Vila Madalena

Em 1980, a gravadora Continental lançou um LP com os músicos que tinham sido premiados no festival da Feira da Vila Madalena daquele ano.

Duas coisas chamam a atenção nesse disco e fazem dele um registro interessante da história do bairro. A primeira delas é a ilustração da contracapa, feita pelo artista argentino Ricardo Brandini, que mostra como era a paisagem da Vila naquele momento, antes da verticalização: um mar de casinhas e árvores, contrastando com o duro horizonte de prédios altos que aparece ao fundo.

A segunda, e talvez mais importante, são os nomes dos músicos que participaram do disco: iniciantes como Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes e Paulo Miklos, além do violonista Celso Machado, que tinham aproveitado a Feira da Vila como chance de mostrar seu trabalho. A feira existe até hoje, mas não costuma mais lançar artistas como esses.

Talvez esse tenha sido o auge da Vila Madalena, um bairro modesto e pacato fundado na primeira metade do século passado por imigrantes portugueses, que nos anos 70 tinha virado um reduto boêmio e um importante pólo cultural, sem com isso perder a simpatia e a simplicidade originais. Esse espírito se dissolveria aos poucos, e hoje o bairro é muito mais conhecido pelos prédios de apartamentos pretensiosos e pelos mega-bares do tipo arrasa-quarteirão, que sufocaram as casinhas e expulsaram a delicadeza.

Junto com a contracapa do disco, a  galeria abaixo mostra algumas fotos que revelam um pouco daquele espírito perdido. Gosto muito das primeiras: uma vista aérea das ruas Aspicuelta, Harmonia e Girassol ainda de terra em 1950, e uma  Fradique Coutinho  estranhíssima aos olhos de hoje: sem nenhum carro.

Em tempo: São Paulo tem inúmeros bairros com Vila no nome, mas este é, até onde sei, o único que é chamado simplesmente de “a Vila”.

As fotos, todas reproduzidas da internet, são de Antonio Landi (vista aérea), Antonio Pezzotti (Fradique) e José Roberto Andrade Amaral (as três de baixo, coloridas).

Atualização em 23 de novembro de 2015: o próprio José Roberto Andrade Amaral, autor das três fotos coloridas, escreveu fazendo uma retificação. Uma das fotos – a que mostra um conjunto de casinhas e um automóvel Brasília azul estacionado – na verdade não é da Vila Madalena, mas da Vila Olímpia. Foi tirada em 1978, no local onde mais tarde passaria a avenida Nova Faria Lima. Como gosto muito da foto, preferi deixá-la no post mesmo assim, apenas fazendo este registro. Agradeço ao José Roberto a gentileza de escrever, e a generosidade de permitir que suas fotos sejam expostas aqui.

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