Santino

O nome Santino Concuzza provavelmente não diz muito. Mas quem viveu em São Paulo entre as décadas de 50 e 80 deve se lembrar do personagem: um homem de avental branco que andava em uma carroça também branca, puxada por um cavalo. Devem ter sido vários cavalos ao longo dos 40 anos de atividade, mas o da minha época era esse malhado que aparece nesta foto de 1984. Não dá pra ver muita coisa, mas é a única foto que consegui.

Santino fabricava e vendia sorvetes e foi o último sorveteiro da cidade a usar carroça puxada por animal. Começou em 1951 (herdou a carroça e a profissão do pai) e só parou no começo dos anos 90. Morava com a família e o cavalo em uma casa em Pinheiros, de onde saía todas as manhãs com os barris de madeira, forrados de latão, cheios de sorvete. Vendia principalmente em portas de escolas e em feiras livres. Eram só dois sabores, e Santino achava um modismo besta essa história de vender sorvete por bola. Com ele, era por colherada (das grandes): uma colherada, tantos cruzeiros; duas colheradas, o dobro. Sem frescura.

Nos últimos anos Santino já não fazia mais o sorvete em casa. A concorrência do industrializado era difícil, e o jeito era comprar sorvete pronto para vender na carroça. Não era a mesma coisa, mas era o que dava pra fazer.

A última vez que eu o vi foi em 1991 ou 92, na avenida Faria Lima, passando em frente ao shopping Iguatemi. Meio envelhecido, com o avental branco de sempre, e devagar como sempre, parecia alheio às buzinas e xingamentos que vinham dos carros. Não o parei para comprar um sorvete para não ser xingado também…

Não sei se Santino está vivo. Se estiver, tem 91 anos de idade. E já faz 20 que parou de atrapalhar o trânsito.

(Foto do Arquivo da Folha)

20 comentários
  1. Marcello Pizo disse:

    Martin, seu comentário no meu texto do sorveteiro me trouxe até aqui. Que texto gostoso. E a foto me fez voltar no tempo…. Somos contemporâneos do Santino, somo conterrâneos dessa cidade gigante e ao mesmo tempo pequena e poética. Obrigado pela leitura do meu texto. Vou virar frequentador do seu blog. Abraço,
    Marcello Pizo

  2. Martin disse:

    Marcello, que bom que gostou do blog. Pelo jeito temos histórias em comum pra contar. O Santino deve ser só uma delas… Abraço!

  3. Tony Silva disse:

    O “progresso” não aceita romantismo.

  4. Helio disse:

    Tomei muito sorvete na porta da EEPG Martin Francisco!! Obrigado pela recordação tão gostosa!!

  5. Katia Valeriano disse:

    O Sorveteiro da carroça (era assim que eu o chamava; não sabia seu nome) também passava nos portões do “Aristides de Castro”, onde estudei por oito anos… Que saudades! E aquele sorvete de limão, hem….Tempos bons que não voltam mais…

  6. Marcia Abreu disse:

    Olá eu também me lembro do tio do sorvete, estudei no aristides de castro nos anos 80 no Itaim Bibi, Marcia Abreu

  7. Eduardo disse:

    Conheci o Santino na esquina da Escola Americana, MACKENZIE, e pelo que eu fiquei sabendo, ele faleceu já fazem uns 8 a 10 anos….

  8. Antonieta Perricci disse:

    Martin, não imagina com que emoção que recebi seu link pelo email de um grande amigo, O Sr. Santino, que descreve de uma maneira tão carinhosa, era o primo de meu avô, Santo Cucuzza, o pai dele escreveu uma carta para a Sicilia, dizendo para meu avô vir a terra prometida: A América. E aqui ele também aprendeu a profissão de sorveteiro e mantinha uma sorveteria em São Caetano do Sul, e também trabalha com avental branco, mas não tinha cavalo, apenas um carrinho. Infelizmento Sr. Santino já faleceu realmente, e meu avô também, mas meu noninho, faleceu por uma fatalidade de um desses motoristas apressados, trabalhando na Avenida dos Estados, divisa com São Paulo e São Caetano do Sul, num dia desses ensolarados, o motorista na pressa de levar os filhos a escola, ultrapassou um caminhão pela direita, e terminou com a história de um imigrante que acabou falecendo no local. Felizmente Sr. Santino faleceu numa cama quentinha, do lado dos que o amavam muito, tenho outras fotos se vc quiser postar em seu post.
    Grazie. Antonieta Perricci

  9. Antonieta,
    Eu é que recebo com emoção o seu comentário. Fico feliz em saber que o post chegou até você! Seu Santino é uma das lembranças mais bonitas da minha infância. E ele é recordado com carinho por muita gente, como você pode ver nos comentários ao post. Não conheci o seu avô, mas tenho certeza de que a história dele também simboliza essa São Paulo de que o blog fala, com mais gentileza e poesia…
    E sim, se você quiser me mandar mais alguma foto, vou ficar muito honrado em poder postá-la no blog. Um abraço e obrigado!

  10. Michele Chioccola Neto disse:

    Também me lembro do Sorveteiro sua carroça branca com frizo vermelho ou azul não estou certo e seu cavalo malhado. O Sorveteiro estava sempre de avental branco e um boné, servia o sorvete com uma colher sentado meio de lado em sua carroça. Isso por volta de 1965 no Grupo Escolar São Paulo, hoje EEPG Marina Cintra na Consolação. Que saudades! Gostaria de ver mais fotos!
    Obrigado!

  11. Oswaldo Daessio Filho disse:

    Parabéns, Martin! Seu blog é sensacional. Me lembro bem do Sr. Santino. Não tem como não lembrar daquela figura tão quixotesca. No meu tempo (anos70) o cavalo era branco. Ele sempre estava lá, na saída da aula do Grupo Escolar Martim Francisco.

  12. Gilmar Silva disse:

    Legal, essa foto foi na frente do Aristides de Castro, sei , pois esse garoto ao lado do cavalo sou eu, obrigado Martin por nos trazer boas lembranças.

  13. Pedro Vieira disse:

    Adorei a matéria e compartilhamos entre nossa turminha,que morava em Santa Cecília e era freguesa de carteirinha
    do seu Santino e do seu cavalo , doce pessoa.Parabéns pelo blog,.

  14. Que bom que gostou, Pedro. Fico feliz. E obrigado pela divulgação!

  15. Liliani Neves disse:

    Voltei ao tempo,q maravilha essa matéria,ele sempre passava na escola,estudei no Ceciliano José Ennes, e p minha alegria,em ksa tbm,até nos gritava no portão,eu saia correndo p pegar o meu preferido de limão,subia na carroça do lado dele,levava água p ele tomar,qtas lembranças 😍😍😍, fik triste em saber do seu falecimento,minha amiga de infância q mandou essa matéria,gostaria de saber mais sobre Sr Santino,q por muitos anos fez parte da minha infância,minha vida!!! Obg por esta matéria,simplesmente deixou me apaixonada,q Saudades!!!

  16. Marcos Vasques disse:

    Eu comi muito sorvete na carroça. Não lembro se tinha chocolate, mas lembro bem do de limão e da casquinha crocante.

  17. Durval disse:

    Me recordo bem, eu era moleque e ele sempre estava na feira livre coberta que existia na Av. Dr. Arnaldo nos anos 70; salvo engano, era a única feira livre coberta da América do Sul, dispondo inclusive sanitários públicos. Que saudade e o que me fez recordar ele mais uma vez, foi uma edição que a Kibon lançou a pouco de limão siciliano; o sabor é muito semelhante ao sorvete do Seu Santino eu disse semelhante, pois a simpatia, sorriso, o sabor,o servir com orgulho seu produto ficam na memória e no coração de quem viveu essa época em Pinheiros.

  18. Carlos Oliveira disse:

    Sr.santino era esperado aos domingos por todos os meninos da rua bela Cintra no seu primeiro quarteirão sempre generoso dava sorvete de graça para os pequenos e eu era um desses éramos uns 10 moleques pessoa bondosa Alegre lembrança inesquecível.
    Sr.Santino nunca esquecerei dos domingos de 1964 até 1970

  19. Bene Lucid disse:

    Grupo Escolar São Paulo… Fiz lá o primeiro ano primário, em 1955. Era um terror: professores autoritários, batiam nos alunos, muros altos em volta do colégio todo, fila pra tudo… um verdadeiro campo de concentração. Há pouco tempo atrás, era dia de eleição e o colégio estava aberto para o povo votar. Entrei lá (hoje se chama EE Marina da Cintra) e senti até arrepios… Enquanto andei por lá, nunca vi esse tal de Santino. Nem o cavalo. Na porta, em vez dele, ficava era um prosaico pipoqueiro. Uma vez, comprei dele uma caixinha surpresa e veio uma espadinha de plástico muito linda, dentro. Aí apareceu uma inspetora, tomou o brinquedo e quebrou. Isso, porque estávamos do lado de FORA da escola. Eita coleginho dos infernos!

  20. Creio que Santino Concuzza vendeu sorvetes com sua carroça até o fim dos anos 1990. Eu trabalhei no Itaim Bibi de 1994 a 1999 e me lembro de tê-lo visto com sua carroça na rua João Cachoeira e imediações entre esses anos.

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