Urbis paranoica

Cada época tem as suas neuroses, e estas se refletem na arquitetura da cidade. Ou na falta dela.

Na São Paulo dos anos 40, durante a segunda guerra mundial, abrigos antiaéreos eram uma “comodidade” bastante valorizada nos empreendimentos imobiliários. Pelo menos é o que sugerem os anúncios destes prédios, que talvez possam ser considerados os primeiros exemplares de uma arquitetura da paranoia, ou do medo, que hoje é tão típica de São Paulo.

O anúncio do Edifício Arouche informa que o abrigo antiaéreo do prédio é “o 1º aprovado oficialmente já construído nesta capital”, o que me permite entender que antes dele houve outros, não aprovados oficialmente.

Nos outros dois anúncios, o bunker aparece associado às ideias de conforto (!) e modernidade:  “Edifício moderno com todas comodidades: amplo hall, abrigo anti-aéreo, construção esmerada”, diz o anúncio do Edifício Universal. E o último anúncio explica que no Condomínio Santa Cecília “todos os apartamentos são de frente, tendo o edifício um moderno abrigo anti-aéreo”.

 

Isso não é nada, porém, perto do que se faz hoje. De lá para cá, a arquitetura paranóica se aperfeiçoou muito. Vejam por exemplo este anúncio recente, de um condomínio com nome pomposo na zona oeste da cidade. É um “empreendimento duplamente murado”, que oferece “espaço amplo e muito verde” e um “extenso boulevard”. Todos esses “diferenciais”, vejam só que luxo, projetados por uma empresa que é “líder mundial em projetos urbanísticos”!

“Projeto urbanístico” e “duplamente murado” convivendo na mesma frase. Não é de humilhar qualquer anúncio de bunker?

(Os três primeiros anúncios são da Folha da Manhã de 15 de junho de 1944, 12 de novembro de 1944 e 18 de novembro de 1945, e o anúncio recente é reproduzido da internet.)

11 comentários
  1. Paula disse:

    Martin, acho que se der uma busca na internet vai achar uma reportagem sobre os tais edificios em sp com abrigos, lembro que saiu alguma coisa. Tb tem um livro ótimo, de um amigão meu, o roney cytrynovicz que se chama guerra sem guerra. Gostei do post e dá muito pano pra manga este assuntinho aqui em Sampa. Bj

  2. Martin disse:

    Oi Paula, que bom que gostou! Sim, também lembro da reportagem. Mas o livro do Roney não conheço, vou correr atrás. Obrigado!

  3. O pior são os nomes toscos para os “novos empreendimentos” com apartamentos “gigantes” de 47m³ de espaço … parodiando o seriado Toma Lá da Cá vários “Jambalaias” com 1000 aptos, 7 por andar e por aí vai !!!

  4. Excelente esse, digamos, ‘blog’! Parabéns.
    Veja só o prédio na Riachuelo, firme até hoje e aparentemente preservando as características externas: http://maps.google.com.br/maps?q=rua+riachuelo,+197,+sao+paulo&hl=pt-BR&ie=UTF8&ll=-23.550396,-46.637092&spn=0.004819,0.010493&sll=-23.550410,-46.637091&layer=c&cbp=13,182.36,,0,-33.73&cbll=-23.550391,-46.63709&hnear=R.+Riachuelo,+197+-+S%C3%A9,+S%C3%A3o+Paulo,+01007-000&t=m&z=17&panoid=tgnIJyzrL3pOW1KZ8H5MQQ

  5. Martin disse:

    Obrigado Caetano! Que bom que gostou do blog!
    Acabei de ver, no link que vc mandou, que o prédio da Riachuelo preservou as características externas mas mudou de nome. Agora é “Edifício Governador Claudio Lembo”… Sei não, eu preferia o nome original :/ rs

  6. Alessandro Santos disse:

    Parabéns pelo blog, Martin!
    Parei por aqui após a preciosa dica dada pelo Flavio Gomes. É fantástico quando vemos pela web iniciativas como a sua, pela preservação da memória de São Paulo. Moro em Taboão da Serra, sou um apaixonado por História e confesso que “viajei” na maioria das suas postagens.
    Muito sucesso pra você e um grande abraço!!!
    Alessandro

  7. Moro em SBCampo e assim como vc sou apaixonada pela historia bucolica de nossas cidades. Ali no Ipiranga, toda vez que passo, sinto o coração apertar diante dos casarões tão maltratados. Tem um, que chamo carinhosamente de “minha casa”, fica muito proximo e em frente ao palácio dos Cedros (R. bom pastor, 800), de esquina… está para alugar há varios anos, procurei informações sobre ele mas nao encontrei nada… Será que vc acha? Outra curiosidade é saber mais, ver fotos antigas e internas do casarão que fica na Paulista, prox ao banco Itau (antigo bank :Boston), onde as vezes é realizada uma feirinha de doação de animais.

  8. No Morumbi tem uma casa que nos anos 80 ficou conhecida como Casa do Abrigo Nuclear. Fica exatamente na esquina da Av Morumbi com Rua Puréus.

  9. Essa é nova pra mim, Marcelo! Eu nunca tinha ouvido falar dessa casa… Abraço!

  10. Olá Martin, procurando pelo edifício Claudio Lembo vim parar nesse post…rs. Com relação ao primeiro edifício com abrigo anti-aéreo, o primeiro teria sido o Edifício Jaçatuba, na Major Sertório,44, e o abrigo nada mais era uma exigência da legislação na época,

  11. Obrigado, Luciano! Gosto muito do edifício Jaçatuba, do Osvaldo Bratke, mas não sabia que ele tinha abrigo.
    E gostei de saber que o abrigo era uma exigência da legislação. Se é assim, os anúncios ficam ainda mais interessantes: apresentam algo que era obrigatório como se fosse um diferencial, um item de luxo e modernidade…

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