Jurado de morte

João Artacho Jurado é um personagem paulistano sobre o qual existem “muitas lendas e algumas verdades”, como disse o escritor e jornalista Bernardo Carvalho em um famoso artigo publicado em 1990.

Uma das lendas, que costuma ser repetida à exaustão, é que Jurado era “constantemente perseguido” pelo CREA, o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, porque projetava prédios sem ter título de engenheiro ou de arquiteto.

Tá certo que Jurado e o Conselho não se davam lá muito bem… Mas do jeito que a história é contada, parece que a relação era de ódio mortal, quando na verdade parece ter sido mais complexa e cheia de nuances do que isso.

Em 1960, por exemplo, a diretoria do CREA, junto com Adolpho Lindenberg e outros figurões da construção civil paulistana, convidou uma delegação de visitantes estrangeiros para ir conhecer o edifício Bretagne e participar de um coquetel gentilmente oferecido, justamente, por João Artacho Jurado e seu irmão Aurélio. Tudo muito cordial, como se vê na matéria da Folha de S.Paulo de 3 de abril de 1960, página 6, “Vida Social”:

“Engenheiros suíços visitam o ‘Bretagne’
Um grupo de engenheiros suíços, ora em turnê pelas três Américas com o objetivo de conhecer vários países do continente e suas respectivas construções, estiveram na noite do ultimo dia 26 em visita ao edifício ‘Bretagne’, na av. Higienópolis.
Após percorrer as principais dependências do prédio, os visitantes, que se encontravam em companhia dos diretores do Instituto de Engenharia de São Paulo e do CREA, foram recebidos com um ‘coq’, oferecido pelos srs. João Artacho Jurado e Aurelio Jurado Artacho, diretores da Imobiliária Monções S.A., firma responsável por aquela construção.
Informaram os engenheiros visitantes que, antes de partir da Suíça, já haviam recebido indicação para que visitassem o edifício ‘Bretagne’. Estiveram presentes à recepção os engenheiros suiços, srs. Feliz Nager, Maxim Passet, Robert Schmid, Frederico Matter, Paul Aubry, Claude Bigar, Eduard Strebel, Julian Schlleutemann, Henry Quiby e René Cleusix, que foram reunidos pelo sr. Adolpho Lindemberg, presidente do Instituto de Engenharia do Estado, e pelos srs. João Artacho Jurado, Aurelio Jurado Artacho, Helio de Caires, presidente do Conselho Regional de Engenharia, Rubens Macedo Vieira, Valter Stark, Jamil Tomé, Arnaldo Albieri, Osvaldo Mazieri e Irineu Simonetti.
Na ocasião, juntaram-se ao grupo suíço, quatro engenheiros bolivianos, que também visitavam o edifício.”

Mas o que mais me chamou a atenção foi o tratamento dado, no finalzinho do texto, aos quatro engenheiros bolivianos – os únicos sem nome – que participaram do encontro. Tratados quase como penetras, esses sim parecem ser os verdadeiros desprezados! 

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2 comentários
  1. Ruy Debs disse:

    Boa Martin! Abraços

  2. Zécas Malatesta disse:

    Artacho não foi engenheiro ou arquiteto; foi um bem sucedido (até certo ponto) construtor, incorporador. Tinha conceitos “arquitetônicos” próprios – tipo: seus prédios raramente tinham apartamentos de fundos, estes eram todos de frente; por isso prédios em “L” como o Bretagne. Este conceito arquitetônico era um conceito comercial: apartamentos de fundos são mais baratos. A maioria de suas construções eram de unidades de 2 quartos, ou 3, pequenos à época, destinados a classe média “emergente” que se sentia bem morando em lugares nobres (Higienópolis, avenida Paulista).

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