A diferença que meio metro faz

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Um caixote está terminando de ser construído, a toque de caixa, na rua Maranhão 812, em Higienópolis.

O que será que vai funcionar nele? A faixa horizontal em tons de azul e verde, que atravessa o prédio de lado a lado, nos dá a resposta: será uma farmácia. A faixa é parte da identidade visual da rede Droga Raia.

Mas não é a primeira vez que este endereço é usado comercialmente. Ao contrário: desde os anos 70, uma longa sequência de estabelecimentos funcionou nele, aproveitando uma bela e convidativa construção sobrevivente dos tempos em que o bairro não era verticalizado. O último ocupante do casarão foi o que mais durou: um restaurante vegetariano, que ficou lá por cerca de 20 anos e fechou as portas há dois meses.

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Eu me pergunto por que o pessoal que está entrando agora considerou que uma casa tão rara e bela não podia ser usada como farmácia. Acharam que as pessoas não iam entrar nela para comprar seus remédios? Que a drogaria não ia dar certo se seu prédio não fosse também uma droga?

Nem mesmo a falta de espaço para carros pode ter sido a razão. Na frente do antigo casarão havia seis vagas!

A resposta mais provável nos é dada, novamente, pela desengonçada faixa horizontal. É que a velha casa não permitia o expediente simples, porém decisivo, para o qual o caixotão foi projetado: instalar a enorme logomarca meio metro para dentro da fachada, burlando assim a lei cidade limpa.

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(As três primeiras fotos são minhas, tiradas em 19 de setembro, 25 de julho e 26 de julho de 2017. A quarta é do Google.)

15 comentários
  1. Claudio Bassi disse:

    …a força da grana que constrói e destrói coisas belas…..

  2. Sheila Schneck disse:

    Mais uma demolição lamentável… Andando pelas ruas dos bairros centrais da cidade é possível ver um número (quase infinito) de construções que deram lugar a estacionamentos e construções obtusas como essa.
    Haverá algum limite para a sanha demolidora?

  3. josé carlos vaz disse:

    A Droga Raia, pelo menos no quesito arquitetura, é pior que a Drogasil, pois esta instalou uma farmácia em uma simpática casa na Av. Aclimação, sem descaracterizar muito a fachada.

  4. A força da grana que destrói coisas belas.
    Enquanto na Itália existe cursos universitários para preservação e para reconstrução (devido principalmente aos terremotos) de imóveis antigos, no Brasil, as construtoras, a falta de amor pela história, derruba imóveis, árvores centenárias.
    Lamentável.

  5. Michel rodrigues disse:

    Boa noite, geralmente porque não aceitam adaptações de uso que, nessa casa original, provavelmente seriam necessárias, como corredores separados ja que o estrutural dessa casa não permitiria abrir totalmente sem obras de grande intervenção e custo. Qualquer cidadão pode requer o
    Tombamento de um bem material e imaterial, de forma simples e sem
    Custo. Infelizmente trocaram uma casa que tinha um conceito de beleza que esta nova construção não tem. Mas a rede agora vai implantar tudo exatamente como o plano exige sem alterações. É isso. Tomara que a árvore seja mantida!

  6. Vera disse:

    Apagamos nossa história em cada canto da cidade e também das nossas mentes.
    Moro muito perto do local e fiquei indignada com a derrubada da casa.
    E agora sabendo que é para colocar uma farmácia, fico me perguntando: será que é compensador derrubar um imóvel lindo, construir “um caixote” para ser uma farmácia??
    De diversas formas, somos um povo doente.

  7. Carlos Fenerich disse:

    Antiga sede de um bar icônico dos ano 70 , o ” Dama da Noite “. Que triste

  8. Ricardo disse:

    Um atentado ao bairro. Total falta de siintonia. Nao vera um centavo de meu dinheiro.

  9. Maria Aparecida disse:

    Em Santos essa rede esta fazendo a mesma coisa. Já demoliu vários casarões lindos.

  10. Sibele Andreoli disse:

    Sou vizinha dessa lamentável aberração, não sou contra o novo, mas acredito que falta de repertório para se contruir algo que não seja um caixote aliado ao desprezo do poder econômico ignorando o que existe em torno e os que ali vivem é muito triste não contribui pra nossa SP. Não precisa ser assim.

  11. Heloisa disse:

    Um crime, em nome de suposta modernidade, construído a mando de gente que vai à Europa, por exemplo, e acha lindo que as cidades tenham casas comuns, com muito mais de 200 anos, ocupadas por residências e comércios em plena atividade.

  12. Vera Guimarães disse:

    Muito triste. Cada vez mais perdemos a nossa identidade e história. Em nome do progresso? Ele pode muito bem coexistir com o passado. É a morte lenta. 😢

  13. roseli domingues disse:

    Triste Brasil!!

  14. Celso Henrique Lopes disse:

    Conseguem enfeiar a cidade. Deveria haver uma multa para isso.

  15. Não tem problema não….depois a farmácia compensa a perda colocando aqueles painéis de plástico com fotos antigas das primeiras unidades da DrogaRaia nos anos 30, lá no interior de SP…(modo irônico)

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