Arquiteto maldito

Entre setembro de 1951 e dezembro de 1959, o jornal Folha da Manhã publicou uma seção chamada “Edifício da Semana”, que homenageava prédios em construção na capital.

Não sei por que ela tinha esse nome, pois na verdade não era uma seção semanal. Ao contrário, eram mais comuns as semanas em que ela não saía: nos seus mais de 8 anos de existência, foi publicada apenas 120 vezes. Meu palpite é que o jornal vendia o espaço, publicando a coluna sempre que alguma construtora se dispusesse a pagar para ter um prédio seu “homenageado”. Mas é apenas uma hipótese.

De vez em quando a semana era boa e a coluna era generosa, homenageando dois prédios diferentes. Nestes casos ela mudava de nome: chamava-se “Edifícios da Semana”, no plural. Isto aconteceu 18 vezes.

Seja como for, o fato é que essas coluninhas (em geral ilustradas com um croquis do prédio homenageado, ou com uma foto da maquete) formam um retrato interessante dos tipos de edifício que se construíam em São Paulo na década de 50. Um dia ainda vou ter tempo de analisar todo esse material e escrever sobre ele no blog. Mas enquanto esse dia não chega, resolvi falar sobre os três prédios do Artacho Jurado que receberam da Folha o título de “edifício da semana”.

O primeiro a ser contemplado foi o Veridiana, em Higienópolis, que apareceu descrito como “um majestoso edifício de linhas modernas”. O prédio acabou não sendo concluído pelo Artacho, teve o nome trocado (hoje se chama Tradições Brasileiras) e acabou ficando bem mais feio do que na ilustração do jornal, publicada em 9 de julho de 1952.

Pouco depois, em 28 de agosto, era a vez do Parque das Hortências, “um conjunto arquitetonico de real interesse para a arquitetura paulista”. E por fim, em 12 de outubro do mesmo ano, o eleito foi o Planalto, “um grande edifício de 26 pavimentos, no qual serão instalados cerca de 300 apartamentos. Sua arquitetura será moderna, com linhas sóbrias e em estilo funcional”.

Além das datas próximas em que os três prédios receberam a homenagem (julho, agosto e outubro do mesmo ano), o que chama a atenção são os textos sobre eles: “De linhas modernas”, “sóbrio e funcional” e “de real interesse para a arquitetura paulista” era exatamente o oposto do que a comunidade arquitetônica pensava do seu personagem maldito. Isso reforça minha suposição de que a coluna era um espaço que o jornal comercializava. Para Artacho Jurado receber esse tipo de reconhecimento e elogio, só mesmo pagando. Mas, repito, é só uma hipótese.

8 comentários
  1. daniel disse:

    Arquiteto maldito não! Embora picareta, Artacho foi gênio, criou obras lindas que contribuiram muito para a paisagem de São Paulo e Santos.

    Não conhecia essa coluna da Folha da Manhã, pelo jeito tem muito material interessante.

    Parabéns pelo excelente trabalho!

    Daniel

  2. Artacho Jurado é um dos meus preferidos aqui em Sampa, se não o preferido. Os croquis do jornal não fazem jus ao que são os edifícios dele… mas fiquei com uma dúvida, de leigo mesmo: porque exatamente ele era o “maldito”? Já vi isso em alguns lugares mas não encontrei explicação, para ser sincero…

    Bom post e belos achados, de qualquer forma.

  3. Gabi E. disse:

    Eu também não sabia que o Artacho Jurado tinha essa fama de mau…

  4. Martin disse:

    Mas tinha! No começo eram só os arquitetos que não gostavam muito dele, por causa do seu estilo bolo de noiva que contrariava tudo o que a arquitetura moderna pregava. Mais tarde, além de cafona, ele também foi ganhando fama de estelionatário. Isso porque os negócios não foram bem e ele teve dificuldades para entregar os prédios que havia vendido. Alguns ele nem terminou de construir, como o da foto da esquerda. Foi aí que má fama se espalhou e ele virou “maldito”…

  5. Gabi E. disse:

    Martin, você pode indicar algum livro sobre essa arquitetura “antiga” de São Paulo? Eu tenho muita curiosidade sobre esses arquitetos, Vilanova Artigas, Rino Levi…

  6. Nicolas Ramires disse:

    Acredito que a fama de maldito seja pela birra dos demais arquitetos da época, pois lí em algum lugar, que Jurado nunca pôde assinar as suas obras pois não tinha formação acadêmica…
    Mas seus edifícios e desenhos arquitetônicos são maravilhosos!!!

  7. ruy debs disse:

    Martin. Cada dia mais aprendo sobre o Jurado. De fato eu nunca pensei em fazer um livro que fosse estanque, hermeticamente fechado que eu pudesse sentar em cima dele e dá-lo como pronto e acabo. Aí está. Acabo de ler em http://portogente.com.br/18978?id=%3A18978 uma história fabulosa sobre o hidroavião cuja foto está na pg,292 do meu livro o “Seabee” e do qual eu pouco ou nada sabia.
    Agora, “folheando” o grupo do FB arquitetos vi que tem um link só pro Artacho…que barato!
    E você, seu danado, é um grande enrustido que nunca pára de fuçar a vida do cara…parabéns!
    Grande abraço e vamos nos falando, pois aquele doc tá ganhando corpo, viu?

  8. Enrustido coisa nenhuma. Eu sou um fã assumido e declarado!!! Muito bom receber notícias suas, e achei fantástica essa história do Seabee. Vamos nos falando sim. Um abraço!

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