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Dizem que no final dos anos 50 e início dos 60, quando estava recém-construído, o edifício Bretagne era ponto de peregrinação turística. Os ônibus encostavam na avenida Higienópolis para que a turistada pudesse ver de perto aquele verdadeiro monumento, de finíssimo e arrojado mau gosto.

Esta foto parece confirmar a lenda. Ela apareceu num lote de slides velhos à venda em Columbus, Ohio, e deve ter sido feita por algum americano em viagem por aqui. A moldura do slide tem a data de revelação: janeiro de 1960. Pelo enquadramento ruim e pela má qualidade geral, a foto só pode ser de turista mesmo.

Mas apesar da qualidade, ela permite ver algumas características originais do prédio de Artacho Jurado que hoje não existem mais.

O que mais chama a atenção é a maior integração que havia entre o condomínio e o espaço público, mais tarde quebrada pela instalação de grades de segurança. Mas há outros detalhes. Um deles é a entrada para carros que parece estar funcionando à direita, hoje anulada. Outro é o guarda-corpo do terraço sobre o salão de festas, bem mais interessante que o atual. E ainda há as luminárias vermelhas e brancas dos postes, substituídas por uns globos brancos bem menos artachianos.

Deve haver mais diferenças que eu não notei. Se alguém perceber alguma, avise!

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Quando a construtora Monções começou a comercializar o edifício Louvre, em 1952, os anúncios nos jornais descreviam os “requintes de confôrto” que os moradores do prédio teriam à sua disposição nas áreas comuns. A lista era longa: playground, solarium, piscina, bar, jardim de inverno, salão de festas, salão de estar, salão de chá, salão para crianças…

Quase todos esses itens, na verdade, estavam presentes também em outros prédios do João Artacho Jurado, como por exemplo o Bretagne. O único realmente exclusivo era uma “Grandiosa Galeria de Arte” que seria instalada no térreo. Ela com certeza tinha sido concebida para ressaltar a atmosfera ‘artística’ do empreendimento, que não só tinha nome de museu, mas também se dividia em alas com nomes de pintores: Da Vinci, Rembrandt, Velázquez, Renoir, Pedro Américo.

Artacho, infelizmente, não conseguiu entregar essa galeria. Como tantos outros empreendimentos dele, o Louvre foi construído com grandes dificuldades. A obra se arrastou por mais de 15 anos e, quando o prédio ficou pronto, em 1967, a ideia já tinha ficado para trás.

Mas eis que, quase 65 anos depois de anunciada, a promessa será finalmente cumprida, com a inauguração em setembro próximo do Museu do Louvre Pau-Brazyl. O projeto é iniciativa do Guilherme Giufrida e da Jéssica Varrichio, moradores/curadores que convidaram artistas e coletivos e estão angariando fundos para viabilizá-lo.

Eu gostei muito do projeto e também da ideia de batizá-lo com o nome Pau-Brazyl. A meu ver, isso compensará uma feia injustiça cometida lá atrás pelo próprio Artacho. Eu sempre achei que não tinha sido muito elegante da parte dele dar nomes de artistas europeus aos quatro luxuosos blocos da frente, enquanto relegava o paraibano Pedro Américo ao bloco de apartamentos de fundos, mais barato e modesto. Um complexo de vira-lata que podia ter sido evitado…

Quem quiser conhecer os detalhes do Museu do Louvre Pau-Brazyl pode entrar na página do projeto no Facebook (www.facebook.com/louvrepaubrazyl), ou no link da campanha de crowdfunding (goo.gl/L7tz11).

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Esta semana, a página Prédios de São Paulo do Facebook publicou uma foto lindíssima que tomo a liberdade de reproduzir aqui. Ela mostra o Conjunto Nacional na época da construção, visto de baixo para cima, a partir da rua Augusta.

Por coincidência, no mesmo dia em que vi que vi essa foto, caiu na minha mão uma outra, tirada na mesma época, do ponto de vista exatamente oposto. Ela mostra a rua Augusta, vista de cima para baixo, a partir do Conjunto Nacional.

Achei a coincidência interessante, e resolvi postar as duas aqui. O fato de uma das fotos ser em preto e branco e a outra em cores torna ainda mais curiosa essa oposição.

A primeira foto, segundo a página Prédios de São Paulo, é do acervo deixado por David Libeskind (1928-2014), autor do prédio. A segunda é um slide de 35mm, de fotógrafo desconhecido.

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Os arquitetos modernistas, como sabemos, não iam muito com a cara do João Artacho Jurado.

Mas parece que os poetas modernistas não tinham nada contra.

É o caso de Manuel Bandeira. Não acho que ele ia se deixar fotografar deste jeito, caso não achasse o edifício Viadutos minimamente poético. E olha que o prédio ainda nem estava pronto!

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A foto saiu sem crédito no Jornal da Tarde em 19 de abril de 1986, data em que o poeta completaria 100 anos. Quem a descobriu foi o Alexandre Giesbrecht, que a publicou no twitter. Eu não resisti e a copiei aqui, mas a publicação original do Alexandre é esta: goo.gl/eCwcFr.

“Revitalização” é uma palavrinha meio complicada. Revitalizar significa dar vida novamente a alguma coisa, uma ideia que só faz sentido se supusermos que a coisa em questão está morta.

822Quando usada em projetos de intervenção em áreas urbanas, a palavra não tem sido muito bem vista por arquitetos e urbanistas. “Revitalizar” uma área indica que ela estava sem vida, ou que a vida ali presente não valia grande coisa. Não é lá um jeito muito simpático de tratar a população residente: por mais desvalorizados que estejam, esses locais têm sempre muita vida. Renovação, requalificação ou reconversão são certamente termos mais adequados…

Já quando usada em endereços chiques, além de complicada, a palavra fica ridícula. É o que está acontecendo em um prédio residencial da avenida Higienópolis. Pelo jeito, os moradores do edifício Apracs julgam que a arquitetura de João Artacho Jurado está morta. Para ajudar a enterrá-la, encomendaram um “projeto de revitalização”.

O projeto ainda não foi executado, e eu aqui do meu canto torço para que não seja. As fotos abaixo, que estão expostas no hall do prédio, dão uma boa ideia da tal revitalização. A coisa consiste, basicamente, em jogar um monte de madeira em cima da inventiva linguagem do Artacho. Pastilhas e outros revestimentos originais, em áreas tanto internas quanto externas, ao invés de restaurados e valorizados, serão cobertos por decks iguais aos das piscinas e solariums desses condomínios beges e padronizados de hoje em dia, tão cheios de vida no seu estilo “visite o decorado”.

O ponto alto do projeto é um deck-playground, para as crianças. Eu já vejo a garotada do prédio se divertindo horrores, cantando “atirei o pau no Artacho-cho”…

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Atualização em 9 de agosto de 2016: Depois de mais de um ano de resistência, os moradores do prédio contrários a esse ataque tiveram hoje uma boa notícia. Junto com seu vizinho Parque das Hortênsias, também obra de Artacho Jurado, o Apracs teve aprovado pelo Conpresp, órgão municipal de preservação, o Selo de Valor Cultural da Cidade de São Paulo. Com isto, o prédio tem sua importância reconhecida e passa a ficar um pouco mais protegido. Eu fico feliz e comemoro junto com os moradores que se mobilizaram. 🙂

812A imagem mostra um Ibirapuera um pouco estranho aos olhos de hoje: o parque não tem grama (seu chão é de terra nua) e é frequentado por homens de terno, gravata e chapéu.

Pela anotação em alemão no verso, sabemos que a foto é de setembro de 1954, que os dois elegantes personagens se chamam Antonio e Guilherme, e que eles estão no parque por causa da “ausstellung” que acontecia por lá.

Ausstellung significa exposição: trata-se evidentemente da Exposição do IV Centenário, que tinha sido inaugurada em 21 de agosto, junto com o parque.

Antonio e Guilherme, seja lá quem tenham sido, a esta altura provavelmente não existem mais. E outro que não existe é o bonito prédio em forma de sela que aparece atrás deles: é o pavilhão do Rio Grande do Sul, projetado para o parque pelo arquiteto Jayme Luna dos Santos. É que em São Paulo, às vezes, a boa arquitetura é tão efêmera quanto as pessoas.

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Não sei de quem é a foto, que estava até agora na Alemanha e foi posta à venda pela internet.

João Artacho Jurado é um arquiteto que, vira e mexe, dá o ar da graça aqui no blog. Hoje ele comparece com duas de suas obras: os edifícios Planalto e Viadutos.

Pelo aspecto dos prédios, ambos em fase de acabamento, e também pela palavra “horta” pintada na mureta do viaduto 9 de Julho, é possível ter uma ideia aproximada de data. A pichação é propaganda de Oscar Pedroso Horta, político ligado a Jânio Quadros que, em 1957, foi candidato a prefeito. Perdeu de lavada: teve apenas 1,4% dos votos, numa eleição ganha por Adhemar de Barros. Os dois prédios do Artacho ficaram prontos por essa mesma época.

Outro prédio que se destaca nas duas fotos é o Japurá, do Eduardo Kneese de Mello, contrastando por suas linhas sóbrias com os dois do Artacho. Quem dera ainda se construísse com essa personalidade autoral no centro de São Paulo, hoje infestado de projetos anódinos da Gafisa, Cyrela e Setin.

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As duas fotos reproduzem slides de 35 mm da época, de autor desconhecido.