A foto é de 1973, mas isso pouco importa. Se fosse feita hoje, a única coisa diferente seriam as roupas dos quatro personagens. O cenário segue basicamente igual.

Para quem não reconheceu o lugar, ele aparece identificado no reflexo do vidro, no canto superior direito. Verdadeiro clássico da cidade, até hoje ele atrai personagens como esses, que pagam caro e comem mal, tirando fotos e apreciando a (nem tão) bonita vista que se tem de lá.

A moda colorida e o fundo atemporal me lembraram a música de Belchior, Velha Roupa Colorida, imortalizada em 1976 na voz de Elis Regina, e recentemente regravada por Ney Matogrosso e Sandra Pêra:

“O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer
[…]
No presente, a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

Hoje quero compartilhar com vocês um pequeno texto meu que saiu esta semana na revista Drops, do portal Vitruvius.

Não é sobre São Paulo, mas acho que tem um pouco do espírito deste blog. É um relato muito pessoal, sobre um tempo em que as cidades eram mais gentis e a gente podia assaltar bancos com mais tranquilidade.

É só entrar no link. Espero que gostem!

https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/22.172/8405

Hoje não vou escrever no blog, mas tenho uma leitura pra indicar. “Um flâneur anônimo em São Paulo: olhar dissidente sobre a metrópole do Quarto Centenário” é o artigo que acabo de publicar na Cidades, Comunidades e Territórios, revista do Iscte-Instituto Universitário de Lisboa. É um trabalho que eu gostei muito de escrever, e que tem muito a ver com a temática do blog.

Reproduzo aqui o resumo do artigo:

“O artigo se propõe a refletir sobre a cidade de São Paulo na década de 1950 e suas representações. Se de um lado as representações hegemônicas costumam ser impregnadas por um discurso fortemente ufanista, de outro lado os indivíduos que vivenciaram a cidade da época de maneira cotidiana e anônima podem nos revelar outras visões. Com recorte micro-histórico, procurou-se investigar a experiência e as impressões de um indivíduo em particular: um visitante francês anônimo que explorou a cidade, com olhar flâneur, entre os meses de setembro e novembro de 1952. A análise de um conjunto de fotografias de rua e anotações pessoais produzido por esse indivíduo revela uma cidade bastante diferente da oficial, com realidades urbanas silenciadas pelo discurso hegemônico.”

O texto integral, com 26 páginas em pdf, está no link. Espero que gostem. Só não reparem no português de Portugal, que foi exigência da revista!

https://revistas.rcaap.pt/cct/article/view/25796

O Dicionário de Ruas é um interessante recurso que a prefeitura de São Paulo oferece na internet, com informações sobre a origem dos nomes das ruas e logradouros da cidade. Pesquisando nele sobre a rua Boa Vista, no centro, encontrei o seguinte:

“[…] Esta rua é um dos raros exemplos de denominação dada pela população e que permanece até os dias de hoje na malha viária da cidade. Sua origem remonta ao século XVIII, uma vez que desde 1711 ela era conhecida com este nome. Mas, por que Boa Vista? A explicação é simples: em seu trajeto, a rua contorna a parte alta de um morro. A partir dela, os frequentadores, em tempos passados, podiam observar uma bela paisagem: a Várzea do Carmo (hoje Parque. D. Pedro II), os bairros do Brás e Pari, bem como um horizonte que chegava às encostas da Serra da Cantareira. Nesse sentido, todos tinham uma ‘boa vista’ das atuais zonas Norte e Leste da cidade.”

E nesta foto do início do século XX, que encontrei meio ao acaso pesquisando imagens para o blog, dá pra ver bem a razão do nome.

A rua Boa Vista é a fileira de fachadas que atravessa a imagem de lado a lado. Nos dois prédios mais à direita estão a loja A Illuminadora, instalada no antigo número 36-A, e o Hotel da Bella Vista, seu vizinho no 34.

E a vista que se tinha de lá era boa mesmo. Destaque para o Tamanduateí, que banhava a 25 de Março, e para o complexo do gasômetro, até hoje em pé do outro lado do rio. A boa vista se perdeu, mas que bom que o nome Boa Vista está lá, testemunho espontâneo e ainda vivo.

(Em tempo: a imagem é de uma fotografia estereoscópica comercializada na época pela Keystone View Company. Esse tipo de foto, visto em aparelho apropriado, proporcionava imagens em 3D. Imagino que, no aparelho, a boa vista ficava melhor ainda!)

A foto é dos primeiros anos do século passado, ali por volta de 1910. Ela mostra a parte nova e moderna da cidade, que crescia com força depois que a mancha urbana atravessara o vale do Anhangabaú. Talvez por isso tenha sido estampada em cartão postal.

O edifício grande e quadradão que ocupa quase um quarto da imagem, na parte inferior esquerda, é o mercado São João, instalado em 1890 na rua de mesmo nome, para abastecer de alimentos a cidade em expansão. Ficava onde hoje é a Praça do Correio, mas não durou muito: foi derrubado em 1916, com as obras que transformaram a rua São João em avenida.

As demais construções não tiveram sorte muito diferente, e em poucas décadas quase tudo que vemos na foto também foi varrido da paisagem.

Com duas grandes exceções. A primeira e mais fácil é o Teatro Municipal, que já se vê imponente na foto, embora ainda em construção. Ele ficaria pronto em 1911.

E a segunda é o casarão branco quase no centro da imagem, com cinco janelas na frente e publicidade estampada na empena lateral. É o prédio que por muitos anos abrigou o Conservatório Dramático e Musical, e que segue em pé na avenida São João, 269.

Um teatro e uma escola de música: não deixa de ser interessante que os dois prédios da foto que conseguiram sobreviver sejam justamente os dedicados à cultura e às artes.

A probabilidade de dois posts seguidos sobre a Vila Bertioga era baixíssima, mas o improvável às vezes acontece. Poucos dias depois da foto que Diniz de Mello Fraga enviou à sua madrinha, eis que cai nas minhas mãos esta outra, que um vizinho dele mandou para a Eslovênia.

O Cine Bertioga abriu em 1953, mas os filmes anunciados na fachada mostram que a foto é de uns anos depois. “Testemunha do crime” é de 1954, e “Os tiranos também morrem” foi lançado em 1955. Há ainda mais dois filmes em cartaz: “Bomba em a selva do terror”, de 1952, e “Em busca de amor”, sobre o qual não encontrei nada.

O cinema ficava na rua Teresina 625, dez minutos a pé da casinha do post anterior. A madrinha do Diniz tinha portanto não só uma casa às suas ordens, mas também um cinema para se entreter. Se fosse hoje, ela teria que andar 4 quilômetros até o Shopping Plaza Mooca.

A foto foi revelada por ali mesmo, no número 221 da mesma rua. Taí outra coisa que não dá mais pra fazer no bairro.

O texto em esloveno, que o google me ajudou a traduzir, não permite saber quem são o homem e os três meninos na porta, mas nos conta um pouco do cinema por dentro:

“Toje naś kino ima 770 mesta napred ima salu di če kaju i sa strasse ularak to śtó pise to je ime od kino.”
(Nosso cinema tem 770 lugares. Na frente há um salão de espera, e o que se lê da rua é o nome do cinema.)

Um cinema de bairro com 770 lugares! Hoje nem os complexos de shopping têm isso.

“Madrinha
esta e a nova Rezidencia que mandei fazer recente mente na cuál esta as cuas ordes
Sao Paulo 24 de Novembro
Rua Jaboticabál 245
afilhado Diniz de Mello Fraga”

A rua Jaboticabal fica na Vila Bertioga, simpático bairro no distrito da Mooca. Mas a casa da foto não está mais no número 245. No seu lugar ergueu-se outra bem maior.

Diniz de Mello Fraga deu o endereço completo, mas foi impreciso na data. Ele enviou a foto à madrinha em 24 de novembro, mas não sabemos de que ano.

De qualquer forma, foi num tempo em que um trabalhador pouco letrado como ele conseguia “mandar fazer” uma casinha como esta na Mooca e colocá-la às ordens da madrinha.

Hoje ele estaria ralando num Uber ou entregando iFood. Talvez nem isso.

A Vila Itororó está na moda. Transformada em centro cultural, ela foi aberta ao público há pouco mais de um mês. É o resultado de um longo processo, que envolveu o tombamento pelo Conpresp em 2002 e pelo Condephaat em 2005, a desapropriação em 2010, a luta dos moradores para ficar, a remoção deles em 2011, e um minucioso projeto de restauração que ainda não foi concluído e provavelmente nunca será. 

Compartilho com vocês estas fotos, que foram feitas muito provavelmente na década de 1940. São de um tempo em que a vila não estava na moda. Ao contrário: sua fase áurea já tinha passado, e ela começava a se encortiçar. Foi nesta época que se consolidou sua vocação para local de moradia popular.

Não faço ideia de quem fez as fotos, nem para que, mas gosto de imaginar um possível caminho que o fotógrafo percorreu. Vejo-o chegando na vila por cima, pela rua Martiniano de Carvalho, de onde tirou a primeira foto:

Descendo o escadão, ele chegou aos pés das enormes colunas que sustentam a casa principal, e que em outros tempos também foram do Teatro São José. Impossível não notá-las, tamanha sua imponência e desproporção. Aqui ele tira mais duas fotos.

Seguindo o caminho de paralelepípedos, nosso fotógrafo não tardou a alcançar a outra ponta, na rua Maestro Cardim. Ali, uma segunda presença imponente chamou sua atenção: a vila acabava em uma gigantesca área verde, com direito a campo de futebol. Era o Vale do Itororó, parque urbano improvisado que se perdeu anos depois, com a abertura da avenida 23 de Maio.

Um parque anexo. Taí uma coisa que projeto nenhum de restauração vai devolver à Vila Itororó.

A foto atual, que abre o post, é da Secretaria Municipal da Cultura (imagem divulgação). As demais são parte de um conjunto de 15 fotos da Vila Itororó e seu entorno, encontrado à venda sem informações quanto à data ou autoria. Arrisco que sejam de meados da década de 1940.

A foto, de 1934, é de um casal endinheirado morador do Jardim América. Ela está dentro do carro; ele, certamente atrás da câmera.

Pelo jeito, a intenção foi enviar para a Alemanha um registro do padrão de vida conquistado por aqui. Eu não falo nada de alemão, mas o Google me ajudou a traduzir:

Unsere privatvilla, rua Venezuela 35 im hintergrund. Unser neuer Chevrolet-wagen kaki farbe hell, mit dunkelbraum.”

(Nossa villa privada, na rua Venezuela 35, ao fundo. Nosso novo Chevrolet de cor caqui e marrom.)

Sorte deles terem feito esse registro, que atualmente seria impossível.

Quem mora hoje nesse bairro (se é que alguém mora, pois olhando não dá pra saber) conseguiria no máximo fotografar a mulher e o carro. A casa fica sempre invisível, escondida atrás de um muro fortificado.

Não faço ideia de quem são as duas crianças, mas a rua Maria Antônia, com o prédio da USP à esquerda e o muro do Mackenzie à direita, é inconfundível.

A data está anotada no verso – junho de 1968 – e é ela que torna a foto singular. A Maria Antônia de 68 ficou tão associada aos violentos confrontos de outubro, que parece até estranho que tão pouco tempo antes ela tenha sido palco de uma cena terna e suave como esta.

Pra completar, o carro da foto é um Simca Chambord, o mesmo que a banda Camisa de Vênus homenageou décadas depois. Na música, o Simca simboliza o clima de alegria e descontração dos anos 1960, que a ditadura enterrou:

Eu vi um futuro melhor
No painel do meu Simca Chambord
[…]
Mas eis que de repente foi dado um alerta

Ninguém saía de casa
E as ruas ficaram desertas
Eu me senti tão só
Dentro do Simca Chambord
Tudo isso aconteceu há mais de vinte anos
Vieram jipes e tanques
Que mudaram os nossos planos
Eles fizeram pior
Acabaram com o Simca Chambord!

E pensar que, tantos anos depois, estamos com a ré do Simca engatada de novo.