Olhai por nóis

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Erguido entre 1954 e 1979, o falso conjunto jesuítico do Pátio do Colégio (ou Pateo do Collegio como alguns teimam em grafar afetadamente) é uma réplica do que se supõe ter sido a construção que originou o núcleo inicial da atual cidade de São Paulo. Embora ele tente parecer (e muitos incautos acreditem ser de fato) remanescente do século 16, o prédio é na verdade um exemplar paulistano de “falso histórico”. Finge ser antigo, e até engana bem, mas na verdade foi construído em época bastante recente.

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A história do prédio, que na foto acima, de 1976, aparece em sua última fase de construção, é conhecida e não vale a pena retomá-la aqui. O que quero mesmo comentar é o acontecimento que causou comoção nas redes sociais e na grande imprensa esta semana: na terça-feira, 10 de abril, o edifício amanheceu com um garrafal “OLHAI POR NÓIS” pixado (ou pichado, como preferem os puristas da língua) em sua fachada.

A intervenção usou técnica difundida desde a década de 1990 em cidades como Los Angeles, Nova York e Paris, mas que só em 2012 desembarcou em muros brasileiros: o uso de extintores de incêndio carregados com tinta, o que permite intervenções de grande proporção. Graças a essa técnica, numa ação que durou pouco mais de um minuto, gravada pelas câmeras de segurança do local, a fachada foi inteiramente coberta, o que teria sido impossível de se produzir com os tradicionais sprays.

Reações indignadas vieram instantaneamente. Uma das primeiras foi a do próprio poder público: poucas horas depois da ação, em uma inflamada postagem no Facebook, o subprefeito da Sé, Eduardo Odloak, qualificava a intervenção como “um CRIME contra a cidade e TODOS os paulistanos de bem” (grifos no original). Em vídeo gravado no próprio local, o subprefeito anunciava: “Nós não vamos deixar quieto. Isto aqui é um ato criminoso contra a nossa cidade!”.

A grande imprensa aderiu ao discurso, classificando a pixação como ato de vandalismo e o prédio pixado como edifício histórico. Essa construção discursiva – a de um condenável ato criminoso cometido contra edifício histórico – dominou também o debate que se seguiu nas redes sociais. Este último, como costuma acontecer, se deu de maneira desalentadoramente rasa e estereotipada. Não faltou nem mesmo quem atribuísse o crime a apoiadores do PT, enxergando indícios de autoria na cor vermelha usada na intervenção!

Também não faltou no raso debate quem se incomodasse com a grafia do pronome pessoal empregado na pixação: não bastasse agredir o patrimônio, agrediu-se também a língua portuguesa. “É nós e não nóis!”, “Nem escrever direito sabem?”, gritaram não poucos puristas da língua, para os quais até os crimes devem ser cometidos respeitando a norma culta.

Não entenderam, esses zeladores do prédio e do idioma, que a súplica pixada no Pátio do Colégio não é para ninguém olhar por nós. Ao contrário, nós é que fomos chamados a olhar por “nóis”, aqueles para os quais jamais olhamos. É sintomático que, mesmo após uma súplica tão eloquente, toda nossa atenção e indignação tenham se dirigido à agressão ao prédio, incapazes que somos de olhar para “nóis”. A própria população que se refugia no Pátio, embora captada pelas mesmas imagens de segurança, não mereceu qualquer parcela de atenção.

Mas os indignados podem ficar tranquilos: em pouco tempo a situação se normalizará. A fachada ficará branca de novo (oh, desperdício de recursos!), e “nós” poderemos voltar a admirar orgulhosos esse prédio histórico de 1979. Ainda que, para tanto, tenhamos que desviar de uns tantos “nóis” inconvenientes que insistem em ficar por lá atrapalhando.

Tudo isto pra dizer que São Paulo precisava mesmo ouvir um vigoroso “olhai por nóis”. Podem me pixar.

(A foto recente é de Pedro Pinto / fotospublicas.com. A de 1976 é de Waldemir Gomes de Lima / acervo da Prefeitura de São Paulo. O texto é uma versão ligeiramente modificada de um artigo que publiquei esta semana na revista Minha Cidade, do portal Vitruvius.)

13 comentários
  1. Claudio B. Elias disse:

    Faz algum tempo venho pensando no assunto: o prédio do Palácio do Governo que ocupava o local e foi demolido, tinha maior relevância histórica do que a Réplica atual.

  2. Mariana disse:

    Pixar assim pode, eu gosto

  3. José Adolpho da Silva Gordo Filho disse:

    Eu vi a antiguidade ser construída.
    Foi construída pela Construtora Adolfo Lindenberg. Seu dono era membro da TGP.
    Se não estou enganado foi uma ação chefiada pelo Pe. Sabota de Medeiros, S.J.
    Para arrecadar dinheiro, criaram a Ordem dos Cavaleiros de São Paulo. Meu pai, como contribuinte, recebeu um diploma e uma medalha. Virou Cavaleiro.
    A construção foi feita com concreto armado. Não só as colunas, como também uma viga de concreto na fachada, abaixo do telhado. Realmente uma construção histórica. (?!?!?!)

  4. Eu não consigo concordar com uma pichação destas, ainda que também não tenha entendido tanta gente falar como se fosse um patrimônio de quatro séculos e meio, gente que teria a obrigação de saber que o prédio não tem nem meio século.

  5. Alvaro disse:

    “…Podem me pixar”
    Desculpe-me, mas creio não valer a pena .

  6. Margarida Barbosa disse:

    E as pessoas, inclusive crianças bem pequenas, que se abrigam ali, dormindo e vivendo no chão, continuam invisíveis até nos comentários do artigo. Olhai por nois!!!

  7. Margarida, na verdade esquecidos até pelos pichadores, que segundo depoimentos dos próprios moradores, estavam dormindo e foram acordados e mandados a saírem de lá.
    Eu acho que o país está doente, embriagadas por suas ideologias e dando prioridade a pichar seu opositor do que realmente defender aquilo que acredita. Isso, sem dúvida, é mérito do PT, que conseguiu dividir o país com o objetivo de se perpetuar no poder.
    Me lembra um pouco o filósofo Martin Heidegger sendo seduzido pelo nazismo.

  8. Gê César disse:

    Concordo com você Martin. A pixação ( com “x” mesmo), assim como o grafite, são expressões que conversam, dialogam ou gritam com a cidade. Considero pixação, pensamentos ou frases que estabelecem essa conexão. Trata-se de uma apropriação de um espaço público (com visibilidade pública) para esse fim. Aqueles outros rabiscos, apenas como assinatura, que se apropriam do público para uma causa privada, eu colocaria em outra categoria que não a pixação . Não é o caso de “Olhai por nóis”. A frase escancara um apelo, um pedido veemente dos esquecidos. Uma das mais contundentes pixações desses nossos tempos de fabricação de injustiças.

  9. Fernando Ferreira Lima Martines disse:

    E o 2o Batalhão de Guardas, edifício histórico datado de meados século XIX, a pouco mais de 500 metros dali abandonado e apodrecendo, e os “defensores” do patrimônio histórico nem tomam conhecimento.

  10. ruy debs disse:

    Queridão.
    Obrigado por olhar por nós.
    Abraços

  11. roseli domingues disse:

    Que decepçao, predio de 1979 hahahaha nem sabia disso, cada vez mais tenho vergonha de nós seres humanos… Precisamos olhar para nossos irmãos, sinto dor no peito ao ver tanta gente morando nas calçadas, me sinto incapaz..

  12. Mesmo que seja um apelo, é um apelo errado. Muitos dos cidadãos que são este “nóis” não gostam, nem querem saber, de prédios sendo pichados e atacados por motivos difusos.

    Querem cidadania, mas também querem ordem – o que não é nenhum paradoxo, apenas o desejo de uma vida em paz.

  13. Olha só que ironia, chamar de desperdício a limpeza de um edifício que possui valor histórico para a cidade, quando a maior preocupação foi em depredá-lo para gritar por atenção. Centenas de edifícios são pichados (se sabe a grafia correta, não tente se incluir nos excluídos), a cidade toda constantemente depredada, suja e esquecida, e o alvo da “intervenção” foi logo o monumento erguido à sua origem, que já foi uma escola. Qual olhar que se pretendia atrair mesmo? O da permissividade? Ainda bem que essa ação foi apagada, após ser largamente reprovada por quem ainda nutre algum amor verdadeiro pela cidade.

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