Este blog, quem diria, acaba de fazer uma descoberta: já existiu, em plena avenida Paulista, uma casa sobre a qual até agora não havia nenhuma informação ou registro conhecido!

Mas antes de mostrar esse achado, tenho que contar como cheguei a ele. Foi por meio de um velho álbum recheado de fotos da Primeira Guerra Mundial, posto à venda na internet por uma casa de leilões francesa.

Era um álbum com pedigree: pertenceu a um tal Georges Jean Bourgès (1887-1974), que comandou tropas francesas em diversas batalhas da primeira guerra. Quem tiver a paciência de pesquisar verá que ele era membro de uma família muito influente, pertencente à fina flor da aristocracia francesa.

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Como costuma acontecer nesses leilões, o álbum foi retalhado e vendido por partes. Cerca de metade dele era formada por páginas e páginas com fotos do cotidiano de campos de batalha. São centenas de imagens de trincheiras, armas e soldados, feitas por Bourgès entre 1914 e 1917. Estas páginas acabaram vendidas por valores bastante altos.

Mas a segunda metade não fez o mesmo sucesso: eram fotos de uma viagem que Bourgès fez à América do Sul entre janeiro e agosto de 1918. A guerra ainda estava rolando, mas pelo jeito ele resolveu deixar os campos de batalha e dar uma passeada, que ninguém é de ferro. Visitou Buenos Aires, Montevidéu, São Paulo, Rio, Vitória e Salvador. Eu acabei comprando baratinho, pelo lance mínimo, o lote com fotos de São Paulo.

As imagens, de março e abril de 1918, mostram que o combatente em férias andou bastante pela cidade. Visitou não só as atrações mais comuns – jardim da Luz, vale do Anhangabaú, museu do Ipiranga… – mas também outros lugares menos óbvios para um turista. Chegou a ir às regatas na represa de Guarapiranga!

 

Entre um passeio e outro, o visitante parece ter se hospedado na casa de outro francês: um senhor gordinho de terno escuro, gravata borboleta e chapéu Panamá, que em algumas fotos aparece identificado como Monsieur Pierre.

Não é preciso pesquisar muito para saber quem é o anfitrião. Trata-se do banqueiro Ferdinand Pierre, presidente do Banco de Credito Hypothecario e Agricola. No ano seguinte o banco seria comprado pelo governo estadual, e acabaria dando origem ao Banespa.

O banqueiro morava com a família numa casa bastante confortável, como se vê em duas das fotos. A casa é bem fácil de reconhecer: era um palacete em estilo neocolonial, no atual número 171 da avenida Paulista, projetado pelo arquiteto também francês Victor Dubugras.

 

E é nos fundos dessa imponente residência de banqueiro que fazemos a grande descoberta do post. Ali estava situada a casa de bonecas de Jacqueline Pierre, filha de Ferdinand.

Não deixa de ser uma novidade interessante: uma charmosa casinha que existiu na Paulista, mas que até agora ninguém conhecia. E ainda por cima com alguma chance de ter sido projetada pelo Dubugras!  🙂

 

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Um caixote está terminando de ser construído, a toque de caixa, na rua Maranhão 812, em Higienópolis.

O que será que vai funcionar nele? A faixa horizontal em tons de azul e verde, que atravessa o prédio de lado a lado, nos dá a resposta: será uma farmácia. A faixa é parte da identidade visual da rede Droga Raia.

Mas não é a primeira vez que este endereço é usado comercialmente. Ao contrário: desde os anos 70, uma longa sequência de estabelecimentos funcionou nele, aproveitando uma bela e convidativa construção sobrevivente dos tempos em que o bairro não era verticalizado. O último ocupante do casarão foi o que mais durou: um restaurante vegetariano, que ficou lá por cerca de 20 anos e fechou as portas há dois meses.

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Eu me pergunto por que o pessoal que está entrando agora considerou que uma casa tão rara e bela não podia ser usada como farmácia. Acharam que as pessoas não iam entrar nela para comprar seus remédios? Que a drogaria não ia dar certo se seu prédio não fosse também uma droga?

Nem mesmo a falta de espaço para carros pode ter sido a razão. Na frente do antigo casarão havia seis vagas!

A resposta mais provável nos é dada, novamente, pela desengonçada faixa horizontal. É que a velha casa não permitia o expediente simples, porém decisivo, para o qual o caixotão foi projetado: instalar a enorme logomarca meio metro para dentro da fachada, burlando assim a lei cidade limpa.

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(As três primeiras fotos são minhas, tiradas em 19 de setembro, 25 de julho e 26 de julho de 2017. A quarta é do Google.)

Na São Paulo atual, basta chover um pouquinho que os semáforos param de funcionar. Eles só voltam dali a um, às vezes até dois dias. A prefeitura aproveita esse tempo para culpar a gestão passada, ou as empresas contratadas para a manutenção, ou a tecnologia empregada no sistema, que é defasada.

Já na época desta foto, não sei se o problema era tão grave. Mas pelo menos a tecnologia ninguém podia culpar. Por mais antiga que fosse, vê-se na foto que ela era confiável, robusta e capaz de resistir às maiores tempestades.

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Fico devendo o crédito da foto, que chegou até mim sem qualquer informação sobre autor, data ou local. A data parece ser final dos anos 40 ou início dos 50, e o local eu agradeço se alguém me ajudar a reconhecer.

Os quatro postais foram enviados à terrinha por um português recém-chegado a São Paulo.

Não sabemos muito sobre ele, mas é possível inferir algumas coisas. Seu nome começa com R, pela forma como assina um dos cartões. A data em que escreve não é conhecida, mas os cartões que manda parecem ser da década de 1910. E pela forma como escreve, dá pra ver que não é uma pessoa com muita instrução.

Mas, de tudo o que se percebe, o que chama mais a atenção é seu deslumbramento com a cidade. A começar pelo postal em que R. mostra o local “adonde” estava empregado. Ele trabalhava em cima da Loja do Japão, na moderna e elegante rua São Bento.

“Adonde tem Lisboa uma rua como esta, ponhão aqui os olhos!”, escreve o português, maravilhado pelo lugar:

Outros motivos de admiração são o museu do Ipiranga e a estação da Luz.  “Adonde tem Lisboa um predio como este, olhem bem!”, pergunta R. sobre o museu.  “Adonde tem Portugal uma estação como esta? Olhem bem que não é feita de palha não!”, exclama sobre a estação.

 

Passado um século, eu não sei muito bem o que R. escreveria se visse esses lugares. A Loja do Japão fechou nos anos 30, e a São Bento há muito tempo entrou em decadência. Lisboa de fato não tem muitos prédios do tamanho do museu do Ipiranga, mas eles estão em geral mais firmes: nosso museu foi interditado às pressas em 2013, perigando desabar, e não tem previsão de reabrir pelos próximos anos. E a estação da Luz de fato não é de palha, mas isso não impediu que ardesse em fogo, em 2015. Imaginem se fosse!

Nossa vez de perguntar: Adonde erramos?

Dizem que no final dos anos 50 e início dos 60, quando estava recém-construído, o edifício Bretagne era ponto de peregrinação turística. Os ônibus encostavam na avenida Higienópolis para que a turistada pudesse ver de perto aquele verdadeiro monumento, de finíssimo e arrojado mau gosto.

Esta foto parece confirmar a lenda. Ela apareceu num lote de slides velhos à venda em Columbus, Ohio, e deve ter sido feita por algum americano em viagem por aqui. A moldura do slide tem a data de revelação: janeiro de 1960. Pelo enquadramento ruim e pela má qualidade geral, a foto só pode ser de turista mesmo.

Mas apesar da qualidade, ela permite ver algumas características originais do prédio de Artacho Jurado que hoje não existem mais.

O que mais chama a atenção é a maior integração que havia entre o condomínio e o espaço público, mais tarde quebrada pela instalação de grades de segurança. Mas há outros detalhes. Um deles é a entrada para carros que parece estar funcionando à direita, hoje anulada. Outro é o guarda-corpo do terraço sobre o salão de festas, bem mais interessante que o atual. E ainda há as luminárias vermelhas e brancas dos postes, substituídas por uns globos brancos bem menos artachianos.

Deve haver mais diferenças que eu não notei. Se alguém perceber alguma, avise!

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Tem gente que pensa que a avenida Paulista termina na rua da Consolação. Mas não é assim: na verdade ela atravessa a Consolação e termina duas quadras à frente, numa pracinha na altura da rua Minas Gerais.

Noventa anos atrás, quando estas fotos foram tiradas, a tal praça já tinha mais ou menos o mesmo aspecto que tem hoje. A mureta em semicírculo, que se vê na primeira das fotos abaixo, continua exatamente igual.

A diferença é que naquela época existia ali um enorme e desengonçado monumento em homenagem a Olavo Bilac. Instalado em 1922, o monumento era formado por diversas esculturas em bronze inspiradas na obra do poeta, distribuídas em uma estrutura de alvenaria. Vistas isoladamente, até que não eram tão feias. Mas o conjunto ficou horroroso.

Tão horroroso que a prefeitura, com toda a razão, resolveu tirá-lo de lá em 1936.

Uma vez desfeito o monumento, sobraram as estátuas, que, desgarradas, continuam perambulando até hoje pela cidade. O busto do poeta que ficava no centro do conjunto, por exemplo, atualmente está num modesto pedestal na avenida Sargento Mário Kozel, próximo ao parque do Ibirapuera. Outro fragmento, “O Caçador de Esmeraldas”, foi parar numa escola estadual em Pinheiros. Outro ainda, conhecido como “Idílio” ou “Beijo Eterno”, está no Largo de São Francisco, em frente à faculdade de Direito, e assim por diante.

Estas duas fotos faziam parte de um álbum particular que também foi desmembrado e acabou sendo vendido aos pedaços pela internet. A primeira mostra o monumento visto da avenida, e a segunda, a avenida vista do monumento. Como o álbum se desfez, não dá mais pra saber de quem são as fotos. Só sei que era alguém que falava alemão, por causa da data anotada na folha em que estavam coladas: “März 1926”.

Em 1982 a praça acabou sendo palco de outra homenagem infeliz, ao ser oficialmente batizada de “Praça Marechal Cordeiro de Farias” em reconhecimento a um militar que participou do golpe de 1964. Isto me faz pensar que, feio por feio, teria sido melhor manter o monumento ao poeta parnasiano.

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