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A igrejinha branca, ladeada de palmeiras, tinha um nome tão bucólico quanto difícil de pronunciar: Igreja da Penhinha. A foto é de 1936, e quando eu a vi fiquei curioso para saber onde era.

Fui pesquisar e fiquei sabendo que, apesar do nome, ela ficava bem longe da Penha. Vizinha do local onde a atual avenida João Dias encontra a marginal Pinheiros, a igrejinha marcava a entrada do Jardim São Luís, na região de Santo Amaro. O bairro nasceu nos anos 30, mas não sei se a igreja é dessa época ou já estava lá de antes. A altura das palmeiras parece indicar que já estava.

Também descobri que ela foi demolida em 1973. Mas o curioso é que, depois dela, diversos outros templos religiosos se sucederam no seu terreno.

O primeiro deles foi a Enpavi, uma grande empresa de pavimentação e terraplenagem instalada ali logo após a demolição. Eram os anos 70, época de culto ao asfalto na cidade de São Paulo.

Com a saída da Enpavi, veio o The Waves, um pós-modernoso parque aquático que funcionou entre 1991 e 1995. Projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, era um templo em que se cultuava o lazer caro e segregado, bem no espírito dos anos 90.

Por fim, o templo atual é entre todos o mais imponente. Taí uma foto dele, para termos uma ideia de como evoluímos em matéria espiritual.

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(A imagem de 1936 é do acervo fotográfico da Prefeitura. A atual é do Google. O endereço exato do local é Av. Guido Caloi 25, ao lado da ponte João Dias.)

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Erguido entre 1954 e 1979, o falso conjunto jesuítico do Pátio do Colégio (ou Pateo do Collegio como alguns teimam em grafar afetadamente) é uma réplica do que se supõe ter sido a construção que originou o núcleo inicial da atual cidade de São Paulo. Embora ele tente parecer (e muitos incautos acreditem ser de fato) remanescente do século 16, o prédio é na verdade um exemplar paulistano de “falso histórico”. Finge ser antigo, e até engana bem, mas na verdade foi construído em época bastante recente.

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A história do prédio, que na foto acima, de 1976, aparece em sua última fase de construção, é conhecida e não vale a pena retomá-la aqui. O que quero mesmo comentar é o acontecimento que causou comoção nas redes sociais e na grande imprensa esta semana: na terça-feira, 10 de abril, o edifício amanheceu com um garrafal “OLHAI POR NÓIS” pixado (ou pichado, como preferem os puristas da língua) em sua fachada.

A intervenção usou técnica difundida desde a década de 1990 em cidades como Los Angeles, Nova York e Paris, mas que só em 2012 desembarcou em muros brasileiros: o uso de extintores de incêndio carregados com tinta, o que permite intervenções de grande proporção. Graças a essa técnica, numa ação que durou pouco mais de um minuto, gravada pelas câmeras de segurança do local, a fachada foi inteiramente coberta, o que teria sido impossível de se produzir com os tradicionais sprays.

Reações indignadas vieram instantaneamente. Uma das primeiras foi a do próprio poder público: poucas horas depois da ação, em uma inflamada postagem no Facebook, o subprefeito da Sé, Eduardo Odloak, qualificava a intervenção como “um CRIME contra a cidade e TODOS os paulistanos de bem” (grifos no original). Em vídeo gravado no próprio local, o subprefeito anunciava: “Nós não vamos deixar quieto. Isto aqui é um ato criminoso contra a nossa cidade!”.

A grande imprensa aderiu ao discurso, classificando a pixação como ato de vandalismo e o prédio pixado como edifício histórico. Essa construção discursiva – a de um condenável ato criminoso cometido contra edifício histórico – dominou também o debate que se seguiu nas redes sociais. Este último, como costuma acontecer, se deu de maneira desalentadoramente rasa e estereotipada. Não faltou nem mesmo quem atribuísse o crime a apoiadores do PT, enxergando indícios de autoria na cor vermelha usada na intervenção!

Também não faltou no raso debate quem se incomodasse com a grafia do pronome pessoal empregado na pixação: não bastasse agredir o patrimônio, agrediu-se também a língua portuguesa. “É nós e não nóis!”, “Nem escrever direito sabem?”, gritaram não poucos puristas da língua, para os quais até os crimes devem ser cometidos respeitando a norma culta.

Não entenderam, esses zeladores do prédio e do idioma, que a súplica pixada no Pátio do Colégio não é para ninguém olhar por nós. Ao contrário, nós é que fomos chamados a olhar por “nóis”, aqueles para os quais jamais olhamos. É sintomático que, mesmo após uma súplica tão eloquente, toda nossa atenção e indignação tenham se dirigido à agressão ao prédio, incapazes que somos de olhar para “nóis”. A própria população que se refugia no Pátio, embora captada pelas mesmas imagens de segurança, não mereceu qualquer parcela de atenção.

Mas os indignados podem ficar tranquilos: em pouco tempo a situação se normalizará. A fachada ficará branca de novo (oh, desperdício de recursos!), e “nós” poderemos voltar a admirar orgulhosos esse prédio histórico de 1979. Ainda que, para tanto, tenhamos que desviar de uns tantos “nóis” inconvenientes que insistem em ficar por lá atrapalhando.

Tudo isto pra dizer que São Paulo precisava mesmo ouvir um vigoroso “olhai por nóis”. Podem me pixar.

(A foto recente é de Pedro Pinto / fotospublicas.com. A de 1976 é de Waldemir Gomes de Lima / acervo da Prefeitura de São Paulo. O texto é uma versão ligeiramente modificada de um artigo que publiquei esta semana na revista Minha Cidade, do portal Vitruvius.)

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A foto foi enviada pelo cineasta Lufe Steffen, e de cara isso me deixou muito feliz: há tempos eu sou um admirador do trabalho do Lufe (adorei “São Paulo em Hi-Fi”, documentário sobre a vida LGBT na cidade nos anos 60 e 70), mas não fazia ideia de que ele conhecia o blog. Fiquei sabendo agora que ele não só conhece, mas é um leitor assíduo!

A foto é daquelas que, à primeira vista, só fazem sentido para um círculo restrito de pessoas e não têm muito a dizer para quem é de fora. Ela mostra os pais do Lufe, posando felizes e cheios de expectativa em 1975. O próprio Lufe de certa forma também está na foto, tirada dias antes do nascimento dele. Mas para quem não os conhece, a cena não diz lá grande coisa.

Mas isso é só à primeira vista, pois a foto também é daquelas que, com o tempo, viram interessantes documentos acidentais da vida na cidade.

O que confere essa característica a ela é o local que casal escolheu para a pose. Eles estão na porta de casa, mais precisamente no jardim da entrada do Edifício Marajó, prédio de classe média na rua Ministro Gabriel Rezende Passos, esquina com rua Inhambu, em Moema.

Em 1975, esses lugares ainda se prestavam a fotos de família como esta. De lá para cá, perderam completamente essa vocação. Qual é o casal que, hoje em dia, vai querer eternizar esse momento tendo ao fundo, como cenário, a guarita, a grade e os equipamentos de segurança do prédio?

Para quem quiser tirar a prova, aqui vai uma foto atual, tirada do mesmo ângulo pelo próprio Lufe.

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A foto dos anos 50 não é minha: é da coleção particular do Werner Keifer, que a postou no Facebook pedindo ajuda para identificar o local. Eu não conheço o Werner, mas gostei tanto da foto que peço licença a ele para republicá-la aqui, junto com a resposta.

O lugar de fato se alterou muito, mas ainda assim dá pra saber onde é. Sugiro que antes de continuar a leitura, deem uma olhada atenta e tentem reconhecer. Alguém arrisca um palpite?

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Caso não tenham conseguido, aqui vai a resposta: a foto é da avenida General Olímpio da Silveira, antes do desastre que se abateu sobre ela com a chegada do minhocão.

Quem atesta o que estou dizendo é ninguém menos  que João Artacho Jurado. Dos prédios à direita, o mais alto é o Edifício Pacaembu, construído por ele no número 386 da avenida. Tanto esse prédio como seu vizinho mais baixo continuam lá até hoje e se alteraram muito pouco, embora não seja mais possível fotografá-los assim inteiros. São prédios que estão lá mas perderam a identidade, roubada pelo elevado. Ninguém mais os vê.

E caso alguém ache o Artacho Jurado insuficiente, também tem Igreja Católica que não me deixa mentir. Lá no fundo, no centro da foto, está a paróquia São Geraldo, do Largo Padre Péricles. Nessa época era possível avistá-la de longe. Hoje não é mais.

O que não existe mais, evidentemente, é o espetacular casarão da esquerda, que ficava na esquina do minhocão com a rua Conselheiro Brotero. Em seu terreno existe hoje um posto de gasolina, que combina muito mais com o minhocão. Quem se interessou pela casa vai gostar de ler este outro post, de 2012: https://goo.gl/5hDJwD.

E para quem quiser ver o aspecto atual do lugar, deixo aqui a foto do Google:

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Quem acompanha as redes sociais deve ter visto a repercussão, nestes últimos dias, da notícia de reinauguração do antigo prédio do Banespa, um velho marco de São Paulo.

O arranha-céu está cheio de novidades, e a primeira é no nome: não será mais Edifício Altino Arantes, mas sim Farol Santander, servindo ao marketing do banco espanhol. Em termos simbólicos, a nova denominação não ambiciona pouco: é o Santander se colocando no papel de guia, de luz que orienta São Paulo do alto. Pessoalmente não gosto dessa imagem, que por sinal também não combina com o “non ducor duco” do brasão da cidade. Mas não sei se ela vai pegar: meu palpite é que o prédio continuará sendo chamado de Banespão mesmo, seu justo apelido há muitos anos.

Mas a repercussão nas redes nem foi por causa do nome, e sim pelo preço que será cobrado do público para visitar o centro cultural ali instalado. É algo como 20 reais para um ingresso completo, ou 15 reais para acesso só ao mirante no topo do prédio. Valores proibitivos para o grosso da população, cobrados pelo Santander, um banco que tem tido lucros no Brasil da ordem de 2,5 bilhões de reais por trimestre. Pessoalmente, também achei isso meio feio, um pouco constrangedor.

A polêmica se potencializa pelo fato de lá dentro haver um loft em que qualquer um pode se hospedar, pagando uma diária de 4 mil reais, e uma pista de skate cuja principal característica é ser pouco acessível aos skatistas. Tudo isso anunciado em um 25 de janeiro, aniversário da cidade. Belo presente.

Mas apesar da polêmica gerada, ou até mesmo por causa dela, eu vejo um lado positivo: acredito que o projeto recém-inaugurado combina bem com o prédio que o abriga. O Banespão sempre foi, pelo menos para mim, um pouco constrangedor. Cópia acanhada do Empire State Building, imitação macaqueada de art déco nova-iorquino, é um prédio que já nasceu curvado e caricatural. E também nasceu meio velho, inaugurado em pleno 1947 numa São Paulo que já tinha arquitetura moderna mais arrojada do que esse seu estilão anos 30.

Por isso não me incomoda tanto o “farol” que estão fazendo dele, um projeto muito bem sintonizado com a grandeza meio pequena e com o espírito anacrônico e subserviente, cafona mesmo, que o prédio tem de nascença.

Nesse aspecto particular, justiça seja feita, o Farol Santander merece elogios.

As imagens são reproduzidas de piratininga.org (foto de 1976, quando o prédio ainda era sede do Banespa) e de netleland.net (proposta original do arquiteto Plínio Botelho do Amaral, depois modificada para tornar o edifício “parecido” com o Empire State).

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Pela semelhança física, as moças parecem irmãs.

E pela anotação no verso, certamente feita por uma delas, sabemos que são italianas, que a cena é de 1950 e que a foto foi enviada como lembrança para os pais.

O resto de história se perdeu. A imagem é cheia de enigmas: quem são as duas italianas, que endereço é esse em que elas estão, e até mesmo se o carro é delas ou se estava estacionado ali por acaso na hora da foto.

Mas pra não dizer que eu não resolvi nenhum enigma, pelo menos um deles eu decifrei: o que significa essa numeração tão curiosa na placa do carro: “10-00”.

Na verdade, não foi difícil: encontrei a maior parte da resposta neste texto, publicado em 2009 pelo Ralph Giesbrecht.

Pelo sistema de emplacamento vigente na época, os carros registrados em cada estado recebiam placas com números sequenciais: o primeiro a ser emplacado recebeu a placa “1”, o segundo ganhou a placa “2”, e assim por diante. Mas os números, para facilitar a leitura à distância, eram separados de dois em dois algarismos. Desta forma, a centésima placa recebeu a inscrição “1-00”. A de número 941, por exemplo, acabou ficando “9-41”.

A placa número 59.998 era “5-99-98”. Esta, segundo o Ralph conta, era do pai dele.

E a milésima placa recebeu um “10-00”. Justamente a da foto.

O que não significa que o carro da foto tenha sido o milésimo a ser emplacado em São Paulo. Ele é muito novo pra isso. O que ocorria é que, ao contrário de hoje, as placas não estavam vinculadas ao carro, mas ao proprietário. Quando alguém trocava de carro, a mesma placa do carro velho passava para o novo. Por isso alguns carros nos anos 50, mesmo não sendo tão velhos, tinham placas com número baixo. É o caso deste.

Talvez não seja muito difícil descobrir quem era o dono da placa 1000. Mas eu já cumpri minha cota de descobertas, e deixo isso para quem quiser ir atrás.

Atualização em 20 de janeiro: O João José Basso, leitor do blog, acaba de resolver mais um dos enigmas da foto. Ele reconheceu o local exato onde ela foi tirada. E não é um lugar qualquer: trata-se do edifício Columbus, demolido em 1971, sobre o qual eu já havia escrito em 2013. Para matar qualquer dúvida de que o prédio é esse mesmo, basta comparar a foto com as que aparecem neste artigo da professora Maria Lúcia Bressan Pinheiro: https://goo.gl/E2jmgZ. Obrigado, João, e parabéns pela memória fotográfica!

Atualização em 22 de janeiro: Aos poucos os enigmas vão se resolvendo: já sabemos de quem é o carro! Desta vez a novidade vem do próprio Ralph Giesbrecht, citado no post, que me escreveu há pouco. Ele tem a lista das placas registradas em São Paulo em 1940, e verificou que a de número 1000, ou 10-00, pertencia um tal João Giannini. E mais: o automóvel emplacado com ela em 1940 era um Packard. Como é a mesma marca do da foto, é bem provável que seja o mesmo carro, visto aqui dez anos depois. Obrigado, Ralph!

998“Questa è la mia casa, quella sinistra”: o italiano que escreve quer que saibamos que a casa dele é a da esquerda.

E para evitar qualquer dúvida, ele marca na foto, com caneta, os limites da casa. O cuidado se justifica: é que o seu sobrado e o do vizinho são geminados, e a fachada pode confundir. Quem não está acostumado com esse tipo de casa pode achar que as duas são uma só.

Na porta do sobradinho está estacionada a “macchina”. Dois símbolos de status bem paulistanos, reunidos numa foto só, tirada em pleno dia de Natal: o imigrante parece orgulhoso de suas conquistas.

59 natais depois, quase nada sobrou da história. Não sabemos quem é o personagem, nem o bairro onde ele morava. Talvez alguém identifique o modelo do carro (será uma perua Dodge?), mas não vamos muito além disso. O italiano mostrou a casa e a perua, mas não deixou seu nome e se esqueceu de passar o endereço.

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