arquivo

arquitetura popular

998“Questa è la mia casa, quella sinistra”: o italiano que escreve quer que saibamos que a casa dele é a da esquerda.

E para evitar qualquer dúvida, ele marca na foto, com caneta, os limites da casa. O cuidado se justifica: é que o seu sobrado e o do vizinho são geminados, e a fachada pode confundir. Quem não está acostumado com esse tipo de casa pode achar que as duas são uma só.

Na porta do sobradinho está estacionada a “macchina”. Dois símbolos de status bem paulistanos, reunidos numa foto só, tirada em pleno dia de Natal: o imigrante parece orgulhoso de suas conquistas.

59 natais depois, quase nada sobrou da história. Não sabemos quem é o personagem, nem o bairro onde ele morava. Talvez alguém identifique o modelo do carro (será uma perua Dodge?), mas não vamos muito além disso. O italiano mostrou a casa e a perua, mas não deixou seu nome e se esqueceu de passar o endereço.

999

A foto foi tirada em 1949, e é fácil saber disso por causa do cartaz colado no poste, que anuncia a temporada de automobilismo no autódromo de Interlagos.

O local exato da foto exigiu um pouco mais de pesquisa, mas também não foi difícil descobrir.

No sobrado atrás do poste está a Panificadora e Confeitaria Ponto Final. Ela funciona até hoje no mesmo lugar e não mudou muita coisa. O nome foi trocado por um outro sem graça: “Pão Caseiro”.  Fica na avenida Jabaquara 712, esquina com rua Guaraú.

Na esquina em frente, lá no canto esquerdo da foto, aparece outro sobrado. No andar de baixo vemos um toldo, onde se lê: “todas as noites pizza a napolitana, entregas à domicílio”. Assim mesmo, com dois erros de crase. Já o andar de cima era o endereço do “Dr. Michelangelo”, sobrenome ilegível, “médico operador”.

Confesso que o consultório do Dr. Michelangelo não me causou muito boa impressão. Mas não faz mal, ele não está mais lá mesmo. Junto com a pizzaria, foi demolido para a construção da estação Praça da Árvore do metrô.

Não sei quem é o autor da foto. A imagem está em alta resolução, então vale a pena clicar nela para ver os detalhes. E pra quem quiser ver o local hoje, aqui vai o link: http://goo.gl/maps/zYzmP.

568

Alguém fez dois “X” na foto. Um deles mostra uma casa. O outro, uma garotinha brincando na calçada. A menina se chama Ulli, e sei disso por causa da anotação em alemão, no verso:

554“Ulli in Sao Paulo. Hier haben wir gewohnt!”
(Ulli em São Paulo. Aqui nós morávamos!)

Não sei mais nada, nem sobre Ulli nem sobre a casa.

Nem sequer sei se alguma das duas ainda existe.

Se bem que a chance de Ulli existir é maior, pois São Paulo é uma cidade em que as casas duram menos que as pessoas.

553

 

O anúncio é do tempo em que o Itaim Bibi era um bairro acessível, e em que o sobradinho geminado era uma opção de moradia para a classe média que não podia pagar muito.

Os seis sobrados na rua Tabapuã ofereciam “tôdas as facilidades que Você precisa. Ruas asfaltadas, próximos ao mercado Peg-Pag, cinemas, bom comércio e condução farta”.

E por dentro, vários itens de “confôrto”: armário embutido, cozinha espaçosa, área com tanque e o indefectível “W.C. para empregada”.

Das seis casinhas, cinco ainda estão em pé. Mas estão muito modificadas e ninguém mais mora lá. Nelas funcionam comércios para atender a população dos escritórios e apartamentos em volta: uma quitanda, um salão de cabeleireiro, um chaveiro, um depósito de materiais de construção e uma copiadora.

425

No mapa, a rua Bibi é a atual Renato Paes de Barros, e a rua Tapera é a Bandeira Paulista. O anúncio saiu na Folha da Manhã de 21 de outubro de 1956.

O piso de caquinhos que ainda existe em algumas casas é um bonito símbolo de uma São Paulo passada, mais simples e gentil. Ainda dá pra vê-lo por aí com certa facilidade, mas em alguns anos com certeza vai desaparecer.

Em geral vermelho e salpicado com um pouco de amarelo e preto, foi muito usado nos anos 40 e 50 em casas de classe média – as mesmas que agora estão cedendo espaço a prédios em que impera um sucedâneo muito triste: o porcelanato bege.

E tão simpático quanto o piso era o seu anúncio no jornal, explicando que o material permitia “maravilhosos efeitos” além de ser econômico porque aproveitava material defeituoso.

Aliás, pelo jeito o piso não era o único defeituoso. O próprio anúncio também era. “É bonito, bonito e barato” (sic), garante a frase de abertura!

O anúncio saiu na Folha da Manhã em 5 de outubro de 1952. A foto acima é da atriz Mika Lins, que por sinal publicou em seu blog, há algum tempo, um lindo texto sobre a história desse piso.

Considerada por muitos a construção mais extravagante de São Paulo, a Vila Itororó foi erguida nos anos 20 por um tal Francisco de Castro, um português novo-rico e metido a besta que comprou os restos da demolição do Teatro São José e achou que ficaria bonito usá-los na construção da própria casa.

Por isso ela tem esse aspecto monumental, surrealista, superdimensionado e kitsch. Ela é um frankenstein, um enorme teatro embaralhado, remontado, reconvertido em casa de português.

E no terreno em volta da casa principal, 36 casinhas modestas de aluguel pra garantir uma renda, ora pois.

O conjunto ainda existe, mas está caindo aos pedaços. Depois de muitas décadas habitado como cortiço, recentemente foi desocupado pela prefeitura (numa ação muito polêmica, por sinal), que diz que vai restaurá-lo e fazer dele um centro cultural. A ver.

As fotos abaixo mostram a casa em suas duas encarnações. Na primeira, ela ainda aparece como teatro São José, no viaduto do Chá, onde hoje fica o shopping Light. Na segunda, ela já ressurgiu na rua Martiniano de Carvalho 287, seu endereço atual.

As fotos são de dois cartões postais antigos, à venda no eBay por preços exorbitantes: 150 e 250 dólares, respectivamente. Ainda bem que, para copiar as imagens e colocá-las aqui no blog, não é preciso pagar nada… 🙂


Em tempo: Só não entendi o texto explicativo da segunda foto, que fala em um “monumento commemorativo da fonte de 1822”. Se alguém souber do que se trata, agradeço muito a informação.

Em tempo 2: Existe uma história muito repetida na internet, e que já saiu também em matérias de jornal, de que a Vila Itororó foi construída com os restos de um incêndio que destruiu o teatro São José. Não é verdade, por uma razão muito simples: o teatro, demolido para a construção do prédio da Light, nunca se incendiou. Um outro teatro que não tem nada a ver com a história, mas que também se chamava São José, pegou fogo na praça João Mendes em 1898, daí a confusão.

Os prédios construídos nos anos 40 e 50 por João Artacho Jurado (1907-1983) são hoje referências importantes na paisagem da cidade. É difícil encontrar alguém que não conheça os edifícios Viadutos, Planalto, Bretagne ou Parque das Hortênsias, só para citar alguns.

Mas este post não é sobre os prédios conhecidos do Artacho. Ao invés disso, prefiro mostrar algo que até agora ninguém sabia, nem sequer os pesquisadores da obra do arquiteto. São duas descobertas que fiz no arquivo da Folha.

A primeira não é em São Paulo, mas a 400 quilômetros de distância. Em agosto de 1952, a empresa de Artacho, a construtora Monções, publicou um anúncio na Folha da Manhã comunicando ao público que acabara de construir, e entregava ao governo do estado, “o novo Edifício Séde da Caixa Econômica Estadual de Franca”.

Não é possível saber, pelo texto do anúncio, se o prédio em Franca foi projetado pela Monções ou se apenas a execução ficou a seu cargo. De qualquer maneira, trata-se de um exemplar da obra de Artacho até hoje desconhecido pelos pesquisadores, e que merece ser investigado. O achado também acrescenta um interessante dado novo ao conhecimento disponível sobre o arquiteto: o seu envolvimento com obras públicas, uma vez que toda sua produção conhecida até agora era de casas e condomínios privados.

A segunda descoberta é uma “excepcional ocasião” anunciada na Folha da Manhã em setembro de 1954. Trata-se de um conjunto de casas vendidas a prestações, localizadas nas ruas Serra de Jureia e Euclides Pacheco, no Tatuapé. O local é “privilegiado”, pois é servido por “otima condução” e fica “junto à igreja”, entre outras atraentes vantagens. Pela localização do empreendimento e por sua descrição no anúncio, sabemos tratar-se de casinhas para um público de classe média baixa. O anúncio não permite saber se foram projetadas e construídas por Artacho, ou se foram apenas objeto de corretagem.  De qualquer forma, assim como o edifício em Franca, estas casas muito provavelmente ainda existem e certamente merecem ser identificadas e estudadas para um conhecimento mais completo sobre o arquiteto.

Para além de qualquer descoberta pontual, no entanto, a conclusão é que a obra de Artacho é menos conhecida do que normalmente se pensa. Se apenas uma pesquisa rápida em jornais já trouxe estas duas novidades, isso é indício de que ainda deve haver muita coisa a ser desvendada sobre a atuação e o legado do personagem. Fica a sugestão para os arquitetos e estudiosos de arquitetura.

(Este post é uma versão resumida de um artigo que publiquei na revista Arquitextos.  E se você gostou dele, talvez também goste deste outro.)