A árvore de Macunaíma

Quem leu Macunaíma, do Mário de Andrade (ou mesmo quem viu o filme de Joaquim Pedro de Andrade, com Grande Otelo no papel principal) deve lembrar que, a certa altura, o herói sem nenhum caráter resolveu ir escondido até a casa de Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã comedor de gente, que tinha roubado sua muiraquitã.

A casa do gigante ficava em Higienópolis, bem no final da rua Maranhão, com vista para o Pacaembu, e ao chegar lá Macunaíma deu de cara com uma árvore muito alta, que dava frutas de todos os tipos.

A árvore foi providencial, porque o herói estava com fome:

“Venceslau Pietro Pietra morava num tejupar maravilhoso rodeado de mato no fim da rua Maranhão olhando pra noruega do Pacaembu. Macunaíma falou pra Maanape que ia dar uma chegadinha até lá por amor de conhecer Venceslau Pietro Pietra. Maanape fez um discurso mostrando as inconveniências de ir lá porque a regatão andava com o calcanhar pra frente e si Deus o assinalou alguma lhe achou. De certo um manuari malevo… Quem sabe si o gigante Piaimã comedor de gente!… Macunaíma não quis saber.

— Pois vou assim mesmo. Onde me conhecem honras me dão onde não me conhecem me darão ou não!

Então Maanape acompanhou o mano.

Por detrás do tejupar do regatão vivia a árvore Dzalaúra-Iegue que dá todas as frutas, cajus cajás cajàmangas mangas abacaxis abacates jaboticabas graviolas sapotis pupunhas pitangas guajiru cheirando sovaco de preta, todas essas frutas e é mui alta. Os dois manos estavam com fome. Fizeram um zaiacúti com folhagem cortada pelas saúvas, esconderijo no galho mais baixo da árvore pra flecharem a caça devorando as frutas.”

Quem passa hoje pelo lugar talvez não repare, mas a árvore ainda está lá. Não tem dado muita fruta (eu pelo menos nunca vi nenhuma), mas continua tão alta quanto. Chega até o décimo andar do prédio que construíram ali nos anos 70. O prédio é desses em “estilo neoclássico”, verdadeira ofensa para uma árvore tão modernista.

Certeza mesmo não dá pra ter, mas eu gosto de pensar que esta é a árvore Dzalaúra-Iegue. Mário de Andrade deve ter se impressionado tanto com ela em 1928, que resolveu colocá-la no livro. A foto mais antiga que encontrei é de 1958, e nela a árvore já aparece enorme.

As imagens são reproduzidas do Google Street View (foto atual) e de geoportal.com.br (foto aérea de 1958).

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7 comentários
  1. carlos disse:

    Sensacional.

  2. sgld disse:

    mas acho que no filme o venceslau pietro pietra morava no parque lage. estou certo?

  3. Me perdi. Que espécie de árvore é? Mário de Andrade e Macunaíma podiam misturar as espécies. Para blogueiro às vezes sobra pergunta de botânica.

  4. Sim, no filme o Parque Lage foi usado como locação…

    E a árvore, se não me engano, é uma enorme seringueira que só dava futas para o Macunaíma mesmo…

  5. luidhi disse:

    ” cheirando sovaco de preta”… Deixa os “politicamente correto” lerem isso que vão querer queimar todos os livros de Mário de Andrade.

  6. vinicius libardoni disse:

    Parabéns pelo blog, nada como descobrir que aqueles pontos por onde passamos todos os dias tem uma história bonita como esta.

  7. Ainda respondendo a dúvida botânica do Felipe Pait…

    Perguntei ao Ricardo Cardim, que além de saber tudo sobre árvores edita o blog “Árvores de São Paulo” (http://arvoresdesaopaulo.wordpress.com), e a informação que ele me mandou é que se trata de uma falsa-seringueira (Ficus elastica). 😉

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