O post anterior, há duas semanas, foi sobre uma foto tomada de uma janela do hotel Jaraguá por algum turista ou visitante americano. Vejam só a coincidência: descubro agora estas outras quatro fotos, feitas do mesmo hotel, na mesma época, também por um viajante.

Entre as imagens dos dois posts há uma distância de 2 anos: estas são de 1959, a do anterior era de 1957.

Há também uma distância de 2 mil quilômetros. A do post anterior tinha aparecido em Johnston, no estado americano de Rhone Island; as de hoje estão em Plymouth, Illinois.

As quatro fotos de hoje foram feitas de diferentes janelas de algum andar alto, ou quem sabe do terraço de cobertura do hotel Jaraguá. Elas apontam para lados bem diferentes, então dá pra ter uma visão bem ampla da cidade. Quase uma síntese. A cores, coisa rara na época.

Na primeira foto, a grande estrela é o edifício Viadutos, de João Artacho Jurado, que já tinha aparecido no post anterior. Mas se lá o prédio ainda estava inacabado, com janelas sem esquadrias, aqui ele parece já ter ficado pronto (embora ainda esteja desocupado, como se nota pela ausência de cortinas).

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A segunda foto aponta para o lado oposto: uma avenida São Luís como sempre muito arborizada, onde casas baixas e prédios altos ainda convivem. À esquerda está o edifício Louvre, outro prédio do Artacho Jurado, ainda em construção. Atrás dele, chama a atenção a ausência do Itália. No lado direito da foto está o casarão onde funcionava o Laboratório Paulista de Biologia, que nos anos 60 deu lugar à Galeria Metrópole.

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O cenário da terceira foto é o que menos mudou. A biblioteca Mário de Andrade (vemos um pedacinho dela à esquerda) e os prédios da Xavier de Toledo não sofreram alterações. Também os quatro arranha-céus ao fundo (Banco do Brasil, Martinelli, Banespão e Conde Prates) permanecem mais ou menos do mesmo jeito. Em compensação, hoje seria difícil tirar a foto: um prédio construído há pouco tempo no canto inferior direito – o Setin Downtown São Luís, famoso pelos apartamentos de 18 metros quadrados – tamparia uma boa parte da visão do fotógrafo.

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Mas de todas as fotos, a que mais me fascina é a última, tirada dos fundos do hotel. Mais ou menos no centro da imagem está uma praça Roosevelt praticamente irreconhecível, antes da desfiguração que sofreu em 1970. Eu só soube que era a Roosevelt por causa da igreja da Consolação. E também graças à fachada curva do Teatro Cultura Artística, que se vê no lado inferior da praça, e ao prédio do colégio Porto Seguro (atual Escola Estadual Caetano de Campos), no superior.

Um pouco acima da praça está o Colégio Des Oiseaux, atual-futuro Parque Augusta. E a rua reta à esquerda dele é a Augusta, subindo em direção ao horizonte. O horizonte é a Paulista, ainda com poucos prédios.

Tem muitos outros detalhes que podem ser explorados, mas vou deixá-los para vocês.

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Fotos são imagens estáticas, filmes nos permitem ver movimento. Tem sido assim desde a invenção do cinema.

Mas certas fotos são teimosas, e é difícil não ver movimento nelas. É o caso desta aqui, de uma São Paulo em plena metamorfose, em 1957. Eu, pelo menos, olho pra ela e tenho a impressão de ver a cidade “se mexendo”.

O viaduto em primeiro plano é o Major Quedinho, sobre a avenida 9 de Julho. Está lá o edifício Major Quedinho, concluído poucos anos antes, em 1954. Sua bonita fachada em curva com sacadas, hoje coberta de hera, virou marca registrada do local.

E em torno do viaduto e do prédio, tudo o que se vê é paisagem em transformação. Na esquerda da foto, um edifício Viadutos ainda em obras (reparem nas aberturas ainda vazadas, sem esquadrias). Dali para a direita, vários esqueletos de concreto sendo erguidos, e outras tantas torres recém-acabadas. E entre eles estão velhas casas agonizantes e muitos terrenos cercados por tapumes, onde em breve pipocarão mais e mais esqueletos. A dinâmica está evidente na foto, sem que precisemos de um filme para mostrá-la.

A foto é um slide Kodachrome, coisa muito rara no Brasil dos anos 50. Embora essa tecnologia estivesse disponível em outros lugares do mundo desde 1935, entre nós ela ainda não tinha se difundido. Os filmes eram caros, e por aqui não havia onde revelá-los.

Isso, junto com o fato de a foto ter sido tirada de uma janela de hotel (o Jaraguá, na esquina da Consolação com a Martins Fontes) e ter aparecido à venda em Rhode Island, nos Estados Unidos, indica que o fotógrafo não é daqui. Só pode ser algum turista ou viajante de passagem pela cidade.

Eu fico pensando o que terá atraído a atenção desse gringo, motivando-o a fazer o clique. Minha aposta é que foi justamente essa feição mutante da paisagem: o novo substituindo o velho e os vazios sendo preenchidos, num processo que, de tão tão rápido, permitia tirar fotos “dinâmicas”.

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Dias atrás, por meio de uma fotografia de 17 por 23 centímetros que encontrei à venda na Internet, fui apresentado a este estabelecimento paulistano: a Brasserie High Life.

Graças a um carimbo (“Aristides Greco, photographo”) e uma anotação manuscrita no verso (“31 de maio de 1914”), temos informações precisas sobre a autoria e a data da foto. Mas as informações mais interessantes estão na imagem em si, que é repleta de detalhes. Por um deles – duas placas de rua na fachada – sabemos que a brasserie ficava em alguma esquina do Largo do Arouche. Em qual delas exatamente, dependerá da nossa habilidade para decifrar a placa da esquerda, semioculta por um poste e um galho de árvore. Eu matei a charada, mas vou guardar a resposta para o final do post.

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Também gostei da variedade de produtos, listada em pequenas tabuletas na fachada. São 7 placas no total, anunciando “sorvetes, refrescos, chops”, “café, leite, coalhada, chocolates”, “manteiga fresca e queijos de Minas”, “acceitam-se encommendas para festas”, “biscoutos e doces finos, fabricação especial”, e “cigarros 34, mistura da moda”.

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Um detalhe importante é o homem encarando a câmara, em pé junto a uma das portas da brasserie. É impossível não se sentir estranhamente atraído por essa figura soturna: reparem no olhar lúgubre, nas roupas forçadamente elegantes… Ele deve ser um funcionário à espera de clientes, mas eu confesso que pensaria duas vezes se tivesse que comer um “biscouto fino” ou qualquer coisa servida por alguém que me encara com esse ar.

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Há muitos outros detalhes, mas os deixo para a exploração do leitor. O que eu queria mesmo dizer é outra coisa. Até conhecer a foto eu nunca tinha ouvido falar desta Brasserie High Life, mas já sabia de um cinema homônimo, que funcionou também no Arouche nesta mesma época: o High Life Theatre. Fico imaginando que tipo de relação terá havido entre os dois estabelecimentos. Será que a brasserie era uma espécie de café do cinema? O tamanho da loja, as portas para a rua e a extensão do cardápio indicam que não. Talvez ambos pertencessem a um mesmo dono, daí os nomes idênticos, ou quem sabe um deles tenha apenas copiado a denominação do vizinho.

Seja como for, é muito provável que eles compartilhassem a mesma clientela, e isso nos diz algo sobre o imaginário do lazer paulistano daquele início do século 20. Assistir a um filme mudo numa sala de cinema, emendando com um lanche, um chope ou um café com “biscoutos” servido pelo atendente engravatado da brasserie ao lado, era um programa associado à ideia de bem-viver, de high life.

Fiquei curioso para descobrir em qual esquina exata funcionava a brasserie, já que apenas pela foto, como já vimos, não me foi possível saber. Não foi difícil achar a resposta. Em um anúncio publicado no Correio Paulistano, em 28 de fevereiro do mesmo ano de 1914, a “Secção de Licores” da Companhia Antarctica Paulista divulgava os endereços de seus principais distribuidores. Um dos citados é “Brasserie High Life, rua Sebastião Pereira”, matando a charada.

O ponto exato em que portanto ficava a Brasserie High Life – esquina do Largo do Arouche com a rua Sebastião Pereira – está hoje totalmente coberto pelo Minhocão, como se vê na foto abaixo. Sobre o viaduto, há quem esteja querendo implantar um parque ao estilo do novaiorquino High Line Park.

O que nos mostra que, de algum modo, a mudança nestes mais de 100 anos não foi tão grande assim: de high life para high line, a mudança é de apenas uma letra!

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“Nesta rua nº 7 é a entrada para a Casa Allemã”: só se for a entrada dos fundos, pois a foto é da rua da Quitanda, e a Casa Allemã funcionava na rua Direita, que é a primeira paralela.

De qualquer forma, o prédio que mais me chamou a atenção não está no número 7, mas no 17.

Ou no 127, seu endereço atual, já que até a numeração da rua, como quase tudo por ali, se modificou bastante.

Só não se modificou o sobradão, que até hoje assiste impassível às mudanças.

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(A foto da década de 1920 é minha mesmo; a atual é do Google Street View.)

Atualização às 14:15: Pouco depois da publicação do post, o Diego Vargas me confirmou que a Casa Allemã tinha, sim, uma entrada pela rua da Quitanda. A loja ficava na rua Direita, mas ia até o fundo do lote, comunicando as duas ruas. A informação está no livro “Cidade-exposição: comércio e cosmopolitismo em São Paulo”, de Heloisa Barbuy. Obrigado, Diego!

As fotos de hoje têm algo em comum com as do post anterior: elas também mostram a São Paulo que um turista viu.

Desta vez o turista é espanhol. As fotos, de 1969, estavam até agora em Valência. Eu as achei à venda em um site, por 50 centavos de euro cada uma, e as repatriei.

E desta vez o turista sabia fotografar um pouco melhor. As fotos têm alguma qualidade técnica, e algumas têm enquadramentos bastante incomuns para fotos de turista.

A primeira foto foi tirada “desde la ventana del hotel”, como diz a anotação no verso. Mas nem precisava dizer: essa vista só poderia ser mesmo de uma janela do antigo hotel Othon, que funcionou até 2008 na praça do Patriarca. O que atraiu o olhar do espanhol pode ter sido a surpreendente mistura: o ecletismo do Teatro Municipal, o art déco do viaduto do Chá e a arquitetura moderna das torres de vidro formam um conjunto de evidente (e muito paulistana) desarmonia.

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A arquitetura moderna, por sinal, parece ter impressionado bastante o visitante. Andando pela região central, ele fotografou o Copan, o Itália e o Bretagne.

O Copan ainda estava com seu anexo (aquele prédio mais baixo em que funciona o Bradesco) em final de construção. Já o Bretagne aparece retratado a partir de sua área interna, numa época em que, sem grades nem controle de acesso, podia-se entrar à vontade. Todos os ângulos ressaltam a monumentalidade dos edifícios. 

Além de andar pela região central fotografando prédios, podemos ver que o visitante fez pelo menos mais dois passeios. Em um deles esteve no Instituto Butantan, que hoje em dia é muito pouco frequentado, mas na época fazia parte do roteiro turístico da cidade. 

E no outro foi ao parque do Ibirapuera, onde conheceu o famosíssimo “Monumento a los Cangançeiros”:

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Enfim…  Prédios, cobras e cangaço, eis o que este espanhol deve ter voltado dizendo que viu em São Paulo.

 

As dez fotos foram colocadas à venda pela internet, meses atrás. Segundo o site onde eram oferecidas, estavam em Aveiro, Portugal.

Elas devem ser, portanto, registros de uma viagem que algum português, ou portuguesa, fez para cá. Como toda foto de turista que se preze, são bem ruins. Não sei se alguém as comprou, mas antes que isso acontecesse eu as copiei para reproduzir aqui.

As três primeiras são bem de turista mesmo. Foram tiradas do edifício Itália e mostram outros prédios obrigatórios, como o do hotel Hilton, o Copan, a biblioteca municipal e o Louvre (deste último vemos o terraço artachiano, no canto da terceira).

 

A quarta foto também é do centro, e nos dá uma ideia aproximada da data da viagem. Ela é o do vale do Anhangabaú, numa época em que turistas ainda andavam por lá. O vale é um canteiro de obras, cheio de tapumes. A linha leste-oeste do metrô (atual vermelha) está sendo construída. A estação Anhangabaú ficaria pronta algum tempo depois, em 1983.

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Nas cinco fotos seguintes, os carros também ajudam na datação. Uma profusão de fuscas, opalas e corcéis, todos da virada dos anos 70 para os 80, transita pelas principais avenidas da cidade: Paulista, Santo Amaro, 23 de Maio, Rubem Berta.

 

E a última foto é do aeroporto de Congonhas, por onde os visitantes estrangeiros chegavam e partiam. Guarulhos seria inaugurado só em 85.

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Olhando as fotos hoje, o que mais me chama a atenção é a extrema aridez da São Paulo dos anos 70 para 80. Em dez fotos, mal se vê uma árvore. Mas ler as imagens também implica colocar-se no lugar desse português ou portuguesa que visitava a cidade, e imaginar o que terá atraído seu olhar, quase 40 anos atrás. O que será que ele, ou ela, enxergou nesses enquadramentos?

Tirando a feiura, confesso que não sei.

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O lugar mudou bastante, mas é um ponto emblemático da cidade e por isso continua fácil de reconhecer. Estamos na avenida Tiradentes, e o prédio que aparece cortado, à esquerda, é a Pinacoteca do Estado.

A foto, cujo autor desconheço, é de 1967. Nessa época a área já não primava pela beleza, mas os trilhos de bonde, os paralelepípedos e os trólebus da CMTC conseguiam deixá-la um pouco mais simpática.

Com o tempo essas coisas foram saindo da paisagem, sacrificadas em nome da mobilidade urbana. Trilhos, paralelepípedos e trólebus, afinal, atrapalham o trânsito de carros!

Em matéria de mobilidade urbana, aliás, pelo menos uma das intervenções no local foi um tremendo sucesso. Moveu-se o monumento a Ramos de Azevedo, essa gigantesca estrutura de granito e bronze que ficava no meio da avenida, até a Cidade Universitária, onde se encontra hoje. Haja mobilidade!