arquivo

antes e depois

A imagem acima é de um antigo slide de 35 mm, com a data de revelação impressa na moldura (outubro de 1960), mas sem nenhuma indicação de local. Mesmo assim, desde que a vi, eu desconfiei que fosse de São Paulo.

A fim de confirmar essa impressão, fui pesquisar os jornais da época. Não foi difícil descobrir que a American Marietta SA Tintas e Lacas de fato teve uma fábrica em São Paulo, inaugurada por volta de 1955. O endereço, citado em vários anúncios, era em Santo Amaro: rua Piratininga 84, esquina com o número 3504 da avenida João Dias.

Para ter certeza mesmo, fui atrás da imagem aérea de São Paulo em 1958, disponível na internet. E, de fato, pude ver que o que existia nessa esquina (local assinalado pela seta) era muito compatível com o slide. Dá para distinguir tanto o galpão da fábrica como a torre de concreto à sua direita. A partir daí, já não tive mais dúvidas…

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É claro que, de 1960 pra cá, muita coisa mudou na esquina em questão. A rua Piratininga mudou de nome, e hoje se chama Dr. Rubens Gomes Bueno. A avenida João Dias teve alterada a numeração, e o antigo 3504 corresponde ao atual 1800. A fábrica da American Marietta foi demolida, e seu lugar foi ocupado por outra indústria, muito mais poderosa. Hoje existe lá um templo da Igreja Universal do Reino de Deus.

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(O slide de 1960 é de autoria desconhecida; os dois anúncios são, respectivamente, da Folha da Manhã de 29 de novembro de 1959 e do Correio da Manhã de 4 de maio de 1955; a imagem aérea é do site geoportal.com.br; a imagem atual é do Google.)

Pelo enquadramento torto, pela falta de foco e pela composição estranha, a foto parece ser daquelas que a gente tira sem querer, esbarrando por acidente o dedo no disparador. Fotografar em cores nos anos 50 era muito caro, e eu não acho que alguém ia desperdiçar uma pose de kodachrome com uma foto tão mal feita como esta.

De qualquer maneira, acidental ou não, a foto não só ficou bonita como também acabou mostrando muita coisa interessante sobre São Paulo. Eu gosto em especial da mulher negra com criança no colo e trouxa de roupas na cabeça, disputando a cena com um homem branco de terno alinhado: um contraste social frequente no centro de São Paulo, nessa e em qualquer outra época.

Do outro lado da rua, os cartazes colados no muro anunciam os últimos dias de apresentação do Gran Circo Norte Americano. Por esse detalhe, é possível saber que a foto é de 1951, 1954 ou 1957, que são os anos em que esse circo passou por São Paulo. Pelos modelos dos carros, eu acho que está mais pra 51.

O terreno atrás do muro funcionava, pelo jeito, como estacionamento. Ele continuou com esse uso por muito tempo, e só em 2014 virou prédio de apartamentos. O site do empreendimento explica que esse lugar oferece “entretenimento, lifestyle, urbanidade, arquitetura de ponta e conveniência urbana”. Tudo isso em apartamentos de 18 metros quadrados, sobre os quais eu já falei em outro post.

No fundo do terreno, um outdoor anuncia os produtos da Fundição Brasil SA. Esta empresa tinha fábrica na Mooca, onde produzia banheiras de ferro esmaltado, numa época em que a cidade crescia como nunca e os apartamentos já eram produzidos no atacado, talvez com menos “lifestyle”, mas com espaço para banheira.

E por fim, lá no alto, na empena de um edifício, outro anúncio (infelizmente não se sabe de quê) exibe um endereço em letras garrafais: rua da Consolação, 73. O endereço é de uma loja que fica no térreo do próprio prédio. Tentei descobrir o que havia lá nos anos 50, mas não consegui. Hoje é uma agência do Banco do Brasil.

O registro foi feito no início do viaduto 9 de Julho, com o fotógrafo de costas para o hotel Jaraguá. Gosto de pensar que, se tivesse sido tirada de propósito, a foto não carregaria tanta informação.

A imagem é reproduzida de um slide de 35 mm. Vale a pena clicar nela para ver melhor os detalhes.

 

Quando a estação da Luz foi destruída por um incêndio pela primeira vez, em 1946, o governo federal demorou 5 anos para reconstruí-la.

E como se vê nas fotos, ao final dos trabalhos a estação acabou ficando até maior do que era antes. Na imagem de cima, anterior ao incêndio, a ela tem dois andares. Na de baixo, depois da reconstrução, há um terceiro andar que não existia antes. Eu prefiro a primeira versão, mas a segunda também ficou muito bonita.

Esta versão nova, com três andares, foi destruída ontem. Agora vamos ver quanto o governo estadual vai demorar para reconstruir a estação de novo, e como vai ficar desta vez. Será uma medida de quanto regredimos.

As fotos são de cartões postais pesquisados pelo Luís Eduardo Salvucci Rodrigues.

E quem gostou deste post provavelmente também gostará deste outro, publicado um ano e meio atrás.

Hoje em dia é até difícil imaginar a avenida Bernardino de Campos, no Paraíso, sem suas frondosas tipuanas separando as duas pistas. Quem passa por ali tem a impressão de que a avenida já veio de fábrica com as árvores, de tão incorporadas que elas estão ao local.

Esta foto mostra que nem sempre foi assim: aqui elas aparecem recém-plantadas, no final dos anos 40. O interessante é que, apesar de sua aparência frágil, as árvores são uma das poucas coisas da foto que sobreviveram até hoje.

Outros que ainda resistem são a Panificadora Viana (embora muito modificada) e o prédio mais alto, à esquerda. Graças a eles, é possível reconhecer o local: estamos na esquina da rua Afonso de Freitas.

A foto é do acervo pessoal de um leitor, o Emilio Lucchi, que a enviou para o blog. Obrigado, Emilio!

Atualização em 31 de dezembro: Outro leitor, o Alexandre A. Reis, passou por lá estes dias e fotografou o local. O ângulo é praticamente o mesmo, embora na foto original o fotógrafo estivesse um pouco mais recuado em relação à esquina com a Afonso de Freitas. Obrigado pela contribuição, Alexandre!

Em 1970, as vitrines de vidro liso Vidrobrás transformavam os indiferentes em compradores.

Mas também refletiam a arquitetura do entorno, e se não fosse esse detalhe eu não teria reconhecido o lugar.

Estamos na praça da República, esquina com rua do Arouche. A vitrine continua lá, mas a região mudou um pouco. Para ver o local hoje, é só clicar aqui: https://goo.gl/maps/4m0U3.

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O anúncio saiu na revista Veja em 24 de junho de 1970.

Outro dia caiu nas minhas mãos a publicidade de um prédio de apartamentos que está sendo lançado no centro da cidade. O anúncio simula um convite pessoal, assinado pelo diretor da incorporadora Settin, e o texto sugere que se trata de um um evento refinado e grandioso:

“O momento é chegado, e com grande prazer convido você para a avant-première de lançamento do menor apartamento do Brasil”.

A combinação de “grande prazer” e “menor apartamento” é muito sugestiva. Fica claro que a incorporadora resolveu aplicar ao marketing aquela velha e conhecida regra segundo a qual o que importa não é o tamanho do dispositivo, mas sim o prazer que ele proporciona.

Parece fazer sentido: se é verdade para tanta coisa, por que não funcionaria também para apartamentos? A sacada é brilhante!

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