Artacho não morreu

“Revitalização” é uma palavrinha meio complicada. Revitalizar significa dar vida novamente a alguma coisa, uma ideia que só faz sentido se supusermos que a coisa em questão está morta.

822Quando usada em projetos de intervenção em áreas urbanas, a palavra não tem sido muito bem vista por arquitetos e urbanistas. “Revitalizar” uma área indica que ela estava sem vida, ou que a vida ali presente não valia grande coisa. Não é lá um jeito muito simpático de tratar a população residente: por mais desvalorizados que estejam, esses locais têm sempre muita vida. Renovação, requalificação ou reconversão são certamente termos mais adequados…

Já quando usada em endereços chiques, além de complicada, a palavra fica ridícula. É o que está acontecendo em um prédio residencial da avenida Higienópolis. Pelo jeito, os moradores do edifício Apracs julgam que a arquitetura de João Artacho Jurado está morta. Para ajudar a enterrá-la, encomendaram um “projeto de revitalização”.

O projeto ainda não foi executado, e eu aqui do meu canto torço para que não seja. As fotos abaixo, que estão expostas no hall do prédio, dão uma boa ideia da tal revitalização. A coisa consiste, basicamente, em jogar um monte de madeira em cima da inventiva linguagem do Artacho. Pastilhas e outros revestimentos originais, em áreas tanto internas quanto externas, ao invés de restaurados e valorizados, serão cobertos por decks iguais aos das piscinas e solariums desses condomínios beges e padronizados de hoje em dia, tão cheios de vida no seu estilo “visite o decorado”.

O ponto alto do projeto é um deck-playground, para as crianças. Eu já vejo a garotada do prédio se divertindo horrores, cantando “atirei o pau no Artacho-cho”…

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Atualização em 9 de agosto de 2016: Depois de mais de um ano de resistência, os moradores do prédio contrários a esse ataque tiveram hoje uma grande notícia. Junto com seu vizinho Parque das Hortênsias, também obra de Artacho Jurado, o Apracs teve aprovado pelo Conpresp, órgão municipal de preservação, o Selo de Valor Cultural da Cidade de São Paulo. Com isto, o prédio tem sua importância reconhecida e passa a ficar um pouco mais protegido. Eu fico feliz, e comemoro junto com os moradores que se mobilizaram e foram resposáveis por essa conquista.🙂

31 comentários
  1. ralphgiesbrecht disse:

    Mande uma carta sua explicando o porque do seu post no blog para todos os comdôminos.

  2. ralphgiesbrecht disse:

    CoNdôminos

  3. Troco meu apartamento por um nesse prédio. E podem ir revitalizar a casa da sogra

  4. Ruy Debs disse:

    Abraço Martin.

  5. Raimundo disse:

    Concordo ^, e se surtar algum resultado, posta aqui também🙂

  6. Beatriz Rivadávia disse:

    Gostei dessa ideia de enviar carta “explicativa, educadora” aos condôminos. A essas alturas, já deve estar tudo aprovadíssimo em reunião de condôminos, acabar com aquelas “velharias”, “revitalizar” o edifício. Mas no seu lugar,eu sentiria um gostinho todo especial em escrever essa carta.

  7. Lindomar disse:

    Digam que num futuro próximo essas intervenções irão desvalorizar os imóveis. E vai mesmo, imóvel com esse pedigree e preservado vale muito, vide o Viadutos. Fazer o que, essa gente só entende nessa linguagem…

  8. Ricardo Santos disse:

    Pelo jeitão da arte eles terão “portaria gourmet”.
    Tsk tsk tsk, francamente. Que servicinho!

  9. Leo Branco disse:

    Pobre Apracs. Esse edifício fica ao lado do shopping Higienópolis? Se for o mesmo que tenho em mente agora, será mais uma anomalia. O prédio residencial ao lado do tal centro comercial tem uma simpática loja no piso térreo. Pena que o acesso de clientes se dá por uma portaria de cadeia — com portas duplas, câmeras e cerca elétrica — a mesma usada pelos moradores. É difícil entender como clientes e moradores acham isso normal.

  10. Vagno Fernandes disse:

    “Renovação, requalificação ou reconversão”

    Se formos seguir a lógica do texto, as pessoas ou projetos também se sentiriam “ofendidos” ao serem tratados como velhos, sem qualificação ou mudança do se é. Se formos usar um termo adequado para patrimônios tombados, vamos falar em restauração. O que deve ser levado em conta no projeto é: desconfigura o projeto inicial do arquiteto urbanista? Esse artigo mais parece uma elitizaçao dos conceitos arquitetônicos e urbanísticos do que algo que valha realmente a pena problematizar. Se tem uma coisa que me faz envergonhar da minha profissão são esses argumentos totalitários e higienistas de uma grande maioria de arquitetos.

  11. Felipe disse:

    Se formos seguir qualquer lógica esse projeto é vexaminoso, e é isso que importa

  12. Renata Brittes disse:

    Só faltou uma informação nesse texto:
    Martin Jayo não é arquiteto e não mora no prédio. Acho oportunista utilizar argumentos arquitetônicos fracos para esconder a real motivação desse texto. O que está por trás disso é que o autor conhece uma moradora que tem apartamento no térreo. Como acredita que o playground irá prejudicar seu apartamento, ela é contra a reforma. Acho mais nobre admitir uma motivação egoísta do que criar um texto sem o menor embasamento arquitetônico para ocultar esse fato.

  13. Que bobagem, Renata! De fato eu não moro no prédio, nem preciso morar nele para prezá-lo. Já escrevi sobre muitos prédios aqui no blog, sem ter que morar em cada um deles. De fato eu não sou arquiteto (por acaso disse que era?), embora já tenha publicado alguns artigos em revistas acadêmicas de arquitetura, inclusive sobre a obra do Artacho Jurado. E de fato conheço várias pessoas que moram neste e em outros prédios sobre os quais já escrevi, mas não estou preocupado em saber se moram no térreo ou na cobertura. Você diz que eu usei argumentos arquitetônicos fracos, mas não apresenta nenhum outro, nem fraco nem forte. Então fico sem saber o que você veio fazer aqui, além de dizer o que eu posso ou não posso escrever no meu próprio blog, o que certamente não é da sua competência.

  14. Felipe disse:

    E aí que o Martin não é arquiteto? O prédio é do Artacho Jurado que também não era! rs

  15. Bem lembrado, Felipe! A única motivação do texto era dar minha opinião de não-arquiteto sobre um estrago que estão fazendo na obra de outro não-arquiteto. Se alguém quiser defender esse projeto horroroso com argumentos, e não com desqualificações estúpidas, o espaço está aberto.

  16. Soraya Aggege disse:

    Rennata Brittes, eu sou a única moradora do térreo do Apracs. Além do meu endereço que vc cita aqui, eu tenho nome, é Soraya Aggege e vc pode me procurar para um diálogo, caso vc consiga ouvir um pouco, claro. Martin Jayo é um grande profissional e antes disso, uma pessoa de respeito. Não sei se vc sabe, mas qualquer cidadão pode pedir até o tombamento de um prédio, ou mesmo dar opiniões, não precisa ser proprietário de nada, é a lei. No caso do Jayo, acho que vc não pesquisou bem, mas ele é muito respeitado por suas opiniões sobre o patrimônio arquitetônico de São Paulo. Aliás, Jurado também não era arquiteto formado. Mas como jornalista que sou, eu te digo com carinho: opinião e crítica não refletem oportunismo, mas liberdade de expressão. Sobre o caso específico que vc me cita, eu não sou contra um playground não, até pq tem outro sob minha janela, do prédio vizinho. Barulho de crianças brincando nunca me incomodou. O que me incomoda, além de ver destruição de obras de arte, são pessoas que não gostam de democracia, pessoas que desrespeitam o direito dos outros, que atacam e gritam sem ouvir, que abusam da ignorância para julgar. Vc não me conhece, mas comprei meu espaço no Apracs porque eu adoro arquitetura e Artacho Jurado. Penso que moro em uma obra de arte. Adoraria convencer você de que moramos em uma obra de arte e de que há muitas outras soluções para um parque que não desconfigurem nosso Apracs. Um abraço!

  17. Rosangela Petta disse:

    Sou moradora do Apracs, votei contra o “projeto de revitalização”, e na assembléia dos condôminos (muito tumultuada, aliás), quem mostrou agir apenas pensando apenas em si mesmo foram algumas mães que pleiteiam a criação de um playground. São, ao que parece, menos de dez moradoras, num total de 132 apartamentos. Nada contra reservar um espaço para nossas crianças, ainda que sejam poucas. Mas seria bom considerar o seguinte: 1) É difícil entender como é que mães e pais que moram no Apracs reclamam da falta de espaço para suas crianças quando têm o privilégio de estar a apenas 5 minutos a pé do Parque Buenos Aires. Lá, podem contar com equipamentos de recreação planejados e seguros, para várias faixas de idade, além de jardins, gramados muito bem cuidados e o já famoso “cachorródromo”. 2) O playground previsto no “projeto” tem uma boa porção de berçário, mas devemos lembrar que as crianças crescem rápido – e, então, não poderão mais usar o playground para andar de triciclo, jogar bola e correr, como fazem atualmente. 3) Os balanços do “projeto” têm cordas com altura longa demais, na altura dos altíssimos pilotis, o que aumenta o alcance do arco que é descrito no movimento do balanço, criando o risco da criança se chocar contra o muro do banco Itaú (um problema que, talvez, tenha escapado aos arquitetos que criam o “projeto”). 4) Além de ser caríssima, numa relação custo/benefício absurdamente desproporcional, a ideia de instalar uma estrutura metálica sobre a qual seria instalado um deck de madeira para o “playground” não leva em consideração o acúmulo de sujeira que acabará se criando debaixo do deck, atraindo ratos, baratas e doenças. 5\) o playground do “projeto” descaracteriza, sim, o espaço dos pilotis, interferindo na arquitetura original do prédio. Por que não discutir melhor, e com mais responsabilidade, esse e outros itens do tal “projeto”? Afinal, por que a pressa em realizar essa obra?

  18. Rosangela Petta disse:

    Em tempo, um comentário sobre a proposta da pérgola que está no “projeto”: aquele corredor, que é de serviço, está na face mais quente do Apracs, onde bate muito sol o ano inteiro. Mas o “projeto” prevê uma cobertura de vidro sobre a pérgola — o que formará uma bolha de calor insuportável. Além disso, como fazer para evitar o acúmulo de poluição e sujeira dos pombos, que se formará sobre o vidro? Ah, essa mania de inventar “modernices” sem pensar antes…

  19. Rosangela Petta disse:

    Agora, um comentário sobre o “protejo” em relação aos halls sociais, que são 4 (para aptos finais 1 e 2, finais 3 e 4, finais 5 e 6, finais 7 e 8). Atualmente, têm piso de caco de mármore, pastilhas nas paredes e nos pilotis, além de duas entradas com balcões de alvenaria, em meio arco (também pastilhados), que eram as antigas recepções dos blocos do Apracs. Pois bem: o “projeto” pretende aplicar lambris de madeira nas paredes e em torno dos pilotis, derrubar os meios-arcos e colocar mais placas de vidro nos acessos. A pergunta principal é: pra quê os lambris? No que eles vão contribuir para a “revitalização”, se nem faziam parte do projeto original de Artacho Jurado? Outra pergunta: por que colocar mais vidros (novamente, e sempre eles!), impedindo a circulação de ar entre os corredores social e de serviço, e aumentando a temperatura em cada nicho? Foram aspectos desse tipo que deixaram de ser esclarecidos.

  20. Rosangela Petta disse:

    Ops… correção na primeira linha: “projeto””, não “protejo” (que, afinal, significa exatamente o contrário).

  21. Olá, os condôminos já receberam os manuais de cada apartamento? Estes possuem um capítulo dedicado a história do Artacho e um outro dedicado a história do Apracs.
    Nosso escritório, Oficina Coletiva Arquitetos, foi convidado pelo síndico para desenvolver um caderno com as plantas de todos os pavimentos e de todos os tipos de apartamentos existentes, especificando o que poderia ou não ser feito, em caso de reforma, e que protegesse ao máximo as características originais do edifício.
    Outra coisa que desenvolvemos, e acredito que com muito respeito ao Artacho, foi a rampa de acessibilidade.
    http://www.oficinacoletiva.com.br/50441/999360/projetos/acessibilidade-apracs

  22. Rosangela Petta disse:

    Bruno, quando é que foi feito esse caderno? Não recebemos nada até agora, a não ser uma folha A4 informando que qualquer reforma interna tem que ter projeto assinado por arquiteto ou engenheiro.

  23. No final do ano passado.

  24. Rosangela Petta disse:

    Obrigada pela informação, Bruno. Vou atrás disso.

  25. Rosangela Petta disse:

    Já entramos com pedido de tombamento — e a notícia saiu até na coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, no sábado 15/agosto/2015:

    “Moradores de prédios de Artacho Jurado brigam por tombamento

    CONCRETO E ABSTRATO
    Moradores de prédios em SP projetados por João Artacho Jurado (1907-1983) se mobilizam pelo tombamento dos edifícios. No Apracs, em Higienópolis, a luta é para impedir o início de uma obra que pode descaracterizar o plano original do arquiteto.

    COMO ESTÁ
    O grupo contrário à reforma entrou com pedido de urgência no Conpresp (conselho municipal de preservação do patrimônio histórico) para tentar acelerar a análise do tombamento. Segundo os moradores, que reuniram mais de 200 adesões em um abaixo-assinado, as alterações previstas pelo condomínio incluem cobrir com madeira pastilhas típicas da obra de Artacho e construir um playground.

    COMO ESTÁ 2
    No vizinho edifício Parque das Hortênsias, moradores também se articulam pela preservação. O Conpresp diz que não tem uma definição sobre o caso do Apracs porque o processo está em fase de análise. Artacho desenhou prédios icônicos da capital como o Viadutos, o Planalto, o Louvre e o Bretagne.”

  26. Ricardo disse:

    Faltou piscina e academia nesse projeto. Tsc!

  27. amaury disse:

    faltaram também:

    Espaço Zen
    Espaço Bem Estar
    Espaço Mulher
    Pet Care
    Pet Place
    Espaço Gourmet
    Espelho d’Água
    Forno de Pizza
    Churrasqueira com Grill
    Espaço Fitness
    Trilha Fitness
    Espaço Massagem
    Gazebo
    Redário
    Espaço Relax
    Solarium
    Home Cinema
    Play Space
    Home Office
    Lounge
    Salão de Yoga/Pilates
    Espaço para Piquenique
    Espaço para Motoboy/Motorista
    Praça de Convivência
    Lan House
    Kids Place
    Casa na Árvore
    Fitness Outdoor
    Car Wash
    Espaço Teen

  28. Bom dia,

    Descobri seu blog recentemente. Parabéns. É ótimo.
    Gostaria de saber o final desta história.
    Este projeto de “mediocratização” saiu do papel?
    Espero que não.

  29. Ruy Eduardo Debs franco disse:

    Se fosse retomada a ideia inicial do Jurado, qual seja, que era a união dos dois edifícios, acho que seria a maneira mais honrosa de agradar a gregos e troianos. Algo a se pensar, uma vez que os condomínios já se uniram na luta da preservação, por quê não efetivar essa separação fisicamente? Segundo sei, no hortênsias tem play e piscina. Isto fortaleceria a relação entre os moradores e promoveria uma “reunião” inédita.
    Advogados e arquitetos, uni-vos!

  30. Ruy Eduardo Debs franco disse:

    P.S. Onde eu escrevi “efetivar essa separação” leia-se “efetivar essa união”
    obrigado!

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