Pior que o minhocão

Fotos de esquartejamento são sempre fortes e impressionantes. É o caso desta, de 1969, em que o Bixiga e a Liberdade acabam de ser retalhados.

Trata-se da construção da ligação leste-oeste, aquela via expressa que começa debaixo da praça Roosevelt e vai até o Glicério, cortando os dois bairros e funcionando como uma continuação do minhocão.

Uma continuação, diga-se de passagem, que consegue ser mais violenta que o próprio minhocão. Porque com este, de uma forma ou de outra, ainda dá pra fazer alguma coisa: ele pode ser desmontado, como defendem alguns, ou transformado em uma floreira gigante, como querem outros. Já a destruição urbana que vemos na foto tem bem menos chances de reparação.

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A foto é reproduzida de um slide de 35 mm, cuja autoria eu desconheço. Para quem não se localizou, a rua sobre a qual eu coloquei o endereço do blog é a João Passalacqua/Rui Barbosa. A paralela, logo abaixo, é a 13 de Maio.

15 comentários
  1. Cupertino disse:

    Realmente impressionante esse registro; aliás, a cidade de São Paulo é o exemplo mais ilustrativo da modernização brasileira, ao sabor dos interesses os mais imediatos possíveis e, também por isso, sem planejamento voltado à coletividade. Me desculpem, mas nossas “megalópolis”, especialmente de meados do XX para cá, transformaram-se em verdadeiros “aleijões ” urbanos e não seremos nós que veremos o fim desses canteiros de obras perenes e improvisações que se tornaram sinônimo de nosso absurdo cotidiano.

  2. No falar coloquial, todo o monstro até a Radial Leste também é chamado de Minhocão. Um desastre.

    Toda cidade americana tem essas feridas. Em Boston a maior foi enterrada, mas continua doendo. As europeias tem feridas menores, e as asiáticas piores, pelo que sei. Não é uma bobagem única brasileira.

  3. Eu tenho um texto quase pronto (mas há muito tempo parado) sobre a longa e conturbada construção da Ligação Leste–Oeste. Foi um arrasa-quarteirão, no mais literal sentido da expressão. Ainda acho muito estranho passar lá e imaginar que havia casas, lojas e ruas no mesmo lugar onde hoje há uma trincheira, além do já visível túnel por baixo da Brigadeiro. Justamente por isso, o local meio que me fascina, de uma maneira até mórbida.

    Só uma correção: na verdade, a rua onde está o endereço do blog é a João Passalaqua. Ela só passa a se chamar Rui Barbosa na altura da Manoel Dutra (onde está o “.com”).

  4. Fiquei curioso para ler seu texto, Alexandre. Eu sinto a mesma atração mórbida por esse lugar. Quanto ao nome da rua, obrigado. Eu sempre chamo a extensão inteira de Rui Barbosa, e me esqueço que parte dela tem outro nome. Já corrigi. Abraço!

  5. Beatriz Rivadávia disse:

    E eu desta vez não entendi nada. Totalmente perdida no meio desse trecho da cidade..

  6. Fernando Bessa disse:

    A foto deve ser dos anos 70. O prédio bem alto em frente ao túnel é onde mora minha irmã. Segue a transcrição de minha conversa com ela a respeito.
    “Vi. Não é o teu prédio na foto? Essa foto é de 1969. Vc tinha dito que o prédio é dos anos 80. Fiquei na dúvida , mas acho que é ele.
    Oi Fê.
    Me parece que é ele sim, mas acho que a foto não é de 1969. Não sei quando a ligação leste-oeste (viaduto jaceguai) foi construída, mas acho que foi depois do minhocão. Na escritura do imóvel, consta que ele começou a se construído em 1975 e foi concluído em 26/12/1979. A foto pode ser do final dos anos 1970. “

  7. Obrigado pelo comentário, Fernando, mas a foto é de 1969 mesmo. Pelo menos essa é a data da revelação do filme, registrada na moldura do slide. A ligação leste-oeste foi construída entre 1968 e 1971 (como podemos ver por exemplo aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Liga%C3%A7%C3%A3o_Leste-Oeste), portanto parece coerente que em 1969 as obras estivessem como na foto…

  8. O teatro São Paulo já tinha sido derrubado nessa época?

  9. ^^
    Impressão minha a Rui Barbosa já esta alargada na foto? Sei da matéria sobre ela mas o ângulo da foto é meio ingrato.

  10. Rodrigo disse:

    O Bexiga sofreu uma série de intervenções viárias desastrosas nos anos 60 e 70, como o alargamento da Rui Barbosa/ 13 de Maio e o elevado da 14 Bis.
    Duas curiosidades da foto:
    Você tem ideia do que seja o grande galpão no lugar do atual teatro Sérgio Cardoso?
    Na esquina da Manoel Dutra com a 13 de Maio há três prédios paralelos em construção no que parece ser hoje o lugar de uma escola pública com outra configuração. O que será que houve com os edifícios em construção?

  11. Sheila disse:

    Ali era o antigo Teatro Esperia, com entrada era pela rua Conselheiro Ramalho e, digamos, uma saída pela Rui Barbosa.

  12. Gil Teixeira disse:

    A Sheila levanta um assunto: o Teatro Espéria, assim como o Teatro São Paulo tratado noutro texto, nessa época foram assassinados pelo menos três Teatros, contando com o Teatro de Alumínio que havia na praça 14 Bis no bexiga onde hoje é o elevado da Nove de Julho. E todos demolidos com a promessa para a classe artóstica da construção de outros três… esperamos até hoje.

  13. Gil Teixeira disse:

    Desculpe outro comentário sequente, mas me lembrei de um quarto Teatro morto pela ligação Leste Oeste: o Teatro das Nações que nas décadas de 50 e 60 era um teatro com grandes produções infanto-juvenis, ficava bem ali onde o Minhocão adentra sobre a Avenida São João, problemas acústicos, já que o elevado funciona como um refletor de som, tornou os espetáculos vesperais praticamente impossível. Na década de 70 Dercy Gonçalves tentou a duras custas manter a casa funcionando, luta perdida!

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