A foto do final dos anos 50 tem tantos detalhes que fica difícil até enumerá-los. Entre outras coisas, eu gosto das torres da catedral da Sé ainda inacabadas, do fórum João Mendes ainda em construção, da nitidez com que a serra aparece ao fundo, e desse céu limpo, hoje tão difícil de se ver em São Paulo.

Também tem um arco colorido, atrás da igreja. Não sei do que se trata, mas com um certo esforço ele lembra um arco-iris. Isso torna a foto propícia para ser postada hoje, e quem tem facebook entenderá por quê. ;)

Mas o detalhe que eu mais gosto é o famoso prédio Santa Helena, bem à esquerda, que seria demolido em 1971 para a construção da estação Sé do metrô. Fotos coloridas dele são muito raras  Eu pelo menos, que me lembre, nunca tinha visto nenhuma. Pena que ele apareça cortado e não possamos vê-lo inteiro em cores.

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(Imagem reproduzida de um slide de 35mm da época, de autor desconhecido)

Este é um blog antenadíssimo, atualizadíssimo, sempre por dentro das tendências importantes. Por isso mesmo, ele não poderia ficar de fora da recente onda de publicações para colorir.

Estes cinco cartões postais antiestresse têm esse propósito. Por meio deles você pode passear pela São Paulo antiga, ao mesmo tempo em que se dedica a uma poderosa terapia. Com certeza todo mundo vai gostar da novidade! ;)

Os cinco cartões circularam em 1905. Eu acho curioso que um deles seja do Teatro Municipal, que na época sequer existia. Mas disso eu já falei neste outro post.

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A foto acima é clássica. Feita em 1954 por German Lorca, ela acabou se tornando uma das mais conhecidas do autor, fotógrafo oficial das comemorações do IV Centenário.

A foto abaixo, ao contrário, era inédita até agora. Também foi feita em 1954, mas por um alemão anônimo que, ao que parece, visitou a “Internationale Ausstellung” do Ibirapuera e mandou revelar o filme na Fotoptica.

Sem dúvida a foto de Lorca tem mais poesia que a do alemão, mas mesmo assim achei curiosa a semelhança entre elas. Até as sombras que as pessoas projetam no chão se parecem muito nas duas!

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A foto de German Lorca é reproduzida da internet. A do alemão estava até agora em Berlim e apareceu à venda num site, junto com a do post anterior.

812A imagem mostra um Ibirapuera um pouco estranho aos olhos de hoje: o parque não tem grama (seu chão é de terra nua) e é frequentado por homens de terno, gravata e chapéu.

Pela anotação em alemão no verso, sabemos que a foto é de setembro de 1954, que os dois elegantes personagens se chamam Antonio e Guilherme, e que eles estão no parque por causa da “ausstellung” que acontecia por lá.

Ausstellung significa exposição: trata-se evidentemente da Exposição do IV Centenário, que tinha sido inaugurada em 21 de agosto, junto com o parque.

Antonio e Guilherme, seja lá quem tenham sido, a esta altura provavelmente não existem mais. E outro que não existe é o bonito prédio em forma de sela que aparece atrás deles: é o pavilhão do Rio Grande do Sul, projetado para o parque pelo arquiteto Jayme Luna dos Santos. É que em São Paulo, às vezes, a boa arquitetura é tão efêmera quanto as pessoas.

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Não sei de quem é a foto, que estava até agora na Alemanha e foi posta à venda pela internet.

João Artacho Jurado é um arquiteto que, vira e mexe, dá o ar da graça aqui no blog. Hoje ele comparece com duas de suas obras: os edifícios Planalto e Viadutos.

Pelo aspecto dos prédios, ambos em fase de acabamento, e também pela palavra “horta” pintada na mureta do viaduto 9 de Julho, é possível ter uma ideia aproximada de data. A pichação é propaganda de Oscar Pedroso Horta, político ligado a Jânio Quadros que, em 1957, foi candidato a prefeito. Perdeu de lavada: teve apenas 1,4% dos votos, numa eleição ganha por Adhemar de Barros. Os dois prédios do Artacho ficaram prontos por essa mesma época.

Outro prédio que se destaca nas duas fotos é o Japurá, do Eduardo Kneese de Mello, contrastando por suas linhas sóbrias com os dois do Artacho. Quem dera ainda se construísse com essa personalidade autoral no centro de São Paulo, hoje infestado de projetos anódinos da Gafisa, Cyrela e Setin.

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As duas fotos reproduzem slides de 35 mm da época, de autor desconhecido.

À primeira vista pode não parecer, mas a foto foi tirada da famosa escadaria do Bixiga, aquela que liga esse bairro ao Morro dos Ingleses. A luminária cortada pela margem inferior é de um poste que está na escadaria até hoje. A rua lá em baixo é a Fortaleza, e mais ou menos no meio da foto ela cruza com uma Rui Barbosa ainda estreitinha.

O que causa certa estranheza, e dificulta um pouco o reconhecimento do local, é a ausência da praça Dom Orione em frente à escadaria. Hoje a praça é famosa, com sua feira de antiguidades aos domingos, mas em 1954, quando a foto foi tirada, ela não existia. Em seu lugar havia esse quarteirão de sobrados à direita.

A praça nasceu alguns anos depois, de um jeito bem paulistano. Na década de 60 o bairro foi retalhado por intervenções viárias, e um dos ataques aconteceu na região da foto: a rua Rui Barbosa foi alargada, e interligada por viaduto com a 13 de Maio. Da grande área desapropriada para a obra, acabou sobrando um fiapinho de terreno que não servia para muita coisa. Nele foi feita a praça, que o bairro ganhou como prêmio de consolação pelo esquartejamento.

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A foto, cujo autor desconheço, é um slide de 35 mm datado de 1954 na moldura. Agradeço ao Gilberto Calixto Rios, que me ajudou a reconhecer o local.

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Hoje li a revista Veja. Não a edição desta semana, claro, que eu não ia estragar meu feriado, mas a de 3 de fevereiro de 1971. A Veja é assim: depois de deixá-la descansar uns 40 ou 50 anos, já dá pra ler.

A matéria que mais me chamou a atenção conta como a cidade estava reagindo a um evento grandioso: a inauguração do minhocão, que tinha acontecido poucos dias antes. O discurso da revista era bem afinado com o da prefeitura, e a matéria festejava a obra-prima de Paulo Maluf:

“Da praça Roosevelt ao largo Padre Péricles (…) o tempo de viagem passou da incerteza entre vinte e cinqüenta minutos à certeza de menos de cinco. Para São Paulo ganhar tôdo esse tempo, certamente valeu a pena devastar uma floresta de 5000 eucaliptos (para os caibros), gastar 58.000 metros cúbicos de concreto (um prédio do tamanho do Empire State de Nova York só precisaria de um décimo disso) e 6.200 toneladas de ferro, num total de 40 milhões de cruzeiros. Pois o minhocão significa que é possível ir da Mooca, na zona leste, à Lapa, na oeste, em doze minutos, um têrço do tempo anterior.”

Ainda segundo a matéria, a reação da população à inauguração do viaduto foi bastante previsível. O paulistano da época, assim como o atual, adorava uma aglomeração. O programa de índio foi o mesmo que se repete até hoje, invariavelmente, em qualquer inauguração de shopping ou de árvore de natal:

“Nos dois primeiros dias da semana passada, aparentemente todos os carros de passeio e táxis de São Paulo em condições de movimentar-se, lotados por famílias, crianças e cachorros, foram praticar o ritual de ‘ir conhecer’. A situação criou notáveis, mesmo para São Paulo, congestionamentos de trânsito. Nos dois dias seguintes, possivelmente temerosos de que o engarrafamento se repetisse, os motoristas realizaram a segunda parte do ritual, o ‘desviar dali a todo custo’.”

805Mas a parte mais interessante é quando a Veja admite que todo esse progresso tinha algum custo. A reportagem tinha visitado os prédios ao longo do elevado e conversado com moradores, e descobriu que para eles, vejam só que coisa, o minhocão estava criando certos “problemas especiais”.

Uma das pessoas entrevistadas foi Cleusa da Silva, de 18 anos, que morava com a mãe em um apartamento a 19 centímetros da pista. “Tenho mêdo de ser atropelada na sala, ou então de que algum malvado salte na minha cama”, disse Cleusa à reportagem. A mãe dela explicou que, por causa do calor, não era possível fechar as janelas do apartamento. “Então os motoristas passam, olham e riem para a gente”.

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Elvira Frederici, 42 anos, apareceu na reportagem estendendo roupas no varal, em seu espaçoso terraço a menos de 1 metro dos carros. “Era o orgulho da gente êsse terraço, num sol de fazer inveja para quem morava em cima”, contou Elvira, saudosa.

E Lília Stevanini, uma secretária de 30 anos, tinha decidido deixar de usar um dos dois quartos do seu apartamento, o que dava para o elevado. De dia o barulho era muito grande, e de noite também vinha “uma luz brutal que atravessa qualquer cortina”.

Nem todo mundo, no entanto, reclamava. João Casanova, um aposentado de 78 anos, estava adorando a vista do terceiro andar. A esposa dele, que pelo jeito não gostava muito do seu João dentro do apartamento, também elogiava: “Com o elevado, a casa ficou mais alegre. Meu marido fica no terraço desde cedo, apreciando o movimento dos carros. Êle prefere o terraço à televisão”. E a Veja aproveitou para concluir: “O que prova que, sem dúvida e em mais de um sentido, o minhocão é um espetáculo”.

É bem possível que Cleusa, Elvira e Lília estejam vivas até hoje. Se estiverem, têm 62, 86 e 74 anos de idade. Espero que tenham sido felizes estes anos todos, e que tenham tido a chance de se mudar logo dali. Já seu João, que hoje teria 122 anos, com certeza já faz tempo que não está mais vendo a vida fugir pela janela.

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