Espiral descendente

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Este post foi escrito originalmente em dezembro de 2012, mas na época o Niemeyer tinha acabado de morrer e eu achei que seria mais delicado deixá-lo para outra ocasião. Agora que já passou um certo tempo, acho que não tem mais problema. E o texto tem muito a ver com o aniversário de São Paulo, comemorado hoje.

O post começava dizendo que, embora o Niemeyer seja muito reverenciado, quase ninguém conhece um projeto dele que foi um estrondoso fracasso. Era um monumento-símbolo da cidade, inaugurado há exatos 60 anos, em 25 de janeiro de 1954.

Projetado para a entrada principal do parque Ibirapuera, o monumento foi pensado para ser uma marca de São Paulo – mais ou menos o que Cristo Redentor é para o Rio.  Ele era uma enorme e elegante espiral de concreto, que parecia irromper do solo avançando para o céu. A ideia era que aquilo simbolizasse o espírito progressista e laborioso de São Paulo, a pujança, o crescimento, o futuro de glória dos paulistas, enfim, essas baboseiras ufanistas, cultivadas com tão pouca autocrítica no discurso oficial da época. As fotos da maquete dão uma ideia da grandiosidade da coisa.

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Antes mesmo de começar a ser construído, o monumento já tinha virado um emblema, adotado como logomarca oficial da cidade. Estava estampado por todos os lugares, daí a grande expectativa de que ele ficasse pronto para as comemorações do Quarto Centenário, em 25 de janeiro de 1954.

Mas houve um probleminha: do jeito que o monumento tinha sido projetado, por mais que os engenheiros se esforçassem, não teve jeito. Ele simplesmente não ficava em pé. Não com os materiais e a tecnologia de construção disponíveis na época.

Depois de diversas tentativas, a solução encontrada para minimizar o vexame foi construí-lo em juta e gesso ao invés de concreto, aos 46 minutos do segundo tempo. Mesmo assim não foi fácil, e ele acabou ficando meio troncho, com aparência grosseira, pouco lembrando a delicadeza característica das curvas do Niemeyer. Como era de gesso, naturalmente durou pouco: se desfez na primeira chuva, assim como o futuro de glórias de São Paulo.

Há quem diga que Niemeyer morreu negando o fiasco. Segundo ele, o projeto nunca chegou a ser construído. As fotos da inauguração do parque, no entanto, parecem desmenti-lo. E em 2008 a história foi contada em mais detalhes por uma testemunha dos fatos, Mauris Warchavchik, nesta deliciosa entrevista ao Estadão.

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A primeira imagem (desenho do Niemeyer) é reproduzida do catálogo da exposição “Fantasia Brasileira: o Balé do Quarto Centenário” (Sesc-SP, 1998). As fotos da maquete são da revista Acrópole nº 185, de fevereiro de 1954. As três últimas imagens são, respectivamente, do Estadão de 25 de janeiro de 1954, do blog historiasdopari.wordpress.com e de um anúncio das festividades do Quarto Centenário publicado na revista Seleções.

4 comentários
  1. Mauricio disse:

    Warchavchik era sócio do eng. Walter Newmann, um concretista Tcheco arrojado e capacitado da época que depois de inúmeros cálculos provou que nunca ficaria em pé com aquela angulacao e peso do concreto, então diminuiu os graus e construiu, não só em gesso mas em estuque com gesso e depois de algumas chuvas foi recolhido e destruído por estar deteriorado.

  2. Mauricio, obrigado por acrescentar esse dado. Abraço!

  3. Oswaldo Soto disse:

    História muito boa! Fico me perguntando qual seria o símbolo de São Paulo, essa cidade tão cheia de contradições…

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