muito antes, então gosto de pensar que as pessoas no portão são seus primeiros moradores, posando orgulhosos ao lado da casa nova. O endereço anotado à mão, Avenida Angélica número 1-A, permaneceria assim até a década de 1930, quando São Paulo adotou o sistema métrico vigente até hoje. Como a casa ficava a 55 metros do início da avenida, o endereço dela passou a ser Avenida Angélica 55.

Nos anos 80, quando eu conheci a casa, esse pessoal da foto já não andava mais por lá. Quem ocupava a casa era um casal já meio idoso, de quem guardo afetuosas lembranças.

Ele se chamava Marc e era francês. Ela chamava-se Miriam (mas todo mundo a conhecia por Dona Mary) e era de algum país da Europa Oriental, não lembro mais qual. Ambos judeus, chegados ao Brasil já casados, na década de 40, fugindo do horror nazista. Eles não moravam na casa. Eram meus vizinhos num prédio não muito longe dali, eles num apartamento no primeiro andar, eu no terceiro. Na casa da Angélica eles tinham uma editora de livros, a Nova Época Editorial. Eu nunca perguntei, mas sempre imaginei a razão desse nome: é um nome bonito para o negócio de alguém que deixou tudo pra trás e teve de recomeçar a vida.

Eu tinha uns 12 ou 13 anos quando comecei a visitar a editora, a convite deles, e sempre saía de lá com uns livros de presente. Foi assim que conheci a casa por dentro. Continuei ganhando livros até meus 16 ou 17 anos, e vários deles conservo até hoje.

O que eu achava estranho, na época, é que embora meus vizinhos fossem um casal muito culto, sofisticados até, o catálogo deles não primava em absoluto pela qualidade. Os livros eram baratos (pelo menos é a memória que tenho), mas nenhum se salvava: eram todos muito ruins.

Lembro, por exemplo, de uns dicionários curiosos. Tinha um Dicionário de Siglas e Abreviaturas, que o próprio dono da editora assinava como autor. E um Dicionário Multilíngue, que servia para traduzir palavras de qualquer idioma para qualquer outro. Curiosamente era um volume fino, que condensava essas línguas todas em umas cento e poucas, talvez duzentas páginas. Muitos títulos da Nova Época ainda podem ser achados em sebos. Numa busca rápida pelo nome da editora no site Estante Virtual, encontrei alguns: “Cavalos de Raça e Mulheres de Classe”, de David Niven; “Xaviera Supersex”, de Xaviera Hollander; “Shampoo”, de Robert Alley; “Como se entender melhor com seu filho”, de Shirley Camper Soman.

Também tinha uma biografia do Santos Dumont pelo jornalista Fernando Jorge, talvez o único livro melhorzinho. Esse também é o único que continua sendo reeditado, atualmente no catálogo de outra editora.

Mas eu quero falar mesmo é dos livros do Franz Kafka. Naquela época a obra do Kafka ainda não estava em domínio público, e a editora do casal Mary e Marc detinha os direitos de publicação no Brasil. E eles a publicavam em edições muito mal feitas, toscas mesmo. Nem sequer traduziam do original alemão. As traduções do Kafka eram feitas a partir de edições já traduzidas ao inglês!

Mas o fato é que eram esses os livros que eu ganhava e faziam a minha alegria. E foi desse jeito que, ainda adolescente, fui incentivado a ler A Metamorfose e O Processo. Felizmente, alguns anos depois a obra do Kafka passou a ser publicada pela Brasiliense, e eu pude ler tudo de novo em traduções decentes.

Quando o sr. Marc morreu, no final dos anos 80, Dona Mary fechou a editora. Continuou morando no meu prédio um bom tempo, mas depois se mudou e eu perdi o contato. Fiquei sabendo que ela morreu quase centenária, em 2016.

A casa também ficou em pé por muitos anos, com outros usos. Foi demolida em 2015 e até hoje não construíram nada no lugar, como se vê nas fotos do Google que reproduzo no final do post.

Passados tantos anos da minha convivência com eles, eu me lembro com carinho do casal de editores e lhes agradeço por terem publicado tanto livro ruim. Devia ser o que vendia, e o que dava pra fazer. E muita gente, como eu, deve ter tomado gosto pela leitura lendo os livros rústicos e baratos que eles faziam. Hoje tem bem menos livros sendo feitos, e os que tem são bem menos acessíveis. Assim como aconteceu com a casa, ninguém construiu nada melhor no lugar.

Hoje o post não é meu. Uso o espaço do blog para divulgar um texto sobre memórias de São Paulo que o Emerson Meneses, doutorando da EACH-USP, publicou ontem no blog do seu grupo de pesquisa.

Alguns autores, como a historiadora gaúcha Sandra Pesavento e o arquiteto paulista Benedito Lima de Toledo, já usaram a imagem do palimpsesto – pergaminho que é raspado para dar espaço a novas camadas de escrita – como metáfora para o espaço e a memória da cidade. O apagamento nunca é perfeito, e novas escritas são sempre feitas sobre vestígios das anteriores.

Emerson é cirúrgico ao exlorar, por meio de “queertografias”, camadas apagadas do pergaminho urbano. Vale muito ser lido:

https://pesquisaqualiemcena.blogspot.com/2021/03/o-que-e-lembrado-vive-quatro.html

Eu tenho escrito muito pouco aqui no blog, mas de vez em quando escrevo em outros lugares. Então passo aqui hoje para compartilhar com vocês este meu artigo, em parceria com Adriana Lima, que acaba de sair na revista Domínios de Linguagem, editada na Universidade Federal de Uberlândia.

O artigo é sobre a comercialização de “naming rights” e sua chegada às estações do metrô de São Paulo. Discussão atualíssima, que está no noticiário da semana e tem tudo a ver com a memória da cidade.

Aqui vão o título e o resumo do trabalho:

Comodificação Toponímica e a Cidade Neoliberal: sobre a venda de direitos de nomeação (naming rights) das estações do metrô de São Paulo

Depois de quase três décadas sendo praticada na cidade de São Paulo em equipamentos privados como cinemas, teatros e mais recentemente estádios esportivos, a comercialização de direitos de nomeação chega também a espaços de propriedade estatal: em abril de 2020, a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Cia. do Metrô) anunciou um projeto de conceder à exploração privada o direito de nomear suas estações. Este artigo analisa esse projeto, suas premissas e expectativas. Conclui que uma série de conflitos relacionados à memória da cidade e a seus marcos espaciais, embora apontados em estudos recentes sobre comodificação toponímica e também sugeridos pelos próprios antecedentes paulistanos no tema, não parecem fazer parte da agenda de preocupações do projeto.

E pra quem se interessar, o texto em pdf (em duas versões: português e inglês) está disponível no link abaixo. Espero que gostem!

http://www.seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/57050

Fotos dos bondes de São Paulo são muito comuns na internet. Quase todas são do exterior do bonde, como essa aí de cima, e costumam despertar sentimentos saudosistas. “Ai, como era bom andar de bondinho”, as pessoas gostam de comentar, morrendo de saudade do que não viveram.

São bem mais raras as imagens do interior dos veículos, como essa aí embaixo, que permite apreciar mais de perto a experiência de andar de bonde.

O que eu mais gosto nessa segunda foto é a clara divisão em dois planos, muito contrastantes. O plano inferior é da realidade. O de cima é o do desejo, das idealizações criadas pela publicidade.

Eu contei, em toda a imagem, um total de dois rostos alegres e um olhar bem-disposto: todos no plano de cima. No de baixo, só mesmo semblantes pesados, transmitindo cansaço, desesperança e resignação. O estado desses passageiros, em sua maioria trabalhadores, é de acabar com qualquer saudosismo.

Interessante também ler o que diz um dos anúncios em cima deles:

“2 amigos de sua beleza: pó de arroz compacto e baton Kadija Palermont”.

O pó de arroz e o batom talvez fossem mesmo amigos da beleza. Já o bonde e a vida na cidade certamente não eram!

(As fotos são reproduzidas de dois slides Kodachrome datados de janeiro de 1957. São com certeza do mesmo autor, e possivelmente do mesmo bonde.)