998“Questa è la mia casa, quella sinistra”: o italiano que escreve quer que saibamos que a casa dele é a da esquerda.

E para evitar qualquer dúvida, ele marca na foto, com caneta, os limites da casa. O cuidado se justifica: é que o seu sobrado e o do vizinho são geminados, e a fachada pode confundir. Quem não está acostumado com esse tipo de casa pode achar que as duas são uma só.

Na porta do sobradinho está estacionada a “macchina”. Dois símbolos de status bem paulistanos, reunidos numa foto só, tirada em pleno dia de Natal: o imigrante parece orgulhoso de suas conquistas.

59 natais depois, quase nada sobrou da história. Não sabemos quem é o personagem, nem o bairro onde ele morava. Talvez alguém identifique o modelo do carro (será uma perua Dodge?), mas não vamos muito além disso. O italiano mostrou a casa e a perua, mas não deixou seu nome e se esqueceu de passar o endereço.

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“S. Paulo, 10-7-51
Io, Felice, Renato, Gaetano. La prima auto che ho guidato, davanti alla nostra casa dalle parte del parco don Pedro Secondo. Isso es uma grande Beleza. O mais lindo parco do S. Paulo, é muito bonito nos stamos em frente.”

Está na cara que o italiano que escreveu no verso da foto estava aprendendo português. O começo do texto saiu em italiano mesmo (“Eu, Felice, Renato, Gaetano e o primeiro carro que eu guiei, em frente à nossa casa, ao lado do parque Dom Pedro Segundo”), mas na última frase ele já engata um português macarrônico bastante razoável.

E além de aprender a língua, parece que ele também estava fazendo várias outras coisas, como aprender a dirigir, conhecer São Paulo, divertir-se com os amigos…

Se ao invés de querer fazer tudo ao mesmo tempo ele tivesse se concentrado em uma coisa de cada vez, talvez teria conseguido explicar que lugar tão bonito é esse em que morava, vizinho ao Parque D. Pedro.

Eu tentei, mas não consegui entender onde é.

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Acabo de fazer uma grande descoberta: já existiu, em plena avenida Paulista, uma casa sobre a qual até agora não havia nenhuma informação ou registro conhecido!

Mas antes de mostrar esse achado, tenho que contar como cheguei a ele. Foi por meio de um velho álbum recheado de fotos da Primeira Guerra Mundial, posto à venda na internet por uma casa de leilões francesa.

Era um álbum com pedigree: pertenceu a um tal Georges Jean Bourgès (1887-1974), que comandou tropas francesas em diversas batalhas da primeira guerra. Quem tiver a paciência de pesquisar verá que ele era membro de uma família muito influente, pertencente à fina flor da aristocracia francesa.

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Como costuma acontecer nesses leilões, o álbum foi retalhado e vendido por partes. Cerca de metade dele era formada por páginas e páginas com fotos do cotidiano de campos de batalha. São centenas de imagens de trincheiras, armas e soldados, feitas por Bourgès entre 1914 e 1917. Estas páginas acabaram vendidas por valores bastante altos.

Mas a segunda metade não fez o mesmo sucesso. Eram fotos de uma viagem que Bourgès fez à América do Sul entre janeiro e agosto de 1918. A guerra ainda estava rolando, mas pelo jeito ele resolveu deixar os campos de batalha e dar uma passeada, que ninguém é de ferro. Visitou Buenos Aires, Montevidéu, São Paulo, Rio, Vitória e Salvador. Eu acabei comprando baratinho, pelo lance mínimo, o lote com fotos de São Paulo.

As imagens, de março e abril de 1918, mostram que o combatente em férias andou bastante pela cidade. Visitou não só as atrações mais comuns – estação da Luz, vale do Anhangabaú, museu do Ipiranga… – mas também outros lugares menos óbvios para um turista. Chegou a ir às regatas na represa de Guarapiranga!

 

Entre um passeio e outro, o visitante parece ter-se hospedado na casa de outro francês: um senhor gordinho de terno escuro, gravata borboleta e chapéu Panamá, que em algumas fotos aparece identificado como Monsieur Pierre.

Não é preciso pesquisar muito para saber quem é o anfitrião. Trata-se do banqueiro Ferdinand Pierre, presidente do Banco de Credito Hypothecario e Agricola. No ano seguinte o banco seria comprado pelo governo estadual, e acabaria dando origem ao Banespa.

O banqueiro morava com a família numa casa bastante confortável, como se vê em duas das fotos. A casa é bem fácil de reconhecer: era um palacete em estilo neocolonial, no atual número 171 da avenida Paulista, projetado pelo arquiteto também francês Victor Dubugras.

 

E é nos fundos dessa imponente residência de banqueiro que fazemos a grande descoberta. Ali estava situada a casa de bonecas de Jacqueline Pierre, filha de Ferdinand.

É sem dúvida uma novidade e tanto: uma charmosa casinha que existiu na Paulista, mas que até agora ninguém conhecia. E ainda por cima com alguma chance de ter sido projetada pelo Dubugras!  🙂

 

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Um caixote está terminando de ser construído, a toque de caixa, na rua Maranhão 812, em Higienópolis.

O que será que vai funcionar nele? A faixa horizontal em tons de azul e verde, que atravessa o prédio de lado a lado, nos dá a resposta: será uma farmácia. A faixa é parte da identidade visual da rede Droga Raia.

Mas não é a primeira vez que este endereço é usado comercialmente. Ao contrário: desde os anos 70, uma longa sequência de estabelecimentos funcionou nele, aproveitando uma bela e convidativa construção sobrevivente dos tempos em que o bairro não era verticalizado. O último ocupante do casarão foi o que mais durou: um restaurante vegetariano, que ficou lá por cerca de 20 anos e fechou as portas há dois meses.

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Eu me pergunto por que o pessoal que está entrando agora considerou que uma casa tão rara e bela não podia ser usada como farmácia. Acharam que as pessoas não iam entrar nela para comprar seus remédios? Que a drogaria não ia dar certo se seu prédio não fosse também uma droga?

Nem mesmo a falta de espaço para carros pode ter sido a razão. Na frente do antigo casarão havia seis vagas!

A resposta mais provável nos é dada, novamente, pela desengonçada faixa horizontal. É que a velha casa não permitia o expediente simples, porém decisivo, para o qual o caixotão foi projetado: instalar a enorme logomarca meio metro para dentro da fachada, burlando assim a lei cidade limpa.

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(As três primeiras fotos são minhas, tiradas em 19 de setembro, 25 de julho e 26 de julho de 2017. A quarta é do Google.)

Na São Paulo atual, basta chover um pouquinho que os semáforos param de funcionar. Eles só voltam dali a um, às vezes até dois dias. A prefeitura aproveita esse tempo para culpar a gestão passada, ou as empresas contratadas para a manutenção, ou a tecnologia empregada no sistema, que é defasada.

Já na época desta foto, não sei se o problema era tão grave. Mas pelo menos a tecnologia ninguém podia culpar. Por mais antiga que fosse, vê-se na foto que ela era confiável, robusta e capaz de resistir às maiores tempestades.

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Fico devendo o crédito da foto, que chegou até mim sem qualquer informação sobre autor, data ou local. A data parece ser final dos anos 40 ou início dos 50, e o local eu agradeço se alguém me ajudar a reconhecer.

Os quatro postais foram enviados à terrinha por um português recém-chegado a São Paulo.

Não sabemos muito sobre ele, mas é possível inferir algumas coisas. Seu nome começa com R, pela forma como assina um dos cartões. A data em que escreve não é conhecida, mas os cartões que manda parecem ser da década de 1910. E pela forma como escreve, dá pra ver que não é uma pessoa com muita instrução.

Mas, de tudo o que se percebe, o que chama mais a atenção é seu deslumbramento com a cidade. A começar pelo postal em que R. mostra o local “adonde” estava empregado. Ele trabalhava em cima da Loja do Japão, na moderna e elegante rua São Bento.

“Adonde tem Lisboa uma rua como esta, ponhão aqui os olhos!”, escreve o português, maravilhado pelo lugar:

Outros motivos de admiração são o museu do Ipiranga e a estação da Luz.  “Adonde tem Lisboa um predio como este, olhem bem!”, pergunta R. sobre o museu.  “Adonde tem Portugal uma estação como esta? Olhem bem que não é feita de palha não!”, exclama sobre a estação.

 

Passado um século, eu não sei muito bem o que R. escreveria se visse esses lugares. A Loja do Japão fechou nos anos 30, e a São Bento há muito tempo entrou em decadência. Lisboa de fato não tem muitos prédios do tamanho do museu do Ipiranga, mas eles estão em geral mais firmes: nosso museu foi interditado às pressas em 2013, perigando desabar, e não tem previsão de reabrir pelos próximos anos. E a estação da Luz de fato não é de palha, mas isso não impediu que ardesse em fogo, em 2015. Imaginem se fosse!

Nossa vez de perguntar: Adonde erramos?