Parque em perigo

110Não é de hoje que as áreas verdes e os parques da cidade costumam correr perigo. Em 1929, o governo do Estado decidiu construir um aeroporto na capital. E o local escolhido ficava numas terras no Ibirapuera, onde há algum tempo vinha sendo cogitada a instalação de um grande parque municipal.

O tom da notícia publicada na Folha da Manhã em 2 de julho de 1929  era entusiasmado, quase comemorativo:
“A cidade de São Paulo, que em setembro de 1928 contava com 20 aviadores civis e 15 aviões em estado de voar, depois que estiver prompto o seu projectado Aero-Porto, provavelmente quintuplicará o  numero de seus pilotos e apparelhos”.

Mas o assunto se arrastou nos jornais por vários anos, e pelo jeito a briga foi feia. Em 15 dezembro de 1935, a mesma Folha da Manhã noticiava que a localização do aeroporto tinha sido objeto de “acalorados debates”, em uma reunião da SAC-Sociedade Amigos da Cidade com a participação de muita gente graúda.

De um lado estavam algumas figuras públicas conhecidas, como “o dr. Goffredo da Silva Telles, [que] accentuou a nossa pobreza extrema em espaços livres (…) e considerou quasi um crime privar a cidade do seu futuro Bois de Boulogne.”

Do outro lado, junto com o governo do Estado, estavam representantes da Vasp: “O interesse da importante empresa paulista reside, alem do natural desejo de ver São Paulo dotado de um aeroporto condigno, na necessidade de possuir uma estação boa e segura para o seu serviço aereo que cresce incessantemente e que dentro de poucos mezes (…) deve inaugurar um serviço S.Paulo-Rio cuja importancia é evidente”.

E em janeiro de 1936, a própria Folha, que no começo tinha parecido entusiasmada, mudou de ideia e passou a se posicionar contra:

“O parque Ibirapuéra precisa ser, quanto antes, concluído, e, uma vez por todas, afastados os olhares cobiçosos que se voltam sempre para elle. Desejaram levar para lá o Prado de corridas. Agora, o aéro-porto. Amanhã, será outra coisa qualquer. S.Paulo, dentro em pouco, terá dois milhões de habitantes. O Ibirapuéra não bastará. Outros espaços livres a metrópole terá que descobrir, desapropriar e manter. Os logradouros são os pulmões da cidade. E uma cidade como a nossa, dynamica e invencivel, precisa respirar.”

Hoje sabemos qual dos lados ganhou a parada. O que não sabemos é se, 80 anos depois dessa história, a do Parque Augusta, tão parecida, vai ter o mesmo final.

(A foto do futuro parque nos anos 30 é do Arquivo do Estado.)

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