Excursão de um dia

668Winifred Austin – ou simplesmente Winnie – foi uma professora americana nascida em 1866, residente em Norton, uma cidadezinha do estado de Massachusetts.

Em 1928, aos 62 anos de idade, ela fez uma viagem a Buenos Aires que dava direito, na volta, a uma parada em Santos e um passeio até São Paulo.

Não conseguiu ver muita coisa por aqui, porque a excursão era só de um dia. Mas as impressões que ela teve ficaram registradas em duas cartas que escreveu em papel timbrado do Esplanada, o hotel mais chique da cidade.

Em uma das cartas, enviada a um certo “primo Charles”, Winnie quase não escreve sobre São Paulo. Apenas conta que por aqui só se ouve português, e fala sobre a viagem de Santos pra cá, naquela manhã: o trem subira a serra atravessando as nuvens, no meio de muita vegetação tropical.

Na outra carta, a uma tal de Esther, Winnie dá um pouquinho mais de detalhes sobre a cidade:

“Dear Esther,
How would you like this wonderful city, 2 1/2 hours from Santos, the biggest coffee port of the world! (…)  For tomorrow we must be back at Santos to go on to Rio – our last stop before N.Y. (…) The Tropic of Capricorn goes thru this town. We were out to a snake farm today: wonderful buildings & grounds & museum. (…) This is a large, finelly equipped hotel – everything up to date – but even so had rice pudding with prunes for dessert at lunch. (…) Love to you and all. Aug.13 1928, Winnie”

(Querida Esther,
Como você ia gostar desta maravilhosa cidade a duas horas e meia de Santos, o maior porto de café do mundo! (…) Amanhã devemos voltar a Santos para seguir até o Rio – nossa última escala antes de Nova York. (…) O trópico de capricórnio atravessa esta cidade. Hoje nós fomos até uma fazenda de cobras: lindos prédios, campos e museu. (…) Estou em um grande hotel, finamente equipado e muito moderno, mas mesmo assim nos serviram um pudim de arroz com ameixas na sobremesa do almoço. (…) Lembranças a você e a todos. 13 de agosto de 1928, Winnie”)

Acho que nem preciso dizer que a fazenda de cobras era o Instituto Butantã, e o pudim de arroz com ameixas devia ser, na verdade, manjar branco.

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5 comentários
  1. Olá, muito legal seu trabalho sobre a memória de São Paulo.
    Fiquei com uma curiosidade: por que a Winnie, colocou o “pudim de arroz” como um senão ao fino hotel onde se hospedara? um abraço, Debora

  2. Talvez porque rice pudding é uma sobremesa muito simples e comum nos Estados Unidos. Algo nada refinado, que ela não esperava encontrar num hotel de luxo… Que bom que vc gosta do blog, fico feliz!

  3. Mário Vilela disse:

    Muito bom post, e muito bom site, Martin. Agora, se você me permite, esse “rice pudding with prunes” é arroz doce com ameixa seca.

  4. Obrigado, Mário. Eu me pergunto: em que outro blog a gente tem a chance de discutir uma sobremesa servida há quase 90 anos? 😉

  5. Mário Vilela disse:

    Hehe.

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