Registro involuntário

Pelo enquadramento torto, pela falta de foco e pela composição estranha, a foto parece ser daquelas que a gente tira sem querer, esbarrando por acidente o dedo no disparador. Fotografar em cores nos anos 50 era muito caro, e eu não acho que alguém ia desperdiçar uma pose de kodachrome com uma foto tão mal feita como esta.

De qualquer maneira, acidental ou não, a foto não só ficou bonita como também acabou mostrando muita coisa interessante sobre São Paulo. Eu gosto em especial da mulher negra com criança no colo e trouxa de roupas na cabeça, disputando a cena com um homem branco de terno alinhado: um contraste social frequente no centro de São Paulo, nessa e em qualquer outra época.

Do outro lado da rua, os cartazes colados no muro anunciam os últimos dias de apresentação do Gran Circo Norte Americano. Por esse detalhe, é possível saber que a foto é de 1951, 1954 ou 1957, que são os anos em que esse circo passou por São Paulo. Pelos modelos dos carros, eu acho que está mais pra 51.

O terreno atrás do muro funcionava, pelo jeito, como estacionamento. Ele continuou com esse uso por muito tempo, e só em 2014 virou prédio de apartamentos. O site do empreendimento explica que esse lugar oferece “entretenimento, lifestyle, urbanidade, arquitetura de ponta e conveniência urbana”. Tudo isso em apartamentos de 18 metros quadrados, sobre os quais eu já falei em outro post.

No fundo do terreno, um outdoor anuncia os produtos da Fundição Brasil SA. Esta empresa tinha fábrica na Mooca, onde produzia banheiras de ferro esmaltado, numa época em que a cidade crescia como nunca e os apartamentos já eram produzidos no atacado, talvez com menos “lifestyle”, mas com espaço para banheira.

E por fim, lá no alto, na empena de um edifício, outro anúncio (infelizmente não se sabe de quê) exibe um endereço em letras garrafais: rua da Consolação, 73. O endereço é de uma loja que fica no térreo do próprio prédio. Tentei descobrir o que havia lá nos anos 50, mas não consegui. Hoje é uma agência do Banco do Brasil.

O registro foi feito no início do viaduto 9 de Julho, com o fotógrafo de costas para o hotel Jaraguá. Gosto de pensar que, se tivesse sido tirada de propósito, a foto não carregaria tanta informação.

A imagem é reproduzida de um slide de 35 mm. Vale a pena clicar nela para ver melhor os detalhes.

 

13 comentários
  1. Que post! A foto não seria tão boa sem o seu texto! Mas, no mapa que aparece no site do empreendimento atual (pelo link fornecido), a esquina indicada é a do atual Conjunto Zarvos. É isso mesmo? A foto me parece mostrar a esquina do viaduto com a Rua Quirino de Andrade, onde, aliás, parece que há um estacionamento até hoje.

  2. De fato, o site indica a esquina errada… O empreendimento fica na esquina oposta à do Zarvos, atravessando o cruzamento na diagonal.

  3. Beatriz Rivadávia disse:

    A propaganda do anterior é realmente maravilhosa! Pena que ainda não havia o termo lifestile, pois certamente conseguiriam encaixar nos poucos metros quadrados…… E sabe o que mais me chamou a atenção na segunda foto? A calçada! Perfeita, coisa que não estamos mais acostumados a ver, ainda mais aqui no Rio!

  4. Martin, o ângulo está certo, é o Ed. Vicente Filizola no n° 65 da Consolação, parte dessa empena ainda aparece atrás de outro edilício e do Jaraguá Center, as janelinhas duplas são as mesmas da foto. Já o edifício lá atrás a direita creio ser parte desses edifícios na Av. 9 de julho com a R. João Adolfo. https://goo.gl/maps/BRVmzA3xgZH2

  5. O estacionamento ficava no terreno onde antes se erguia a casa do embaixador Macedo Soares, demolida para a construção do Viaduto Nove de Julho (não me lembro do ano agora, mas deve ter sido no início dos anos 1940). O embaixador mudou-se para uma casa na Rua de São Luís (obviamente, hoje a Avenida São Luís), onde morou até morrer, nos anos 1970.

  6. Paulo R Razza disse:

    Memória é uma coisa estranha. Para mim o que mais chamou a atenção foram as “tartarugas” amarelas, onipresentes até os anos 70 e mesmo nos anos 80 ainda podiam ser encontradas. Parece até que a luz foi pensada para destacá-las.

  7. engraçado que no suposto estacionamento todos os automoveis são brancos e aparentemente do mesmo modelo,não seria uma agência?

  8. Os quatro automoveis brancos e supostamente do mesmo modelo no “estacionamento” parece estranho,não seria uma revenda/agencia?
    Gostaria de saber como o local foi identificado ou se havia menção na foto
    Num primeiro instante pensei em Mesbla no anuncio do edificio

  9. Não havia nenhuma indicação exceto o endereço que aparece na foto, mas foi fácil identificar o local: fui verificar o que há nesse endereço, e encontrei o mesmo prédio da imagem!

  10. Claudio disse:

    Minha irmã trabalhou na Fundição Brasil nos anos 70/80. Um tio meu também trabalhou lá na época desta foto. Ele trabalhava na fundição das banheiras. O dono era pai dos corredores Paulo e Zeca Giafone.

  11. Martin,agora entendi,na minha cabeça esse “anuncio” poderia estar em qualquer lugar da cidade,por sorte é no mesmo local da foto,caso contrario ficaria bem mais dificil descobrir,obrigado

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