A vingança do elephante

O filme King Kong só estrearia em 1933, mas em 1929 São Paulo viveu cenas que de alguma forma anteciparam as emoções do filme. Não, por aqui não apareceu nenhum gorila gigante. Mas quase: quem desempenhou o papel foi Ely, um elefante que tinha ódio de carros. A história é contada por duas notícias de jornal da época, uma do Estado de S.Paulo e a outra da Folha da Manhã.

609610Tudo começou na Vila Maria em 3 de novembro de 1929, conforme noticiado no Estadão do dia 5: “Registrou-se ante-hontem em Villa Maria um facto invulgar que pôz em alvoroço a população daquelle prospero bairro.”

A história tinha sido mais ou menos a seguinte. De noite, dois elefantes de um circo instalado nas redondezas, chamados Ely e Edy, passeavam juntos – e desacompanhados – pela rua Catumbi. Mas por essa rua também passava o bonde, que naquela noite veio em alta velocidade e, como estava escuro, não freou a tempo.  Resultado: um dos elefantes, o Ely, foi atropelado e ficou caído no chão. O motorneiro fugiu. E o outro elefante, solidário, “postou-se junto ao companheiro atropelado e, furioso, alli ficou a impedir a approximação de curiosos.” Os populares tiveram que ir até o circo chamar alguém que conseguisse convenver os dois a saírem dali.

Mas isso foi só o começo. Três semanas depois, Ely, o elefante atropelado, entrava “novamente em scena” como noticiou a Folha da Manhã de 26 de novembro. Desta vez no Bosque da Saúde, para onde o circo tinha se transferido.

De acordo com a notícia, Ely andava meio transtornado: “Ha pouco tempo, quando o circo estava no bairro de Villa Maria, Ely foi atropelado por um bonde, ficando mais ou menos ferido. Desde então, parece esse animal voltar um odio extraordinario a tudo que é vehiculo.”

Na véspera, um automóvel Studebacker tinha dado, sem querer, uma encostadinha de leve em Ely. “Foi o mesmo que fogo em pólvora”, noticiou a Folha .”Enraivecido, o animal virou-se e, passando a tromba por baixo do vehiculo, atirou-o de lado, virando-o.” O maior prejudicado foi um rapaz de 17 anos, que “soffreu violenta contusão na parte anterior do thorax”.

Parece que o rapaz se recuperou na Santa Casa. Sobre o elefante, não achei mais nenhuma notícia. Mas há até quem diga que foi a partir daí que o paulistano começou a chamar os acidentes de carro de “trombada”.

6 comentários
  1. valter disse:

    segundo consta, a informação é verdadeira e Ely era, na verdade, uma aliá, às vezes chamadas de eliá (daí o nome)…
    parabéns pelo blog!

  2. Martin, já tinha ouvido falar sobre isso, mas com todos esses detalhes, não. Muito bem colocada essa história. E olha que o Studebacker era um carro bastante pesado (comparado com os de hoje). Imagine o Ely ficar nervoso na hora do rush nos dias de hoje, kkk! Seria até uma solução para aquele chato que fica buzinando enquanto tudo está parado, né? rs…rs.
    Um abraço
    Manoel

  3. Joao Marcos disse:

    Muitas fontes dizem que a “trombada” ocorreu na Libero Badaro… seria essa entao?

  4. Sônia disse:

    E onde entra a Rua Ely nessa história, moro na Vila Maria há 67 anos e nunca ouvi falar da origem da Rua ser o nome desse elefante!

  5. herberth disse:

    kkk eu com 51 anos posso dizer que conheço muito da vida ,mas essa da trombada foi o maximo ,adorei a criatividade dos antigos kkk

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