João Artacho Jurado é um arquiteto que, vira e mexe, dá o ar da graça aqui no blog. Hoje ele comparece com duas de suas obras: os edifícios Planalto e Viadutos.

Pelo aspecto dos prédios, ambos em fase de acabamento, e também pela palavra “horta” pintada na mureta do viaduto 9 de Julho, é possível ter uma ideia aproximada de data. A pichação é propaganda de Oscar Pedroso Horta, político ligado a Jânio Quadros que, em 1957, foi candidato a prefeito. Perdeu de lavada: teve apenas 1,4% dos votos, numa eleição ganha por Adhemar de Barros. Os dois prédios do Artacho ficaram prontos por essa mesma época.

Outro prédio que se destaca nas duas fotos é o Japurá, do Eduardo Kneese de Mello, contrastando por suas linhas sóbrias com os dois do Artacho. Quem dera ainda se construísse com essa personalidade autoral no centro de São Paulo, hoje infestado de projetos anódinos da Gafisa, Cyrela e Setin.

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As duas fotos reproduzem slides de 35 mm da época, de autor desconhecido.

À primeira vista pode não parecer, mas a foto foi tirada da famosa escadaria do Bixiga, aquela que liga esse bairro ao Morro dos Ingleses. A luminária cortada pela margem inferior é de um poste que está na escadaria até hoje. A rua lá em baixo é a Fortaleza, e mais ou menos no meio da foto ela cruza com uma Rui Barbosa ainda estreitinha.

O que causa certa estranheza, e dificulta um pouco o reconhecimento do local, é a ausência da praça Dom Orione em frente à escadaria. Hoje a praça é famosa, com sua feira de antiguidades aos domingos, mas em 1954, quando a foto foi tirada, ela não existia. Em seu lugar havia esse quarteirão de sobrados à direita.

A praça nasceu alguns anos depois, de um jeito bem paulistano. Na década de 60 o bairro foi retalhado por intervenções viárias, e um dos ataques aconteceu na região da foto: a rua Rui Barbosa foi alargada, e interligada por viaduto com a 13 de Maio. Da grande área desapropriada para a obra, acabou sobrando um fiapinho de terreno que não servia para muita coisa. Nele foi feita a praça, que o bairro ganhou como prêmio de consolação pelo esquartejamento.

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A foto, cujo autor desconheço, é um slide de 35 mm datado de 1954 na moldura. Agradeço ao Gilberto Calixto Rios, que me ajudou a reconhecer o local.

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Hoje li a revista Veja. Não a edição desta semana, claro, que eu não ia estragar meu feriado, mas a de 3 de fevereiro de 1971. A Veja é assim: depois de deixá-la descansar uns 40 ou 50 anos, já dá pra ler.

A matéria que mais me chamou a atenção conta como a cidade estava reagindo a um evento grandioso: a inauguração do minhocão, que tinha acontecido poucos dias antes. O discurso da revista era bem afinado com o da prefeitura, e a matéria festejava a obra-prima de Paulo Maluf:

“Da praça Roosevelt ao largo Padre Péricles (…) o tempo de viagem passou da incerteza entre vinte e cinqüenta minutos à certeza de menos de cinco. Para São Paulo ganhar tôdo esse tempo, certamente valeu a pena devastar uma floresta de 5000 eucaliptos (para os caibros), gastar 58.000 metros cúbicos de concreto (um prédio do tamanho do Empire State de Nova York só precisaria de um décimo disso) e 6.200 toneladas de ferro, num total de 40 milhões de cruzeiros. Pois o minhocão significa que é possível ir da Mooca, na zona leste, à Lapa, na oeste, em doze minutos, um têrço do tempo anterior.”

Ainda segundo a matéria, a reação da população à inauguração do viaduto foi bastante previsível. O paulistano da época, assim como o atual, adorava uma aglomeração. O programa de índio foi o mesmo que se repete até hoje, invariavelmente, em qualquer inauguração de shopping ou de árvore de natal:

“Nos dois primeiros dias da semana passada, aparentemente todos os carros de passeio e táxis de São Paulo em condições de movimentar-se, lotados por famílias, crianças e cachorros, foram praticar o ritual de ‘ir conhecer’. A situação criou notáveis, mesmo para São Paulo, congestionamentos de trânsito. Nos dois dias seguintes, possivelmente temerosos de que o engarrafamento se repetisse, os motoristas realizaram a segunda parte do ritual, o ‘desviar dali a todo custo’.”

805Mas a parte mais interessante é quando a Veja admite que todo esse progresso tinha algum custo. A reportagem tinha visitado os prédios ao longo do elevado e conversado com moradores, e descobriu que para eles, vejam só que coisa, o minhocão estava criando certos “problemas especiais”.

Uma das pessoas entrevistadas foi Cleusa da Silva, de 18 anos, que morava com a mãe em um apartamento a 19 centímetros da pista. “Tenho mêdo de ser atropelada na sala, ou então de que algum malvado salte na minha cama”, disse Cleusa à reportagem. A mãe dela explicou que, por causa do calor, não era possível fechar as janelas do apartamento. “Então os motoristas passam, olham e riem para a gente”.

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Elvira Frederici, 42 anos, apareceu na reportagem estendendo roupas no varal, em seu espaçoso terraço a menos de 1 metro dos carros. “Era o orgulho da gente êsse terraço, num sol de fazer inveja para quem morava em cima”, contou Elvira, saudosa.

E Lília Stevanini, uma secretária de 30 anos, tinha decidido deixar de usar um dos dois quartos do seu apartamento, o que dava para o elevado. De dia o barulho era muito grande, e de noite também vinha “uma luz brutal que atravessa qualquer cortina”.

Nem todo mundo, no entanto, reclamava. João Casanova, um aposentado de 78 anos, estava adorando a vista do terceiro andar. A esposa dele, que pelo jeito não gostava muito do seu João dentro do apartamento, também elogiava: “Com o elevado, a casa ficou mais alegre. Meu marido fica no terraço desde cedo, apreciando o movimento dos carros. Êle prefere o terraço à televisão”. E a Veja aproveitou para concluir: “O que prova que, sem dúvida e em mais de um sentido, o minhocão é um espetáculo”.

É bem possível que Cleusa, Elvira e Lília estejam vivas até hoje. Se estiverem, têm 62, 86 e 74 anos de idade. Espero que tenham sido felizes estes anos todos, e que tenham tido a chance de se mudar logo dali. Já seu João, que hoje teria 122 anos, com certeza já faz tempo que não está mais vendo a vida fugir pela janela.

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Acho que todo mundo vai gostar desta foto, mas ela é principalmente para quem ficou com dúvidas na de ontem.

As duas fotos vieram juntas, e são claramente do mesmo local, mas esta aqui nos permite fazer um passeio detalhado pela região.

O prédio em construção que se vê bem à esquerda, quase saindo da foto, é o Copan. Bem em cima dele está a parte de trás do edifício Eiffel, também do Niemeyer, cuja frente olha para a praça da República. Ambos os prédios apareciam também no post  anterior.

Seguindo para a direita a partir do Copan, passamos pela simpática Vila Normanda, ainda intacta em toda a sua cafonice, com seus telhadinhos preparados para receber neve. A vila acabou durando pouco, e esta é com certeza uma das últimas fotos em que ela aparece inteira.

Atrás da Vila Normanda estão as fachadas de alguns prédios da avenida Ipiranga (destaque para o São Luiz, do Jacques Pillon). E à direita dela, bem no meio da foto, outra obra sendo erguida: são os dois blocos do edifício Louvre, de João Artacho Jurado. A Vila Normanda irá embora, mas graças ao Artacho a arquitetura kitsch sobreviverá no local.

À direita do Louvre está a avenida São Luís, com suas árvores e prédios característicos. Nosso passeio termina no palácio episcopal, bem no canto inferior direito, que nos anos 60 dará lugar à Galeria Metrópole.

Quando encontrei esta foto, ela não tinha nenhuma indicação do local. Mas nem precisava: essa estrutura de concreto é única no mundo, e o prédio, mesmo antes de ficar pronto, já era inconfundível. Acho que todo mundo vai reconhecer.

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(Imagem reproduzida de um slide de 35mm, de autor desconhecido)

A foto é da década de 1960, mas a avenida Ipiranga continua basicamente a mesma.

Claro que nestes 50 anos houve mudanças, mas nada muito radical. O edifício Itália ficou pronto, os jardins da praça da República ficaram mais feios, o metrô chegou, a 7 de Abril deixou de atravessar a praça…

Mas disso tudo, o que mais impactou a paisagem foi o sumiço da fileira de árvores no meio da avenida. Não sei ao certo quando, o canteiro central foi engolido pelo tráfego.

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Fico devendo o crédito da foto. Ela foi distribuída na época por alguma agência de notícias americana, só não sei qual.

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