Biquinha do Pacaembu

O estádio do Pacaembu foi construído no final dos anos 30 em uma área doada à prefeitura pela Companhia City. Mas isso todo mundo sabe. O que pouca gente sabe é que, antes do estádio, havia no local uma bucólica fonte. Era a “biquinha do Pacaembu”.

A peça era simples: um bloco de granito não muito grande, com duas cabeças de leão (uma de cada lado) que cuspiam água do córrego Pacaembu, que até hoje passa por lá. Instalada pela Companhia City em 1926, ficava no meio de um jardim e era rodeada por uma pérgula semicircular que aparece na foto ao lado.

Ficou em funcionamento até o início da construção do estádio, quando sumiu. E durante mais de 60 anos não se teve mais notícias dela, até que foi acidentalmente encontrada por operários, durante uma reforma no estádio no final dos anos 1990. Estava intacta em um vão entre duas paredes. Ninguém sabia, mas ela nunca tinha saído dali: fora simplesmente emparedada e esquecida.

485E a fonte também tem outras histórias. Uma delas aconteceu em janeiro de 1929, quando ela foi cenário de um crime “em circumstancias mysteriosas”, amplamente noticiado pela imprensa (os trechos entre aspas são de reportagens publicadas na Folha da Manhã nas semanas seguintes). Um casal de namorados – uma viúva de 26 anos e um rapaz solteiro de 20 – passeava pelo vale do Pacaembu em um automóvel Ford. Era ela quem guiava, pois “se aperfeiçoava na arte cinesifora” (isto é, aprendia a dirigir). Ao passarem pela biquinha, resolveram parar para se refrescar na bica. Mas quando chegaram nela, foram abordados por um ladrão que matou o rapaz com um tiro no peito para roubar a bolsa da namorada. Ou pelo menos essa foi a primeira versão da história.

É claro que a versão não se sustentou, afinal “um ladrão não procuraria a bolsa de uma mulher, onde se sabe perfeitamente existirem apenas nickeis, pó de arroz, carmim e coisas sem importancia”. Com base nesse impecável raciocínio e depois de interrogar a moça, a polícia mudou a linha de investigação: o crime era passional, e a mandante era ela!

A fonte continua até hoje dentro do estádio, mas voltou ao esquecimento. Está se deteriorando, maltratada em um canto, sem que ninguém dê a mínima pra ela.

        

(A primeira foto pertence ao arquivo familiar de Celso Calixto Rios e foi publicada pela revista Veja São Paulo em fevereiro de 2002. A segunda reproduz reportagem da revista A Cigarra nº 341, de janeiro de 1929.  As duas últimas são minhas mesmo, tiradas na semana passada.)

6 comentários
  1. Cara, algumas coisas parecem só acontecer no Brasil ou em São Paulo, hehe… Uma fonte de 1926, bem conservada até, jogada dentro de um estádio tombado, do lado de umas cercas ali. Que bizarro…

  2. Eric disse:

    O Brasil e a capacidade de não preservar a história… Impressionante…

  3. Onde exatamente fica essa fonte?

  4. Finalmente vejo uma foto da tal fonte do Pacaembu.
    Minha contava que buscavam água nessa fonte em 1927.
    Ela morou na Rua Tupi.

  5. Em meu comentário acima faltou quem contava: era minha mãe que contava isso.

  6. Obrigado pelo comentário, Rene!

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