Massacre na avenida

Todo mundo sabe que a Paulista já foi uma avenida repleta de palacetes, dos quais não restaram mais do que três ou quatro. Mas pouca gente se lembra de uma outra coisa: a Paulista também já foi uma avenida cheia de árvores, das quais não sobrou rigorosamente nenhuma.

Entre ipês amarelos e roxos, tipuanas, ligustres, alfeneiros e quaresmeiras, elas eram nada menos do que trezentas e vinte e duas: 140 de um lado e 182 do outro. Como a avenida tem 2.500 metros de extensão, numa conta grosseira podemos dizer que havia uma árvore a cada quinze metros de calçada. Mas em outubro de 1972 elas foram todas arrancadas. Todas de uma vez, como parte de um projeto de modernização que deixou a avenida como a conhecemos hoje: pelada.

O texto a seguir, reproduzido da Folha de S.Paulo de 3 de outubro de 1972, nos explica um pouco melhor de que forma o extermínio em massa foi conduzido.

“Com o auxilio de uma motosserra movida a gasolina e óleo, cinco funcionários da Prefeitura iniciaram, ontem de manhã, a remoção das 182 árvores do lado direito da avenida Paulista. Assim começaram, às 8h30, as obras da Nova Paulista, cuja construção alterará todo o espigão da cidade. A remoção das árvores demorará de 20 a 30 dias, com previsão de dez árvores por dia. Ontem, início dos trabalhos, só foram cortadas seis árvores. As 140 árvores do lado esquerdo serão removidas pela regional da Sé após o término do serviço do lado direito. Os serviços foram iniciados na esquina da rua Haddock Lobo e se estenderão até a praça Oswaldo Cruz. Os funcionários começaram cortando as árvores menores. As mais difíceis, que possuem grandes galhos, serão cortadas aos sábados e domingos para não prejudicar o trânsito.”

(Imagens reproduzidas de Wikimedia Commons, de um cartão postal da década de 70 e do arquivo da Folha)

9 comentários
  1. O engraçado é que o tom da reportagem é quase incentivador. A remoção provavelmente significava “progresso” na época (nessa época também significavam “progresso” construções com montes de concreto armado). E ninguém nem pensou em transplantar as árvores. Muito triste!

  2. Martin disse:

    Pois é, Alexandre… Um outro trecho da mesma matéria diz o seguinte: “Das 182 árvores existentes do lado direito, a maioria não será reaproveitada: muitas estão condenadas e serão removidas para um depósito de lixo”.

  3. Isac disse:

    Sem querer ser dramático, mas ler isso é tão frustrante que chega a doer. E foi só a 50 anos atrás. A estupidez urbanística em SP não conhece limites.

  4. gustavo giroti disse:

    as vezes penso que, paulistanos imbuidos de poder ODEIAM arvores, desde os bandeirantes….

  5. É o triste cenário dos avanços urbanísticos no Brasil… Mas vou postar uma imagem agora mesmo no meu Flickr (http://www.flickr.com/photos/taisbrasil/) em que se podem admirar algumas belíssimas árevores que restaram na nossa igualmente bela, muito embora árida, Av. Paulista.
    Taís

    PS Excelente página sobre Sp. Parabéns pela iniciativa!

  6. Legal, Taís! Mas nenhuma dessas árvores da foto fica nas calçadas da avenida… A da frente fica no jardim de um prédio, e as do fundo são as do parque trianon…
    Agora, imagine a avenida com essas árvores na calçada. Na calçada mesmo não tem mais. Ou pra não dizer que não tem, de vez em quando uma ou outra é plantada,mas elas nunca vão crescer porque debaixo dos canteiros onde elas estão não há solo…

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