1043

Dias atrás, por meio de uma fotografia de 17 por 23 centímetros que encontrei à venda na Internet, fui apresentado a este estabelecimento paulistano: a Brasserie High Life.

Graças a um carimbo (“Aristides Greco, photographo”) e uma anotação manuscrita no verso (“31 de maio de 1914”), temos informações precisas sobre a autoria e a data da foto. Mas as informações mais interessantes estão na imagem em si, que é repleta de detalhes. Por um deles – duas placas de rua na fachada – sabemos que a brasserie ficava em alguma esquina do Largo do Arouche. Em qual delas exatamente, dependerá da nossa habilidade para decifrar a placa da esquerda, semioculta por um poste e um galho de árvore. Eu matei a charada, mas vou guardar a resposta para o final do post.

1044

Também gostei da variedade de produtos, listada em pequenas tabuletas na fachada. São 7 placas no total, anunciando “sorvetes, refrescos, chops”, “café, leite, coalhada, chocolates”, “manteiga fresca e queijos de Minas”, “acceitam-se encommendas para festas”, “biscoutos e doces finos, fabricação especial”, e “cigarros 34, mistura da moda”.

1045

Um detalhe importante é o homem encarando a câmara, em pé junto a uma das portas da brasserie. É impossível não se sentir estranhamente atraído por essa figura soturna: reparem no olhar lúgubre, nas roupas forçadamente elegantes… Ele deve ser um funcionário à espera de clientes, mas eu confesso que pensaria duas vezes se tivesse que comer um “biscouto fino” ou qualquer coisa servida por alguém que me encara com esse ar.

1046

Há muitos outros detalhes, mas os deixo para a exploração do leitor. O que eu queria mesmo dizer é outra coisa. Até conhecer a foto eu nunca tinha ouvido falar desta Brasserie High Life, mas já sabia de um cinema homônimo, que funcionou também no Arouche nesta mesma época: o High Life Theatre. Fico imaginando que tipo de relação terá havido entre os dois estabelecimentos. Será que a brasserie era uma espécie de café do cinema? O tamanho da loja, as portas para a rua e a extensão do cardápio indicam que não. Talvez ambos pertencessem a um mesmo dono, daí os nomes idênticos, ou quem sabe um deles tenha apenas copiado a denominação do vizinho.

Seja como for, é muito provável que eles compartilhassem a mesma clientela, e isso nos diz algo sobre o imaginário do lazer paulistano daquele início do século 20. Assistir a um filme mudo numa sala de cinema, emendando com um lanche, um chope ou um café com “biscoutos” servido pelo atendente engravatado da brasserie ao lado, era um programa associado à ideia de bem-viver, de high life.

Fiquei curioso para descobrir em qual esquina exata funcionava a brasserie, já que apenas pela foto, como já vimos, não me foi possível saber. Não foi difícil achar a resposta. Em um anúncio publicado no Correio Paulistano, em 28 de fevereiro do mesmo ano de 1914, a “Secção de Licores” da Companhia Antarctica Paulista divulgava os endereços de seus principais distribuidores. Um dos citados é “Brasserie High Life, rua Sebastião Pereira”, matando a charada.

O ponto exato em que portanto ficava a Brasserie High Life – esquina do Largo do Arouche com a rua Sebastião Pereira – está hoje totalmente coberto pelo Minhocão, como se vê na foto abaixo. Sobre o viaduto, há quem esteja querendo implantar um parque ao estilo do novaiorquino High Line Park.

O que nos mostra que, de algum modo, a mudança nestes mais de 100 anos não foi tão grande assim: de high life para high line, a mudança é de apenas uma letra!

1047

1041

“Nesta rua nº 7 é a entrada para a Casa Allemã”: só se for a entrada dos fundos, pois a foto é da rua da Quitanda, e a Casa Allemã funcionava na rua Direita, que é a primeira paralela.

De qualquer forma, o prédio que mais me chamou a atenção não está no número 7, mas no 17.

Ou no 127, seu endereço atual, já que até a numeração da rua, como quase tudo por ali, se modificou bastante.

Só não se modificou o sobradão, que até hoje assiste impassível às mudanças.

1042

(A foto da década de 1920 é minha mesmo; a atual é do Google Street View.)

Atualização às 14:15: Pouco depois da publicação do post, o Diego Vargas me confirmou que a Casa Allemã tinha, sim, uma entrada pela rua da Quitanda. A loja ficava na rua Direita, mas ia até o fundo do lote, comunicando as duas ruas. A informação está no livro “Cidade-exposição: comércio e cosmopolitismo em São Paulo”, de Heloisa Barbuy. Obrigado, Diego!

As fotos de hoje têm algo em comum com as do post anterior: elas também mostram a São Paulo que um turista viu.

Desta vez o turista é espanhol. As fotos, de 1969, estavam até agora em Valência. Eu as achei à venda em um site, por 50 centavos de euro cada uma, e as repatriei.

E desta vez o turista sabia fotografar um pouco melhor. As fotos têm alguma qualidade técnica, e algumas têm enquadramentos bastante incomuns para fotos de turista.

A primeira foto foi tirada “desde la ventana del hotel”, como diz a anotação no verso. Mas nem precisava dizer: essa vista só poderia ser mesmo de uma janela do antigo hotel Othon, que funcionou até 2008 na praça do Patriarca. O que atraiu o olhar do espanhol pode ter sido a surpreendente mistura: o ecletismo do Teatro Municipal, o art déco do viaduto do Chá e a arquitetura moderna das torres de vidro formam um conjunto de evidente (e muito paulistana) desarmonia.

1031

1032

A arquitetura moderna, por sinal, parece ter impressionado bastante o visitante. Andando pela região central, ele fotografou o Copan, o Itália e o Bretagne.

O Copan ainda estava com seu anexo (aquele prédio mais baixo em que funciona o Bradesco) em final de construção. Já o Bretagne aparece retratado a partir de sua área interna, numa época em que, sem grades nem controle de acesso, podia-se entrar à vontade. Todos os ângulos ressaltam a monumentalidade dos edifícios. 

Além de andar pela região central fotografando prédios, podemos ver que o visitante fez pelo menos mais dois passeios. Em um deles esteve no Instituto Butantan, que hoje em dia é muito pouco frequentado, mas na época fazia parte do roteiro turístico da cidade. 

E no outro foi ao parque do Ibirapuera, onde conheceu o famosíssimo “Monumento a los Cangançeiros”:

1039

1040

Enfim…  Prédios, cobras e cangaço, eis o que este espanhol deve ter voltado dizendo que viu em São Paulo.

 

As dez fotos foram colocadas à venda pela internet, meses atrás. Segundo o site onde eram oferecidas, estavam em Aveiro, Portugal.

Elas devem ser, portanto, registros de uma viagem que algum português, ou portuguesa, fez para cá. Como toda foto de turista que se preze, são bem ruins. Não sei se alguém as comprou, mas antes que isso acontecesse eu as copiei para reproduzir aqui.

As três primeiras são bem de turista mesmo. Foram tiradas do edifício Itália e mostram outros prédios obrigatórios, como o do hotel Hilton, o Copan, a biblioteca municipal e o Louvre (deste último vemos o terraço artachiano, no canto da terceira).

 

A quarta foto também é do centro, e nos dá uma ideia aproximada da data da viagem. Ela é o do vale do Anhangabaú, numa época em que turistas ainda andavam por lá. O vale é um canteiro de obras, cheio de tapumes. A linha leste-oeste do metrô (atual vermelha) está sendo construída. A estação Anhangabaú ficaria pronta algum tempo depois, em 1983.

1024

Nas cinco fotos seguintes, os carros também ajudam na datação. Uma profusão de fuscas, opalas e corcéis, todos da virada dos anos 70 para os 80, transita pelas principais avenidas da cidade: Paulista, Santo Amaro, 23 de Maio, Rubem Berta.

 

E a última foto é do aeroporto de Congonhas, por onde os visitantes estrangeiros chegavam e partiam. Guarulhos seria inaugurado só em 85.

1030

Olhando as fotos hoje, o que mais me chama a atenção é a extrema aridez da São Paulo dos anos 70 para 80. Em dez fotos, mal se vê uma árvore. Mas ler as imagens também implica colocar-se no lugar desse português ou portuguesa que visitava a cidade, e imaginar o que terá atraído seu olhar, quase 40 anos atrás. O que será que ele, ou ela, enxergou nesses enquadramentos?

Tirando a feiura, confesso que não sei.

1019

O lugar mudou bastante, mas é um ponto emblemático da cidade e por isso continua fácil de reconhecer. Estamos na avenida Tiradentes, e o prédio que aparece cortado, à esquerda, é a Pinacoteca do Estado.

A foto, cujo autor desconheço, é de 1967. Nessa época a área já não primava pela beleza, mas os trilhos de bonde, os paralelepípedos e os trólebus da CMTC conseguiam deixá-la um pouco mais simpática.

Com o tempo essas coisas foram saindo da paisagem, sacrificadas em nome da mobilidade urbana. Trilhos, paralelepípedos e trólebus, afinal, atrapalham o trânsito de carros!

Em matéria de mobilidade urbana, aliás, pelo menos uma das intervenções no local foi um tremendo sucesso. Moveu-se o monumento a Ramos de Azevedo, essa gigantesca estrutura de granito e bronze que ficava no meio da avenida, até a Cidade Universitária, onde se encontra hoje. Haja mobilidade!

São Paulo tem algumas coisas que não mudam nunca. Nesta foto, vemos duas.

A primeira é o bonito cenário da foto. Pode não parecer, mas a imagem já tem 53 anos. Mesmo depois de tanto tempo, tudo continua exatamente igual na piscina do edifício Bretagne, na avenida Higienópolis.

A segunda é a cena em si: uma mãe descontraída e seus filhos loirinhos curtindo a piscina, e a babá negra e anônima – a única sem rosto na foto – metida em uniforme branco.

A foto foi tirada em 1965 por um visitante americano e apareceu recentemente à venda em um lote de slides em Brecksville, Ohio. Na época o Bretagne era ponto de parada de excursões, e os turistas entravam para fotografar nossa arquitetura moderna e nossos costumes arcaicos.

1018

Hoje em dia existe um debate muito intenso a respeito de quantas pessoas são necessárias para trocar uma lâmpada.

Se forem portugueses, são necessários três (um para segurar a lâmpada e dois para girar a escada). Já se o sujeito for argentino, aí basta um só (ele segura a lâmpada e o mundo gira em torno dele). Também é necessário apenas um psicólogo, mas neste a caso a lâmpada precisa querer ser trocada. E assim por diante. A discussão é longa e complexa.

A foto é reproduzida de um cartão postal dos anos 40, época em que o conhecimento sobre esse assunto não estava tão desenvolvido. Por isso, em plena avenida 9 de Julho, a prefeitura trocava lâmpadas deste jeito tão rudimentar e singelo.

1016