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O cartão foi enviado para a Inglaterra por um tal Edward, em 1940. A destinatária, Miss Marjorie Robbins, certamente sofreu tentando entender a caligrafia. Eu também penei bastante, e só consegui decifrar uma parte. Esta é a melhor transcrição que consegui fazer, e talvez alguém consiga completá-la. No lugar de cada palavra que não entendi, coloquei um sinal de interrogação:

“Oct 11th 1940
S.P.
Here’s another Sao Paulo view [?]. Through this tunnel [?] gets [?] on his way to and from the airport. And that big ‘Goodyear’ sign is the one that stares him in the face wherever he walks [?]. Today there’s no chance of rolling far ([?] [?]) we have rain to [?] as all reminds one  person it [?] [?] [?] of England. (The illusion is almost complete by daytime. But at night, when the lights go on, we [?] better!)
[?] love, Edward”

Traduzir a partir desses fragmentos é uma missão quase impossível. Mas com um pouco de imaginação, é possível intuir o sentido geral. Para mim, a mensagem fala sobre a dificuldade de andar de carro em São Paulo. Edward fala de alguém (de nome ilegível) que sempre passa pelo “túnel” da foto, que na verdade é a avenida 9 de Julho cruzando o viaduto Major Quedinho. Mas quando chove, fica impossível rodar até muito longe. E chove tanto em São Paulo, que às vezes se tem a ilusão de estar na Inglaterra!

Imagino que a chuva fosse um problema  mesmo, sobretudo nessa 9 de Julho ainda sem asfalto. Só de ver a foto já da pra imaginar o lamaçal que ela devia virar. E Edward acha curioso que essa cidade em que os carros atolavam tivesse como referência na paisagem justamente um anúncio de pneus, que se vê na foto instalado no topo do Martinelli. O inglês tinha uma letra péssima, mas uma ironia fina…

Não sei se eu reconstituí direito a mensagem. Talvez o sentido fosse completamente outro. Mas isso me fez pensar que  não é só o texto do Edward que está  fragmentado. A própria cidade que ele conheceu também costuma nos chegar assim, e a memória que temos dela é em grande parte inventada, num processo não muito diferente deste.

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(Outra coisa que este cartão me fez ponderar é sobre a efetividade dos serviços britânicos de censura durante a Segunda Guerra. Notem o carimbo azul: ele significa que o cartão passou por um censor e foi liberado. Que censor mequetrefe é esse, que libera algo que certamente não entendeu?)

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944O cartão postal foi enviado de São Paulo a uma certa Mary Gates, no estado americano de Rhode Island. Parece que quem o escreveu foi a avó de Mary, de sobrenome Stellman. Pelo menos é isto que se entende da anotação que alguém, talvez a própria Mary, acrescentou a lápis.

A data também é incerta. Vovó escreveu em 7 de fevereiro, mas não é possível saber de que ano. De qualquer forma, parece ter sido no final dos anos 20.

A única informação 100% segura é o local retratado. Trata-se do “Largo do Paraizo”, atual praça Oswaldo Cruz, onde começa a avenida Paulista. Mas isto nem precisava vir escrito no cartão. O índio da foto continua pescando lá até hoje, o que torna o lugar muito fácil de reconhecer.

A foto  é cheia de detalhes interessantes, mas os que mais me atraem são os anúncios e letreiros que aparecem ao fundo, atrás da escultura do índio pescador. Para vê-los com mais clareza, é preciso clicar na imagem e ampliá-la. Da esquerda para a direita, aparece o nome de uma loja de armarinhos, cujo telefone parece ser Avenida 1151 (na época, os números telefônicos de São Paulo começavam com prefixos como “Braz”, “Central”, “Cidade” e “Avenida”); um anúncio de charutos (“Fume charutos Stern”, ou “Stella”, parece estar escrito em um muro); o outdoor uma conhecida marca de pneus da época (“Os pneumáticos United States são bons pneumáticos”, diz o texto meio encoberto pela folhagem das palmeiras); e um “seccos e molhados finos” estampado na fachada de um armazém.

Outra coisa interessante é a forma como a avó descreveu a cidade para a neta. Se eu tivesse lido só o texto, sem ver o cartão, dificilmente adivinharia que se trata de São Paulo:

“We are on a mountain top 3000 ft high – just had our lunch. It is a beautiful city. We were three hours getting here – It is pretty thrilling to climb in one conveyance and another. Hope you can take it sometime.”

(Estamos no topo de uma montanha de 3 mil pés de altura – acabamos de almoçar. É uma cidade bonita. Levamos três horas para chegar aqui. Subir é bem excitante, em um meio de transporte e no outro. Espero que algum dia você possa fazê-lo.)

Fiquei me perguntando o que a vovó Stellman quis dizer com essa história de “em um meio de transporte e no outro”. Não sei ao certo, mas acho que a própria foto fornece pistas. Além do outdoor com anúncio de pneus, também vemos um automóvel na extrema esquerda. Carros começavam a tomar conta de São Paulo, e já eram uma alternativa ao trem para a viagem a Santos. É minha hipótese.

Na foto do Google dá pra ver que o índio continua na mesma posição, embora tudo tenha mudado à sua vota.

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A foto estava meio amassada, entre dezenas de outras bem menos interessantes, à venda numa barraca da feira do Bixiga. Por 5 reais, ela veio para o blog.

Não há nenhuma indicação de quem seja o autor, mas obviamente é alguém que sabia fotografar e conseguiu um bonito efeito com o recurso da longa exposição.

Mas o efeito mais interessante da foto não é esse. Ele não foi intencional, e sequer podia ser percebido na época.

É que, curiosamente, tudo aquilo que na imagem saiu nítido continua em seu lugar até hoje. O Instituto Pasteur, o edifício Tuiuti, o totem com nome de rua e até mesmo a arvorezinha permanecem iguais. Esta última, se não for a mesma, é uma réplica perfeita…

Já o que aparece borrado – um Chevette, dois Fuscas, um Puma, um Passat e um Dodge Dart – sucumbiu à passagem do tempo e não existe mais por lá.

Quem quiser conferir, é só olhar a foto atual: https://goo.gl/maps/gtcBacoLRyo.

Esta semana, a página Prédios de São Paulo do Facebook publicou uma foto lindíssima que tomo a liberdade de reproduzir aqui. Ela mostra o Conjunto Nacional na época da construção, visto de baixo para cima, a partir da rua Augusta.

Por coincidência, no mesmo dia em que vi que vi essa foto, caiu na minha mão uma outra, tirada na mesma época, do ponto de vista exatamente oposto. Ela mostra a rua Augusta, vista de cima para baixo, a partir do Conjunto Nacional.

Achei a coincidência interessante, e resolvi postar as duas aqui. O fato de uma das fotos ser em preto e branco e a outra em cores torna ainda mais curiosa essa oposição.

A primeira foto, segundo a página Prédios de São Paulo, é do acervo deixado por David Libeskind (1928-2014), autor do prédio. A segunda é um slide de 35mm, de fotógrafo desconhecido.

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Os portugueses do post anterior me deixaram bastante decepcionado. Puxa, eles estavam de carro, rodaram a cidade inteira, mas só tiraram foto do museu do Ipiranga??!

Por sorte, ingleses costumam ser mais disciplinados. E estas fotos foram tiradas por um grupo de tripulantes do HMS Delhi, um navio da marinha real britânica que esteve por aqui mais ou menos pela mesma época. Elas faziam parte de um enorme álbum com fotos das várias regiões do Brasil pelas quais o navio passou, que infelizmente foi desmembrado e vendido aos pedaços na internet.

Assim como a dos portugueses, a visita dos ingleses a São Paulo também começou por Santos. A primeira foto, segundo a anotação do verso, é da avenida principal da cidade. O canteiro central com palmeiras me faz acreditar que seja a avenida Ana Costa, mas como não conheço Santos tão bem assim, vou deixar a confirmação para quem conhece. Além das palmeiras,também deve ter chamado a atenção dos ingleses o simpático Armazém Juquiá, que servia cerveja Brahma ali na esquina. Bem santista.

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A subida da serra não foi de carro, mas de trem, como se vê na segunda foto. E uma vez em São Paulo, os ingleses aparecem bebendo de novo, desta vez “at the English Club”. Deve ser o mesmo clube inglês que até hoje funciona na rua Visconde de Ouro Preto, uma travessa da Consolação.

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Da Consolação, seguimos para uma tal “avenida Carlos de Campos”, e isto nos permite saber a data aproximada da visita. É que durante um curto período, no final dos anos 20, esse foi o nome da avenida Paulista. À esquerda está o Belvedere Trianon, no lugar hoje ocupado pelo Masp.

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Antes de ir embora, os ingleses deram um pulo no Instituto Butantã. De todos os lugares, é o único que conserva mais ou menos o mesmo aspecto até hoje:

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Finalmente, a volta a Santos, ao que parece, foi feita de carro. E tão interessante como a foto é a anotação no verso:

“Ypiranga just outside São Paulo on the Santos Road after a shower, so you can imagine what it is like after a storm”.
(Ipiranga, nos arredores de São Paulo, na estrada para Santos logo depois de uma pancada de chuva. Imagine como fica isto depois de uma tempestade.)

A chuva atrapalhou a viagem de carro. Quer coisa mais atual em São Paulo que isso?

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As quatro fotos são uma excursão que um alegre trio de portugueses  fez a São Paulo no final de 1922.

A primeira foi tirada na “sahida da cidade de Santos para São Paulo”, e os portugueses já estão a bordo do automóvel. Não conheço Santos o suficiente para saber que lugar é esse. Mas sei, pela placa A.2571, que o carro era alugado. É que no sistema usado na época, que vigorou entre 1901 e 1941, as placas começavam com P para carros particulares, e A para carros de aluguel.

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A segunda foto é a que eu acho mais interessante.  Aqui encontramos os excursionistas à porta do “Recreio Rio Grande”, onde parecem ter dado uma parada para esticar as pernas. Infelizmente nem tudo o que está escrito na fachada do estabelecimento é legível, mas com um certo esforço eu consegui distinguir algumas palavras: “bebidas”, “especialidades”, “refrescos”, “sandwiches”.

Pelo nome do estabelecimento, estamos provavelmente no atual distrito de Riacho Grande, em São Bernardo do Campo. Na época, a região era conhecida como Rio Grande.

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E chegando a São Paulo, os portugueses não perderam tempo: foram direto para o museu do Ipiranga, onde bateram mais duas fotos. Nelas, eles aparecem com outros dois personagens: um homem de quepe, que deve ser o motorista, e um garoto de pés descalços que talvez trabalhe como guia, recebendo os turistas que chegam ao museu.

Gosto de pensar que o garoto recebeu dos portugueses uma generosa gorjeta. E fico pensando onde terá ido parar o resto do álbum, pois não quero crer que esses gajos fizeram uma viagem dessas até aqui para visitar só o museu e tirar só quatro fotos.

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Teve gente que passou 2015 inteiro dizendo que o Brasil está se parecendo cada vez mais com Cuba. Esta foto é a prova cabal de que essas pessoas estão enganadas.

É evidente que a semelhança era muito maior nos anos 50. Basta olhar para os carros que transitavam pela Barão de Itapetininga: eram iguaizinhos aos que circulam em Havana! 😀

Mas a foto está aqui por outro motivo. É que a rua aparece toda enfeitada para o Natal, então resolvi publicá-la hoje com meus votos de Boas Festas para todos os que acompanharam o blog neste ano.

A foto é um slide de 35 mm da época, de autor desconhecido. E pelo jeito, apesar dos trilhos, o bonde já não passava pela Barão de Itapetininga. Também não deviam passar muitos caminhões ou ônibus. O primeiro que aparecesse arrancaria esses enfeites todos!