186A imagem mostra o Teatro Municipal e a praça da República no começo da década de 1910. Até aí, nada demais: a internet está cheia de fotos desses dois locais tiradas nessa mesma época.

O que torna estas duas fotos interessantes, no entanto, é que nelas aparecem os primeiros táxis da cidade, parados à espera de passageiros. É a frota da Companhia Auto-Taxímetros Paulista, empresa fundada em 1910 para explorar o serviço em São Paulo.

A imagem é de um livro com mais de 1000 páginas pulicado em 1913, organizado por um certo Reginald Lloyd e intitulado “Impressões do Brazil no Século Vinte: Sua Historia, Seo Povo, Commercio, Industrias e Recursos”. A referência aos táxis aparece ali pela página 700, e eles são apresentados como uma grande inovação:

“A história da fundação e desenvolvimento da companhia desperta real interesse, pois que representa a introdução de uma ideia nova e o seu completo êxito. Atualmente, tem a companhia 62 automóveis-taxímetros (…) e o número dos veículos cresce de dia para dia, com as contínuas aquisições que faz a empresa. (…) Para mostrar a grande aceitação que encontram os carros da companhia, basta dizer que estão em serviço contínuo, por assim dizer, noite e dia. O estabelecimento tem uma escola de choferes, e estes, para entrar no serviço da companhia, têm de passar por um exame rigoroso, com provas minuciosas e práticas. As oficinas da companhia são montadas com os mais modernos maquinismos e utensílios para construção de automóveis e seu reparo. Em suas diversas seções, emprega a empresa 150 homens. O enorme desenvolvimento que tiveram os serviços da companhia em 1911 tornou necessário o aumento do edifício em que se achava instalada. Tanto a garagem como as oficinas têm aspecto de limpeza e ordem perfeitas; os choferes da empresa são de uma cortesia que muito a recomenda. A garagem e oficinas da companhia ficam à Rua Conselheiro Nébias, 55 e 70, havendo, além disso, uma agência à Rua de São Bento, 21.”

Outra referência a esses táxis aparece em “São Paulo de Meus Amores”, livro do jornalista Afonso Schmidt publicado em 1954:

“Naquele tempo, os automóveis começavam a aparecer. Eram, geralmente, de marcas francesas e italianas: Berliet, De Dion Button, Fiat, Benz… Ainda se pareciam com carruagens. Os primeiros táxis eram umas caixas negras, com lanternas vermelhas ao lado, e os primeiros choferes de praça, pensando talvez que se tratasse de embarcações, lhes davam nomes femininos: a ‘Elisa’, a ‘Laura’, a ‘Rosalina’… Tais nomes eram mandados gravar em chapas metálicas e afixados atrás da carroceria”.

Mas nem tudo foi tranquilo, na introdução dos táxis em São Paulo. Em 25 de agosto de 1911, uma notícia d’O Estado de São Paulo relata que os cocheiros que viviam de transportar passageiros da estação da Luz não estavam recebendo nada bem os primeiros táxis que tentavam fazer ponto na porta da estação:

“Os cocheiros dos carros de praça que estacionam na estação da Luz não acolheram bem a concorrência que lhes vai fazer a nova companhia de Auto-transporte (…). No primeiro dia em que ali foram distribuídos vários automóveis, criou-se logo uma corrente de antipatias à nova empresa, e os cocheiros viram na conduta daquela empresa uma concorrência desleal e perniciosa”.

Segundo o Estadão, os protestos dos cocheiros foram bastante violentos, com tumulto e “grande correria”. Cem anos depois, eu fico morrendo de dó de terem amassado a Elisa, a Laura e a Rosalina.

E também fico pensando em como as polêmicas se repetem. Agora são os táxis que assumem o papel de vítimas, acusando o aplicativo Uber, inovação da vez, da mesma “concorrência desleal e perniciosa”.

(A imagem, assim como o trecho do livro “Impressões do Brazil no Século Vinte”, foram reproduzidos de novomilenio.inf.br)

“Revitalização” é uma palavrinha meio complicada. Revitalizar significa dar vida novamente a alguma coisa, uma ideia que só faz sentido se supusermos que a coisa em questão está morta.

822Quando usada em projetos de intervenção em áreas urbanas, a palavra não tem sido muito bem vista por arquitetos e urbanistas. “Revitalizar” uma área indica que ela estava sem vida, ou que a vida ali presente não valia grande coisa. Não é lá um jeito muito simpático de tratar a população residente: por mais desvalorizados que estejam, esses locais têm sempre muita vida. Renovação, requalificação ou reconversão são certamente termos mais adequados…

Já quando usada em endereços chiques, além de complicada, a palavra fica ridícula. É o que está acontecendo em um prédio residencial da avenida Higienópolis. Pelo jeito, os moradores do edifício Apracs julgam que a arquitetura de João Artacho Jurado está morta. Para ajudar a enterrá-la, encomendaram um “projeto de revitalização”.

O projeto ainda não foi executado, e eu aqui do meu canto torço para que não seja. As fotos abaixo, que estão expostas no hall do prédio, dão uma boa ideia da tal revitalização. A coisa consiste, basicamente, em jogar um monte de madeira em cima da inventiva linguagem do Artacho. Pastilhas e outros revestimentos originais, em áreas tanto internas quanto externas, ao invés de restaurados e valorizados, serão cobertos por decks iguais aos das piscinas e solariums desses condomínios beges e padronizados de hoje em dia, tão cheios de vida no seu estilo “visite o decorado”.

O ponto mais alto do projeto é um deck-playground, para as crianças. Eu já vejo a garotada do prédio se divertindo horrores, cantando “atirei o pau no Artacho-cho”…

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A foto do final dos anos 50 tem tantos detalhes que fica difícil até enumerá-los. Entre outras coisas, eu gosto das torres da catedral da Sé ainda inacabadas, do fórum João Mendes ainda em construção, da nitidez com que a serra aparece ao fundo, e desse céu limpo, hoje tão difícil de se ver em São Paulo.

Também tem um arco colorido, atrás da igreja. Não sei do que se trata, mas com um certo esforço ele lembra um arco-iris. Isso torna a foto propícia para ser postada hoje, e quem tem facebook entenderá por quê. ;)

Mas o detalhe que eu mais gosto é o famoso prédio Santa Helena, bem à esquerda, que seria demolido em 1971 para a construção da estação Sé do metrô. Fotos coloridas dele são muito raras  Eu pelo menos, que me lembre, nunca tinha visto nenhuma. Pena que ele apareça cortado e não possamos vê-lo inteiro em cores.

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(Imagem reproduzida de um slide de 35mm da época, de autor desconhecido)

Este é um blog antenadíssimo, atualizadíssimo, sempre por dentro das tendências importantes. Por isso mesmo, ele não poderia ficar de fora da recente onda de publicações para colorir.

Estes cinco cartões postais antiestresse têm esse propósito. Por meio deles você pode passear pela São Paulo antiga, ao mesmo tempo em que se dedica a uma poderosa terapia. Com certeza todo mundo vai gostar da novidade! ;)

Os cinco cartões circularam em 1905. Eu acho curioso que um deles seja do Teatro Municipal, que na época sequer existia. Mas disso eu já falei neste outro post.

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A foto acima é clássica. Feita em 1954 por German Lorca, ela acabou se tornando uma das mais conhecidas do autor, fotógrafo oficial das comemorações do IV Centenário.

A foto abaixo, ao contrário, era inédita até agora. Também foi feita em 1954, mas por um alemão anônimo que, ao que parece, visitou a “Internationale Ausstellung” do Ibirapuera e mandou revelar o filme na Fotoptica.

Sem dúvida a foto de Lorca tem mais poesia que a do alemão, mas mesmo assim achei curiosa a semelhança entre elas. Até as sombras que as pessoas projetam no chão se parecem muito nas duas!

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A foto de German Lorca é reproduzida da internet. A do alemão estava até agora em Berlim e apareceu à venda num site, junto com a do post anterior.

812A imagem mostra um Ibirapuera um pouco estranho aos olhos de hoje: o parque não tem grama (seu chão é de terra nua) e é frequentado por homens de terno, gravata e chapéu.

Pela anotação em alemão no verso, sabemos que a foto é de setembro de 1954, que os dois elegantes personagens se chamam Antonio e Guilherme, e que eles estão no parque por causa da “ausstellung” que acontecia por lá.

Ausstellung significa exposição: trata-se evidentemente da Exposição do IV Centenário, que tinha sido inaugurada em 21 de agosto, junto com o parque.

Antonio e Guilherme, seja lá quem tenham sido, a esta altura provavelmente não existem mais. E outro que não existe é o bonito prédio em forma de sela que aparece atrás deles: é o pavilhão do Rio Grande do Sul, projetado para o parque pelo arquiteto Jayme Luna dos Santos. É que em São Paulo, às vezes, a boa arquitetura é tão efêmera quanto as pessoas.

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Não sei de quem é a foto, que estava até agora na Alemanha e foi posta à venda pela internet.

João Artacho Jurado é um arquiteto que, vira e mexe, dá o ar da graça aqui no blog. Hoje ele comparece com duas de suas obras: os edifícios Planalto e Viadutos.

Pelo aspecto dos prédios, ambos em fase de acabamento, e também pela palavra “horta” pintada na mureta do viaduto 9 de Julho, é possível ter uma ideia aproximada de data. A pichação é propaganda de Oscar Pedroso Horta, político ligado a Jânio Quadros que, em 1957, foi candidato a prefeito. Perdeu de lavada: teve apenas 1,4% dos votos, numa eleição ganha por Adhemar de Barros. Os dois prédios do Artacho ficaram prontos por essa mesma época.

Outro prédio que se destaca nas duas fotos é o Japurá, do Eduardo Kneese de Mello, contrastando por suas linhas sóbrias com os dois do Artacho. Quem dera ainda se construísse com essa personalidade autoral no centro de São Paulo, hoje infestado de projetos anódinos da Gafisa, Cyrela e Setin.

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As duas fotos reproduzem slides de 35 mm da época, de autor desconhecido.

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