Foto dinâmica

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Fotos são imagens estáticas, filmes nos permitem ver movimento. Tem sido assim desde a invenção do cinema.

Mas certas fotos são teimosas, e é difícil não ver movimento nelas. É o caso desta aqui, de uma São Paulo em plena metamorfose, em 1957. Eu, pelo menos, olho pra ela e tenho a impressão de ver a cidade “se mexendo”.

O viaduto em primeiro plano é o Major Quedinho, sobre a avenida 9 de Julho. Está lá o edifício Major Quedinho, concluído poucos anos antes, em 1954. Sua bonita fachada em curva com sacadas, hoje coberta de hera, virou marca registrada do local.

E em torno do viaduto e do prédio, tudo o que se vê é paisagem em transformação. Na esquerda da foto, um edifício Viadutos ainda em obras (reparem nas aberturas ainda vazadas, sem esquadrias). Dali para a direita, vários esqueletos de concreto sendo erguidos, e outras tantas torres recém-acabadas. E entre eles estão velhas casas agonizantes e muitos terrenos cercados por tapumes, onde em breve pipocarão mais e mais esqueletos. A dinâmica está evidente na foto, sem que precisemos de um filme para mostrá-la.

A foto é um slide Kodachrome, coisa muito rara no Brasil dos anos 50. Embora essa tecnologia estivesse disponível em outros lugares do mundo desde 1935, entre nós ela ainda não tinha se difundido. Os filmes eram caros, e por aqui não havia onde revelá-los.

Isso, junto com o fato de a foto ter sido tirada de uma janela de hotel (o Jaraguá, na esquina da Consolação com a Martins Fontes) e ter aparecido à venda em Rhode Island, nos Estados Unidos, indica que o fotógrafo não é daqui. Só pode ser algum turista ou viajante de passagem pela cidade.

Eu fico pensando o que terá atraído a atenção desse gringo, motivando-o a fazer o clique. Minha aposta é que foi justamente essa feição mutante da paisagem: o novo substituindo o velho e os vazios sendo preenchidos, num processo que, de tão tão rápido, permitia tirar fotos “dinâmicas”.

5 comentários
  1. João Paulo de Oliveira disse:

    Saudações paulistanas adensadas.

  2. Gê César De Paula disse:

    Uma pena! As trepadeiras do edifício Major Quedinho morreram e seus esqueletos ainda estão lá…

  3. Puxa, que pena. Eu não vi isso. Me lembro dele com a fachada toda verde…

  4. Apesar do movimento, algumas permanências, olhando o google (foto de 2016):
    – o edifício à esquerda do Maj. Quedinho, na 9 de Julho, continua com o barranco ao lado, não edificado.
    – olhando a R. da Abolição (à esquerda, no alto, saindo do Ed. Viadutos), algumas das casas antigas ainda estão de pé, mas muito modificadas. Mas há uma, amarela (2016), que deve estar na foto: ao lado do primeiro edifício alto, à direita.

  5. zebuenoblog disse:

    Esse movimento de demolições e construções aconteceu intensamente no centro nos anos 50. Hoje, se vc der uma volta pela Vila Mariana, verá acontecer a mesma coisa. As demolições de casas e conjuntos de casas antigas, com o consequente “lançamento” de prédios de apartamentos, a maioria de cubículos moderninhos de 25 m², estão em quase todos os quarteirões!

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