Odila é a diferentona da foto. Ela é a única que teve o nome anotado, e a única que posou separada das colegas, ao lado de seu garboso professor.

As razões de tanto privilégio se perderam junto com os envolvidos: a foto tem 97 anos, e não sobrou ninguém que possa explicá-las.

A única que restou é a escada que emoldura a pose, que evidentemente não pode contar a história. Mas só o fato de ela ter sobrevivido já é notável em São Paulo, onde o normal é que as construções (sobretudo as belas) desapareçam antes das pessoas.

Pensando bem, a escada é outra diferentona na foto.

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A foto antiga, com um 1919 anotado no verso, estava em um sebo em Santos. A foto atual fui eu mesmo que tirei hoje de manhã, na Escola Estadual Conselheiro Antonio Prado, na Barra Funda.

O reverendo Alva W. Knoll, até onde eu consegui pesquisar, foi um religioso americano que passou a maior parte da vida em Freeport, uma cidadezinha do estado americano de Ohio. As últimas informações que consegui achar dele são dos anos 1960: deve ter se aposentado ou morrido nessa época.

Mas bem antes disso, quando ainda era estudante em um seminário metodista, ele teve a chance de fazer longas viagens pelo mundo. E uma delas, em 1924, incluiu um tour pela América do Sul.

A viagem rendeu muitas fotos, e de volta aos Estados Unidos o futuro pastor resolveu ganhar um dinheirinho com elas, rodando as igrejas do estado de Ohio e oferecendo seus serviços como palestrante.

Como na época não exista powerpoint, o jeito era viajar carregando 50 delicados slides de vidro para serem projetados. A palestra se chamava “Little glimpses of daily life beyond the Equator” (Pequenos vislumbres da vida cotidiana debaixo do Equador), e a remuneração sugerida era de 10 dólares. O restante das informações está no folheto datilografado que Alva distribuía divulgando o serviço:

“Fifty minute lecture, with fifty colored slides selected from 800 photographs taken on the South American Tour. Slides made up and colored by Knoll. Slides give a fair picture of living conditions, customs, character, and some history.”

(Palestra de 50 minutos, com 50 slides coloridos selecionados de 800 fotografias do tour sulamericano. Os slides, produzidos e colorizados por Knoll, proporcionam uma imagem fiel das condições de vida, costumes, caráter e alguma história.)

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As imagens que ele mostrava de São Paulo eram interessantes, mas eu tenho cá as minhas dúvidas sobre a qualidade das informações que Alva Knoll divulgava na palestra. Em um dos slides, dá pra perceber que ele ficou na dúvida sobre como escrever “Butantan”. E em outro, errou bem mais feio: escreveu “Teatros” na foto do Anhangabaú em que aparecem os prédios da Prefeitura e do Automóvel Clube. Deve tê-los confundido com o Teatro Municipal e o Teatro São Pedro, que ficavam (um deles ainda fica) quase ali, mas do lado oposto do vale.

Mas o mais interessante nas fotos é que, se fossem tiradas hoje, a do Instituto Butantan ficaria praticamente igual, enquanto a do Anhangabaú seria totalmente diferente. Meu detalhe preferido  está na segunda: o edifício Sampaio Moreira, em construção, exibindo um anúncio do loteamento Bosque da Saúde. O prédio do centro e o bairro da zona sul estavam nascendo simultaneamente.

Quando a construtora Monções começou a comercializar o edifício Louvre, em 1952, os anúncios nos jornais descreviam os “requintes de confôrto” que os moradores do prédio teriam à sua disposição nas áreas comuns. A lista era longa: playground, solarium, piscina, bar, jardim de inverno, salão de festas, salão de estar, salão de chá, salão para crianças…

Quase todos esses itens, na verdade, estavam presentes também em outros prédios do João Artacho Jurado, como por exemplo o Bretagne. O único realmente exclusivo era uma “Grandiosa Galeria de Arte” que seria instalada no térreo. Ela com certeza tinha sido concebida para ressaltar a atmosfera ‘artística’ do empreendimento, que não só tinha nome de museu, mas também se dividia em alas com nomes de pintores: Da Vinci, Rembrandt, Velázquez, Renoir, Pedro Américo.

Artacho, infelizmente, não conseguiu entregar essa galeria. Como tantos outros empreendimentos dele, o Louvre foi construído com grandes dificuldades. A obra se arrastou por mais de 15 anos e, quando o prédio ficou pronto, em 1967, a ideia já tinha ficado para trás.

Mas eis que, quase 65 anos depois de anunciada, a promessa será finalmente cumprida, com a inauguração em setembro próximo do Museu do Louvre Pau-Brazyl. O projeto é iniciativa do Guilherme Giufrida e da Jéssica Varrichio, moradores/curadores que convidaram artistas e coletivos e estão angariando fundos para viabilizá-lo.

Eu gostei muito do projeto e também da ideia de batizá-lo com o nome Pau-Brazyl. A meu ver, isso compensará uma feia injustiça cometida lá atrás pelo próprio Artacho. Eu sempre achei que não tinha sido muito elegante da parte dele dar nomes de artistas europeus aos quatro luxuosos blocos da frente, enquanto relegava o paraibano Pedro Américo ao bloco de apartamentos de fundos, mais barato e modesto. Um complexo de vira-lata que podia ter sido evitado…

Quem quiser conhecer os detalhes do Museu do Louvre Pau-Brazyl pode entrar na página do projeto no Facebook (www.facebook.com/louvrepaubrazyl), ou no link da campanha de crowdfunding (goo.gl/L7tz11).

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Quando se mudou da praça do Patriarca para a praça Ramos, em 1939, o Mappin tentou mudar de nome e passou a se chamar Casa Anglo Brasileira. A tentativa durou alguns anos, mas não vingou: as pessoas continuavam chamando a loja de Mappin mesmo.

Esta foto é uma das poucas que existem do prédio com o nome trocado na fachada. Algum tempo depois, o letreiro com a marca Mappin voltaria ao seu lugar.

Porém, o que torna a foto rara mesmo nem é isso, mas sim o fato de ela ser em cores, em plena década de 1940. O Mappin, aliás, só aparece por acaso: a riqueza está nos personagens do fascinante carrinho de mexericas, vendidas a 5 cruzeiros a dúzia.

A foto é reproduzida de um slide de 2 1/4 polegadas, formato que foi comum nos anos 40, antes de os filmes de 35 mm se popularizarem.

E quem gostou deste post provavelmente também vai gostar deste outro.

As duas fotos estão na Inglaterra e esta semana foram a leilão pela internet, mas ninguém as comprou. O lance mínimo, de 100 libras (460 reais) cada uma, era alto demais, pelo menos para um pobre assalariado como eu.

O vendedor dizia que elas são da década de 1870, e essa era toda a informação que ele tinha. O resto deve ser inferido das anotações que alguém fez a lápis, debaixo de cada uma delas: trata-se de um “sanatorium” localizado em algum local de São Paulo, que tinha como vizinhos uma chácara e um chalé.

Meu palpite é que se trata do “Sanatorio Inglez”, que nessa época funcionava no final da atual avenida Higienópolis.

Espécie de casa de repouso, o estabelecimento também se chamou “Hotel Hygienopolis”, até ser vendido em 1902 para as religiosas da irmandade de Nossa Senhora de Sion. As freiras contrataram o escritório Ramos de Azevedo para derrubar tudo e construir ali um colégio, que funciona até hoje.

Certeza, certeza mesmo, eu não tenho. Mas a história parece fazer sentido, e a topografia do terreno também.

As imagens estão com a marca d’água do vendedor, mas isso não atrapalha a visualização. Elas têm boa resolução, então vale a pena clicar para ver os detalhes.


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“Não posso ficar / Nem mais um minuto com você / Sinto muito, amor / Mas não pode ser / Moro em Jaçanã / Se eu perder esse trem / Que sai agora às onze horas / Só amanhã de manhã”

Imortalizado no samba de Adoniran Barbosa, o trem da Cantareira (ou tramway da Cantareira, como também era chamado) é lendário em São Paulo.

Mas embora esteja tão presente na memória afetiva da cidade, as fotos que restaram dele não costumam ter qualidade. A internet está cheia delas, mas são imagens em preto e branco, com baixa resolução e pouca nitidez.

Por isso eu fiquei surpreso quando descobri estas. Nunca tinha visto fotos do trem a cores, e muito menos com esta riqueza de detalhes. Destaque para a estação Guarulhos, que por sinal continua em pé até hoje, embora evidentemente não seja mais usada como estação.

As fotos são de setembro de 1963 (essa é a data da revelação, impressa na moldura dos slides kodachrome). Foi justamente nessa época que Adoniran compôs o samba, que seria lançado em disco, pelos Demônios da Garoa, em 1964.

O trem, que circulava desde 1893, foi desativado menos de dois anos depois destas fotos.

As fotos são reproduzidas de slides de 35 mm da época, que apareceram à venda em Bethlehem, no estado americano da Pensilvânia. Como foram parar lá, não faço ideia. Mas fico feliz de tê-las achado e poder dar esta pequena contribuição à memória iconográfica do trem das onze.

Esta semana, a página Prédios de São Paulo do Facebook publicou uma foto lindíssima que tomo a liberdade de reproduzir aqui. Ela mostra o Conjunto Nacional na época da construção, visto de baixo para cima, a partir da rua Augusta.

Por coincidência, no mesmo dia em que vi que vi essa foto, caiu na minha mão uma outra, tirada na mesma época, do ponto de vista exatamente oposto. Ela mostra a rua Augusta, vista de cima para baixo, a partir do Conjunto Nacional.

Achei a coincidência interessante, e resolvi postar as duas aqui. O fato de uma das fotos ser em preto e branco e a outra em cores torna ainda mais curiosa essa oposição.

A primeira foto, segundo a página Prédios de São Paulo, é do acervo deixado por David Libeskind (1928-2014), autor do prédio. A segunda é um slide de 35mm, de fotógrafo desconhecido.

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