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O menino que aparece à esquerda, acompanhado da mãe e do primo, é o pianista Fábio Caramuru. Eu pedi, e ele generosamente deixou que eu publicasse a foto aqui no blog.

Eu jamais reconheceria o local, mas o próprio Fábio explica: é a rua Cravinhos, no Jardim Paulista, com a avenida 9 de Julho ao fundo.

As árvores lá atrás ficavam ao lado do Colégio Assunção. Foram derrubadas mais tarde para construção de um supermercado Eldorado, hoje Carrefour, com entrada pela rua Pamplona.Hoje elas fazem falta na paisagem do local.

E além das árvores, também fazem falta os jardins de muro baixo, a rua da paralelepípedos e a calçada feita de caquinhos. Tudo isso dava à rua uma atmosfera de gentileza e tranquilidade, que combinava à perfeição com o coração estampado na roupinha do Fábio.

Hoje o local está assim:

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(A primeira foto, de 1958, é do acervo pessoal de Fábio Caramuru. A segunda, de 2014, é reproduzida do Google.)

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Não sei quase nada sobre Alice Lebeis. Mas pelo que achei na internet, fiquei sabendo que ela viveu em São Paulo, onde morreu em dezembro de 1960, aos 84 anos de idade. Em 1904, portanto, quando escreveu este cartão, ela tinha 27 anos, ou talvez já tivesse feito 28.

Parece que por essa época Alice se dedicava ao intercâmbio de postais, um passatempo bastante comum num tempo em que as pessoas não dispunham do Facebook para fazer amizades virtuais. Uma de suas correspondentes foi uma tal Madame Vanderman, que entre 1903 e 1904 recebeu dezenas de cartões como este, com vistas de São Paulo, e deve ter enviado outros tantos de Paris. Os que recebeu foram mantidos juntos até agora, e acabam de aparecer à venda em um site especializado, por 20 euros cada um. Eu acho caro.

Em geral, como era de praxe, em cada cartão que enviava Alice escrevia um recadinho curto com uma pequena explicação em francês sobre o lugar retratado. Neste aqui, porém, resolveu fazer diferente: mandou ver um poema inteiro, com quatro estrofes, e precisou espremer a letra para que coubesse tudo no cartão.

O texto se intitula “Le Rosier” (A Roseira), e começa assim:

Je l’ai planté, je l’ai vu naître,
Ce beau rosier où les oiseaux,
Au matin, près de ma fenêtre,
Viennent chanter sur ses rameaux

(Eu a plantei, eu a vi nascer
Essa linda roseira onde os pássaros
Pela manhã, perto da minha janela,
Vêm cantar sobre seus ramos)

Alice certamente colocou o poema no cartão por achar que ele ornava com a paisagem bucólica fotografada por Guilherme Gaensly. Num primeiro momento, eu imaginei que os versos fossem dela própria, mas o Google logo desmentiu minha impressão. Eles são na verdade uma versão meio piorada (Alice devia estar distraída, escrevendo de memória, e acabou errando um pouco) de uma conhecida letra de música. E não é uma letra qualquer: foi escrita no século 18 por Alexandre Deleyre (1723-1796), para uma canção composta por ninguém menos, vejam só, do que o filósofo Jean-Jacques Rousseau.

Mas nessa história toda, o que soa mais curioso hoje em dia é que uma paisagem dos Campos Elíseos, com a rua Barão de Piracicaba em primeiro plano, tenha lembrado a alguém uma música que fala sobre flores, passarinhos e tranqulidade na janela…

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(A primeira imagem é de um cartão postal à venda na internet; a segunda é das Obras Completas de Rousseau, edição de 1825. Agradeço ao Marcos César da Silva, que me ajudou a identificar os Campos Elíseos na foto.)

“A Seringueira Paulista” foi uma tradicional loja de artefatos de borracha, que ao longo dos anos ocupou diferentes endereços na última quadra da rua Clélia, na Lapa. Nas fotos abaixo, a vemos instalada respectivamente nos números 2285, 2293 e 2290.

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Atualmente, nesses três endereços existem comércios bem menos sedutores. Os dois primeiros, hoje unificados, abrigam uma concessionária de carros da marca chinesa Chery. No terceiro funciona uma loja de motos.

Mas o que eu gosto mesmo é o resto do álbum, que parece ter pertencido aos donos da Seringueira Paulista. Elas nos fazem passear por uma rua Clélia bem mais tranquila, no começo dos anos 70.

Destaque para o prédio da Escola Estadual Pereira Barreto, praticamente o único que não se alterou, e também para o posto de gasolina com frentistas gêmeos, no terreno hoje ocupado por uma escola de inglês.

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Esta fábrica de Coca-Cola ficava no Ipiranga, na avenida Teresa Cristina esquina com rua Lima Barreto. Não sei quando foi construída, mas na foto ela parece ter uma atmosfera meio anos 50.

Também não sei quando foi demolida. Só sei que parte de sua fachada permaneceu em pé, convertida em muro.

A antiga fachada tem cumprido muito a bem sua nova função segregacionista: seja lá o que for que ela protege, da rua não dá nem pra saber do que se trata. E sua metamorfose sintetiza bem a evolução de São Paulo, que deixou de ser uma cidade de fábricas para virar uma cidade de muros.

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A foto da fábrica, cuja autoria desconheço, tem uma data anotada no verso: 1969. A foto do muro é reproduzida do Google.

Em quase cinco anos de blog, eu nunca tinha postado uma foto minha por aqui. Mas hoje, mexendo numas coisas velhas de família, acabei encontrando esta e não resisti.

Pelo meu tamanho, a foto deve ser de 1976. Mas o mais interessante nela não sou eu, e sim a vista para a rua Itambé. As casas do outro lado da rua não estão mais lá. Hoje existe um prédio feio, cercado por muro bege, que se chama Neoclass Helbor Higienópolis.

As casas não tinham nome, mas eram bem mais legais de se ver.

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O reverendo Alva W. Knoll, até onde eu consegui pesquisar, foi um religioso americano que passou a maior parte da vida em Freeport, uma cidadezinha do estado de Ohio. As últimas informações que consegui achar dele são dos anos 1960: deve ter se aposentado ou morrido nessa época.

Mas bem antes disso, quando ainda era estudante em um seminário metodista, ele teve a chance de fazer longas viagens pelo mundo. E uma delas, em 1924, incluiu um tour pela América do Sul.

A viagem rendeu muitas fotos, e de volta aos Estados Unidos o futuro pastor resolveu ganhar um dinheirinho com elas, rodando as igrejas do estado de Ohio e oferecendo seus serviços como palestrante.

Como na época não exista powerpoint, o jeito era viajar carregando 50 delicados slides de vidro para serem projetados. A palestra se chamava “Little glimpses of daily life beyond the Equator” (Pequenos vislumbres da vida cotidiana debaixo do Equador), e a remuneração sugerida era de 10 dólares. O restante das informações está no folheto datilografado que Alva distribuía divulgando o serviço:

“Fifty minute lecture, with fifty colored slides selected from 800 photographs taken on the South American Tour. Slides made up and colored by Knoll. Slides give a fair picture of living conditions, customs, character, and some history.”

(Palestra de 50 minutos, com 50 slides coloridos selecionados de 800 fotografias do tour sulamericano. Os slides, produzidos e colorizados por Knoll, proporcionam uma imagem fiel das condições de vida, costumes, caráter e alguma história.)

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As imagens que ele mostrava de São Paulo eram interessantes, mas eu tenho cá as minhas dúvidas sobre a qualidade das informações que Alva Knoll divulgava na palestra. Em um dos slides, dá pra perceber que ele ficou na dúvida sobre como escrever “Butantan”. E em outro, errou bem mais feio: escreveu “Teatros” na foto do Anhangabaú em que aparecem os prédios da Prefeitura e do Automóvel Clube. Deve tê-los confundido com o Teatro Municipal e o Teatro São Pedro, que ficavam (um deles ainda fica) quase ali, mas do lado oposto do vale.

Mas o mais interessante nas fotos é que, se fossem tiradas hoje, a do Instituto Butantan ficaria praticamente igual, enquanto a do Anhangabaú seria totalmente diferente. Meu detalhe preferido  está na segunda: o edifício Sampaio Moreira, em construção, exibindo um anúncio do loteamento Bosque da Saúde. O prédio do centro e o bairro da zona sul estavam nascendo simultaneamente.

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As duas fotos estão na Inglaterra e esta semana foram a leilão pela internet, mas ninguém as comprou. O lance mínimo, de 100 libras (460 reais) cada uma, era alto demais, pelo menos para um pobre assalariado como eu.

O vendedor dizia que elas são da década de 1870, e essa era toda a informação que ele tinha. O resto deve ser inferido das anotações que alguém fez a lápis, debaixo de cada uma delas: trata-se de um “sanatorium” localizado em algum local de São Paulo, que tinha como vizinhos uma chácara e um chalé.

Meu palpite é que se trata do “Sanatorio Inglez”, que nessa época funcionava no final da atual avenida Higienópolis.

Espécie de casa de repouso, o estabelecimento também se chamou “Hotel Hygienopolis”, até ser vendido em 1902 para as religiosas da irmandade de Nossa Senhora de Sion. As freiras contrataram o escritório Ramos de Azevedo para derrubar tudo e construir ali um colégio, que funciona até hoje.

Certeza, certeza mesmo, eu não tenho. Mas a história parece fazer sentido, e a topografia do terreno também.

As imagens estão com a marca d’água do vendedor, mas isso não atrapalha a visualização. Elas têm boa resolução, então vale a pena clicar para ver os detalhes.


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