Parque Augusta

Esta semana, o projeto do Parque Augusta, no terreno do antigo colégio Des Oiseaux, voltou a ficar em evidência. A Folha de S.Paulo publicou uma matéria (veja aqui) dizendo que, apesar de ter sido declarado de utilidade pública pela prefeitura em 2008, o terreno deverá mesmo virar um enorme empreendimento imobiliário.

O principal interessado é o ex-banqueiro Armando Conde, que afirma na matéria que este será o projeto mais importante da sua vida. A declaração de Conde é compreensível. Ele é velho (tem 81 anos), sabe que vai morrer logo e está se vingando: não quer ir embora sem deixar uma agressão, uma cusparada de raiva em quem fica.

Mas o mais interessante não é isso, e sim outras matérias que saíram sobre o assunto, também na Folha, só que há 40 anos.

565Em 23 de maio de 1973, o título era “A luta pela sorte de uma área verde”. O texto dizia:

“Numa das regiões mais áridas da cidade – a da Consolação – entre centenas de prédios de apartamentos que contestam os mais rudimentares princípios de habitação, encontra-se uma das mais abandonadas e mais requintadas áreas verdes de São Paulo. Na rua Caio Prado, no terreno que pertencia ao antigo Colégio Des Oiseaux, ainda sobrevive grande parte da vegetação que foi cultivada por mais de um século pelas religiosas que ali viviam e lecionavam. Mas atualmente, o que resta dessa vegetação não pode ser desfrutada pela cidade, porque está cercada por altos muros e grandes portões de aço. (…) E esta é uma das áreas que, apesar de ter sido declarada pela Prefeitura de utilidade pública, está ameaçada de desaparecer. Seus proprietários têm lançado mão de todos os recursos para convencer a administração municipal a lhes conceder autorização para construírem prédios no local, ‘sem que a maioria dos maiores vegetais sejam sacrificados’, segundo suas próprias argumentações. Quem não está contente com a instransigência dos proprietários são os moradores da vizinhança. Todos são unânimes em afirmar que a área deveria ser transformada em parque e jardim público, beneficiando assim a todos”.

566Um pouco depois, em 19 de dezembro de 1973, uma outra matéria confirmava: no lugar do parque ia ser mesmo construído um hotel com 1200 apartamentos.

“O decreto do dia 7, que descongelou oito áreas verdes da cidade, começou a produzir os primeiros resultados. O grupo japonês Teijin já apresentou o projeto de um hotel de categoria internacional, que será construído, no terreno do Colégio Des Oiseaux, na rua Caio Prado. (…) Utilizando-se de 4.100 metros para a construção do conjunto, o restante da área seria franqueado ao público, que poderia se beneficiar dos atrativos que o mesmo irá propiciar ali, inclusive, no futuro, uma agência bancária”.

E o que aprendemos com essas notícias, impressionantemente velhas e novas ao mesmo tempo? Um monte de coisas!

A primeira é que os jornais estão jogando dinheiro fora. Ao invés de pagar jornalistas para escrever matérias, poderiam simplesmente republicar as notícias de 40 anos atrás. Seria uma economia e ninguém notaria a diferença.

A segunda é que pouco mudou em 40 anos na forma como a cidade lida com demandas populares. Apesar de ser uma demanda tão antiga, o assunto continua sendo tratado mais ou menos do mesmo modo que em 1973.

E a terceira coisa que aprendemos é que a sorte da área ainda não está lançada. Em 1973 o prédio não saiu apesar das notícias, e pode ser que agora também não saia. Os defensores do parque devem continuar pressionando. A internet está aí para ajudar. Em 1973 ela não existia.

13 comentários
  1. Maria Sylvia disse:

    Será um pecado a cidade perder rste espaço !!

  2. Ao estudar História, nos deparamos com muitos episódios como este – as pessoas achando que é um problema atual, mas ele já existia lá atrás…
    Caso parecido com os protestos recentes devido ao transporte público, com um post muito oportuno deste blog mostrando o quão caótica e parecida era a situação há 50 ou 60 anos.

  3. Garanto para voce que para cada pessoa que exige que isso seja mantido como parque existem pelo menos 10 que não se importam ou que preferem ver ali uma torre “para revigorar o local”. E a culpa é da prefeitura mesmo, ou dessas pessoas que não se mexem (nós), porque já há vários anos aquilo é um local abandonado e sujo. Depois de 40 anos, já estava mais do que na hora de transformar aquilo numa praça decente, não? Afinal, precisamos mesmo de um prédio ali? Só o Conde e os amigos dele na prefeitura…

  4. josé carlos vaz disse:

    Também concordo que aquele lugar seja transformado em parque ou praça.

    Mas preciso fazer uma pergunta delicada: onde é melhor gastar dinheiro para fazer um parque: ali, na zona central, a poucos km do Parque da Água Branca, do Ibirapuera, do Parque da Aclimação, do Museu do Ipiranga, do Parque da Luz, da Praça Buenos Aires, da Praça da República, ‘ou em um bairro da zona leste que nào tem uma área verde decente em um raio de uns 10 km?

    Tendo em vista a escassez de recursos de uma prefeitura falida, onde é mais justo aplicar o dinheiro?

    Se dissermos que tem que ser feitos os dois, podemos retrucar: mas a periferia de SP não precisa de UM parque, mas de DEZENAS deles! Basta navegar pelo google maps na visão de satélite para ver.

    O que nos leva à discussão da necessidade de uma política de expansão das áreas verdes e parques na cidade. Não adianta, e chega a ser perverso, ficarmos discutindo uma área isolada na área mais privilegiada de SP. Mas, infelizmente, a lógica das reivindicações de boa parte da classe média costuma ser assim: pouco ultrapassa o próprio umbigo. É muito fácil jogar a culpa no poder público, mas qual é nosso papel nesse jogo?

  5. Perfeita a sua análise, Vaz. Olhando para o curto prazo e para as contas da prefeitura, é natural que um parque no centro não seja prioridade agora. Reivindicar o parque da prefeitura “pra já” não faz sentido, mesmo porque ela não tem recursos para abrir parques nem no centro nem na periferia, onde precisa mais. E é necessária, sim, uma política de expansão de áreas verdes que contemple as necessidades de toda a cidade, coisa que nunca existiu. Mas enquanto isso não acontece, acho fundamental que uma área como essa seja preservada. Acho que neste momento a pressão não deve ser sobre a prefeitura para fazer o parque, mas sobre o Conpresp e demais órgãos de preservação para impedir a construção das torres. O instrumento do tombamento está aí para isso. Preserve-se a área livre de torres para quando houver uma política de parques adequada na cidade e dinheiro para executá-la, ainda que seja necessário esperar mais 40 anos..

  6. Toninho disse:

    Há algumas decisões que devem ser tomadas pensando no futuro. Áreas verdes, desafogar o transito e etc são algumas delas.Vejam a aridez da Paulista após a “reforma”!!! Esta área da Caio Prado com Augusta tem esta caracteristica. Se não “virar” área verde agora , não haverá outra possibilidade.

  7. Mas como ficará a questão caso se opte pelo parque, já que sabidamente a Prefeitura não terá recursos para desapropriar a área? Quem paga a conta?

  8. Na verdade já se optou pelo parque há muito tempo. O parque Augusta está no plano diretor da cidade desde 2002. O plano está passando por revisão, mas suponho que isso será mantido. Se a prefeitura não tem dinheiro (e não tem mesmo) para desapropriar agora, e se não for possível obter dinheiro de nenhuma outra forma (uma parceria público-pricada, por exemplo), paciência. Mas a função social do terreno está no plano diretor há mais de 10 anos, e o importante é manter o local livre de prédios ainda que o parque demore pra poder ser executado. Neste caso, quem “pagará a conta” são os proprietários, que poderão continuar usando o imóvel do jeito que quiserem por mais algum tempo, exceto construir prédios. Eles compraram o imóvel para especular, mas o local já era reivindicado pela população para virar parque desde muito antes, desde que o colégio saiu de lá há mais de 40 anos.

  9. Podem me crucificar, mas um parque ali só vai ser dor de cabeça. Vai se tornar um local de drogas e prostituição à céu aberto. É um espaço muito grande, com bastante árvore nativa(que provavelmente não poderão/não deveriam ser derrubadas) e que vai ser muito difícil de policiar. Numa região da augusta que já tem bastante assaltos, vai ficar ainda pior, vai ser fácil assaltar e sumir no parque.

  10. Flavio disse:

    Cada comentário cretino…. “por que mais um parque, a poucos quilômetros da praça da república ou do parque da agua branca”….. qual o problema em ter mais um parque nesse lugar, além de outros em areas onde nao ha parques? e outro “vai ser um lugar de prostituicao e drogas”…. nao da nem pra discutir comentarios assim…

  11. A realidade é que ninguém, proprietários e defensores querem largar o osso, sentar e pensar um plano em conjunto com a construtora que integre as torres ao parque, arquitetura e engenharia estão aí justamente para isso, quem já viu o local nota que a área é suficiente para construir o tal hotel e seria ótimo para as duas partes, a cidade ganharia mais capacidade hoteleira e e o bairro mais uma área verde.

  12. SavianoMarcio Esse é o projeto(o ultimo divulgado pelo consórcio da construção). Serão 3 torres ocupando 33% do espaço de 25 mil m². Os outros 67% do espaço será o parque, feito pelas construtoras e mantido pela prefeitura.

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