arquivo

antes e depois

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A foto foi enviada pelo cineasta Lufe Steffen, e de cara isso me deixou muito feliz: há tempos eu sou um admirador do trabalho do Lufe (adorei “São Paulo em Hi-Fi”, documentário sobre a vida LGBT na cidade nos anos 60 e 70), mas não fazia ideia de que ele conhecia o blog. Fiquei sabendo agora que ele não só conhece, mas é um leitor assíduo!

A foto é daquelas que, à primeira vista, só fazem sentido para um círculo restrito de pessoas e não têm muito a dizer para quem é de fora. Ela mostra os pais do Lufe, posando felizes e cheios de expectativa em 1975. O próprio Lufe de certa forma também está na foto, tirada dias antes do nascimento dele. Mas para quem não os conhece, a cena não diz lá grande coisa.

Mas isso é só à primeira vista, pois a foto também é daquelas que, com o tempo, viram interessantes documentos acidentais da vida na cidade.

O que confere essa característica a ela é o local que casal escolheu para a pose. Eles estão na porta de casa, mais precisamente no jardim da entrada do Edifício Marajó, prédio de classe média na rua Ministro Gabriel Rezende Passos, esquina com rua Inhambu, em Moema.

Em 1975, esses lugares ainda se prestavam a fotos de família como esta. De lá para cá, perderam completamente essa vocação. Qual é o casal que, hoje em dia, vai querer eternizar esse momento tendo ao fundo, como cenário, a guarita, a grade e os equipamentos de segurança do prédio?

Para quem quiser tirar a prova, aqui vai uma foto atual, tirada do mesmo ângulo pelo próprio Lufe.

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A foto dos anos 50 não é minha: é da coleção particular do Werner Keifer, que a postou no Facebook pedindo ajuda para identificar o local. Eu não conheço o Werner, mas gostei tanto da foto que peço licença a ele para republicá-la aqui, junto com a resposta.

O lugar de fato se alterou muito, mas ainda assim dá pra saber onde é. Sugiro que antes de continuar a leitura, deem uma olhada atenta e tentem reconhecer. Alguém arrisca um palpite?

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Caso não tenham conseguido, aqui vai a resposta: a foto é da avenida General Olímpio da Silveira, antes do desastre que se abateu sobre ela com a chegada do minhocão.

Quem atesta o que estou dizendo é ninguém menos  que João Artacho Jurado. Dos prédios à direita, o mais alto é o Edifício Pacaembu, construído por ele no número 386 da avenida. Tanto esse prédio como seu vizinho mais baixo continuam lá até hoje e se alteraram muito pouco, embora não seja mais possível fotografá-los assim inteiros. São prédios que estão lá mas perderam a identidade, roubada pelo elevado. Ninguém mais os vê.

E caso alguém ache o Artacho Jurado insuficiente, também tem Igreja Católica que não me deixa mentir. Lá no fundo, no centro da foto, está a paróquia São Geraldo, do Largo Padre Péricles. Nessa época era possível avistá-la de longe. Hoje não é mais.

O que não existe mais, evidentemente, é o espetacular casarão da esquerda, que ficava na esquina do minhocão com a rua Conselheiro Brotero. Em seu terreno existe hoje um posto de gasolina, que combina muito mais com o minhocão. Quem se interessou pela casa vai gostar de ler este outro post, de 2012: https://goo.gl/5hDJwD.

E para quem quiser ver o aspecto atual do lugar, deixo aqui a foto do Google:

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Um caixote está terminando de ser construído, a toque de caixa, na rua Maranhão 812, em Higienópolis.

O que será que vai funcionar nele? A faixa horizontal em tons de azul e verde, que atravessa o prédio de lado a lado, nos dá a resposta: será uma farmácia. A faixa é parte da identidade visual da rede Droga Raia.

Mas não é a primeira vez que este endereço é usado comercialmente. Ao contrário: desde os anos 70, uma longa sequência de estabelecimentos funcionou nele, aproveitando uma bela e convidativa construção sobrevivente dos tempos em que o bairro não era verticalizado. O último ocupante do casarão foi o que mais durou: um restaurante vegetariano, que ficou lá por cerca de 20 anos e fechou as portas há dois meses.

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Eu me pergunto por que o pessoal que está entrando agora considerou que uma casa tão rara e bela não podia ser usada como farmácia. Acharam que as pessoas não iam entrar nela para comprar seus remédios? Que a drogaria não ia dar certo se seu prédio não fosse também uma droga?

Nem mesmo a falta de espaço para carros pode ter sido a razão. Na frente do antigo casarão havia seis vagas!

A resposta mais provável nos é dada, novamente, pela desengonçada faixa horizontal. É que a velha casa não permitia o expediente simples, porém decisivo, para o qual o caixotão foi projetado: instalar a enorme logomarca meio metro para dentro da fachada, burlando assim a lei cidade limpa.

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(As três primeiras fotos são minhas, tiradas em 19 de setembro, 25 de julho e 26 de julho de 2017. A quarta é do Google.)

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O menino que aparece à esquerda, acompanhado da mãe e do primo, é o pianista Fábio Caramuru. Eu pedi, e ele generosamente deixou que eu publicasse a foto aqui no blog.

Eu jamais reconheceria o local, mas o próprio Fábio explica: é a rua Cravinhos, no Jardim Paulista, com a avenida 9 de Julho ao fundo.

As árvores lá atrás ficavam ao lado do Colégio Assunção. Foram derrubadas mais tarde para construção de um supermercado Eldorado, hoje Carrefour, com entrada pela rua Pamplona.Hoje elas fazem falta na paisagem do local.

E além das árvores, também fazem falta os jardins de muro baixo, a rua da paralelepípedos e a calçada feita de caquinhos. Tudo isso dava à rua uma atmosfera de gentileza e tranquilidade, que combinava à perfeição com o coração estampado na roupinha do Fábio.

Hoje o local está assim:

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(A primeira foto, de 1958, é do acervo pessoal de Fábio Caramuru. A segunda, de 2014, é reproduzida do Google.)

Odila é a diferentona da foto. Ela é a única que teve o nome anotado, e a única que posou separada das colegas, ao lado de seu garboso professor.

As razões de tanto privilégio se perderam junto com os envolvidos: a foto tem 97 anos e não sobrou ninguém que possa explicá-las.

A única que restou é a escada que emoldura a pose, que evidentemente não pode contar a história. Mas só o fato de ela ter sobrevivido já é notável em São Paulo, onde o normal é que as construções (sobretudo as belas) desapareçam antes das pessoas.

Pensando bem, a escada é outra diferentona na foto.

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A foto antiga, com um 1919 anotado no verso, estava em um sebo em Santos. A foto atual fui eu mesmo que tirei hoje de manhã, na Escola Estadual Conselheiro Antonio Prado, na Barra Funda.

A imagem acima é de um antigo slide de 35 mm, com a data de revelação impressa na moldura (outubro de 1960), mas sem nenhuma indicação de local. Mesmo assim, desde que a vi, eu cismei que era de São Paulo.

Para confirmar, fui pesquisar os jornais da época. Não foi difícil descobrir que a American Marietta SA de fato teve uma fábrica em São Paulo, inaugurada por volta de 1955. O endereço, citado em vários anúncios, era em Santo Amaro: rua Piratininga 84, esquina com o número 3504 da avenida João Dias.

Para ter certeza mesmo, fui atrás da imagem aérea de São Paulo em 1958, disponível na internet. E, de fato, pude ver que o que existia nessa esquina (local assinalado pela seta) era muito compatível com o slide. Dá para distinguir tanto o galpão da fábrica como a torre de concreto à sua direita. A partir daí, já não tive mais dúvidas…

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É claro que, de 1960 pra cá, muita coisa mudou na esquina em questão. A rua Piratininga mudou de nome, e hoje se chama Dr. Rubens Gomes Bueno. A avenida João Dias teve alterada a numeração, e o antigo 3504 corresponde ao atual 1800. A fábrica da American Marietta foi demolida, e seu lugar foi ocupado por outra indústria, muito mais poderosa. Hoje existe lá um templo da Igreja Universal do Reino de Deus.

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(O slide de 1960 é de autoria desconhecida; os dois anúncios são, respectivamente, da Folha da Manhã de 29 de novembro de 1959 e do Correio da Manhã de 4 de maio de 1955; a imagem aérea é do site geoportal.com.br; a imagem atual é do Google.)

Atualização em 29 de outubro: Descubro hoje mais duas fotos da fábrica. Não são a cores, como a primeira, e a intenção do fotógrafo parece ter sido mostrar os veículos da empresa, e não o local. De qualquer forma, achei as imagens interessantes e resolvi colocá-las aqui, como registro…

Pelo enquadramento torto, pela falta de foco e pela composição estranha, a foto parece ser daquelas que a gente tira sem querer, esbarrando por acidente o dedo no disparador. Fotografar em cores nos anos 50 era muito caro, e eu não acho que alguém ia desperdiçar uma pose de kodachrome com uma foto tão mal feita como esta.

De qualquer maneira, acidental ou não, a foto não só ficou bonita como também acabou mostrando muita coisa interessante sobre São Paulo. Eu gosto em especial da mulher negra com criança no colo e trouxa de roupas na cabeça, disputando a cena com um homem branco de terno alinhado: um contraste social frequente no centro de São Paulo, nessa e em qualquer outra época.

Do outro lado da rua, os cartazes colados no muro anunciam os últimos dias de apresentação do Gran Circo Norte Americano. Por esse detalhe, é possível saber que a foto é de 1951, 1954 ou 1957, que são os anos em que esse circo passou por São Paulo. Pelos modelos dos carros, eu acho que está mais pra 51.

O terreno atrás do muro funcionava, pelo jeito, como estacionamento. Ele continuou com esse uso por muito tempo, e só em 2014 virou prédio de apartamentos. O site do empreendimento explica que esse lugar oferece “entretenimento, lifestyle, urbanidade, arquitetura de ponta e conveniência urbana”. Tudo isso em apartamentos de 18 metros quadrados, sobre os quais eu já falei em outro post.

No fundo do terreno, um outdoor anuncia os produtos da Fundição Brasil SA. Esta empresa tinha fábrica na Mooca, onde produzia banheiras de ferro esmaltado, numa época em que a cidade crescia como nunca e os apartamentos já eram produzidos no atacado, talvez com menos “lifestyle”, mas com espaço para banheira.

E por fim, lá no alto, na empena de um edifício, outro anúncio (infelizmente não se sabe de quê) exibe um endereço em letras garrafais: rua da Consolação, 73. O endereço é de uma loja que fica no térreo do próprio prédio. Tentei descobrir o que havia lá nos anos 50, mas não consegui. Hoje é uma agência do Banco do Brasil.

O registro foi feito no início do viaduto 9 de Julho, com o fotógrafo de costas para o hotel Jaraguá. Gosto de pensar que, se tivesse sido tirada de propósito, a foto não carregaria tanta informação.

A imagem é reproduzida de um slide de 35 mm. Vale a pena clicar nela para ver melhor os detalhes.