Alice nos Campos Elíseos

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Não sei quase nada sobre Alice Lebeis. Mas pelo que achei na internet, fiquei sabendo que ela viveu em São Paulo, onde morreu em dezembro de 1960, aos 84 anos de idade. Em 1904, portanto, quando escreveu este cartão, ela tinha 27 anos, ou talvez já tivesse feito 28.

Parece que por essa época Alice se dedicava ao intercâmbio de postais, um passatempo bastante comum num tempo em que as pessoas não dispunham do Facebook para fazer amizades virtuais. Uma de suas correspondentes foi uma tal Madame Vanderman, que entre 1903 e 1904 recebeu dezenas de cartões como este, com vistas de São Paulo, e deve ter enviado outros tantos de Paris. Os que recebeu foram mantidos juntos até agora, e acabam de aparecer à venda em um site especializado, por 20 euros cada um. Eu acho caro.

Em geral, como era de praxe, em cada cartão que enviava Alice escrevia um recadinho curto com uma pequena explicação em francês sobre o lugar retratado. Neste aqui, porém, resolveu fazer diferente: mandou ver um poema inteiro, com quatro estrofes, e precisou espremer a letra para que coubesse tudo no cartão.

O texto se intitula “Le Rosier” (A Roseira), e começa assim:

Je l’ai planté, je l’ai vu naître,
Ce beau rosier où les oiseaux,
Au matin, près de ma fenêtre,
Viennent chanter sur ses rameaux

(Eu a plantei, eu a vi nascer
Essa linda roseira onde os pássaros
Pela manhã, perto da minha janela,
Vêm cantar sobre seus ramos)

Alice certamente colocou o poema no cartão por achar que ele ornava com a paisagem bucólica fotografada por Guilherme Gaensly. Num primeiro momento, eu imaginei que os versos fossem dela própria, mas o Google logo desmentiu minha impressão. Eles são na verdade uma versão meio piorada (Alice devia estar distraída, escrevendo de memória, e acabou errando um pouco) de uma conhecida letra de música. E não é uma letra qualquer: foi escrita no século 18 por Alexandre Deleyre (1723-1796), para uma canção composta por ninguém menos, vejam só, do que o filósofo Jean-Jacques Rousseau.

Mas nessa história toda, o que soa mais curioso hoje em dia é que uma paisagem dos Campos Elíseos, com a rua Barão de Piracicaba em primeiro plano, tenha lembrado a alguém uma música que fala sobre flores, passarinhos e tranqulidade na janela…

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(A primeira imagem é de um cartão postal à venda na internet; a segunda é das Obras Completas de Rousseau, edição de 1825. Agradeço ao Marcos César da Silva, que me ajudou a identificar os Campos Elíseos na foto.)

3 comentários
  1. Mário Videira disse:

    Alice Lebeis era filha de Guilherme Lebeis, que foi dono do Hotel de France, na Rua Direita. Parece que ele perdeu toda a fortuna após um golpe do noivo de Alice, que sumiu do mapa. Alice era tia da grande cantora lírica Magdalena Lebeis, que conviveu com Mário de Andrade, Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. Alice era tia-avó do poeta Paulo Bomfim, que tem um livro delicioso que conta este e outros “causos”: Insólita Metrópole: São Paulo nas crônicas de Paulo Bomfim (Ateliê Editorial).

  2. Eliane Neves disse:

    Oi bom dia…tenho algumas fotos antigas interessantes, posso envia-las por aqui?

    GRata,

    Eliane-

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