arquivo

centro

Este simpático casal de americanos esteve no Brasil em 1974, visitando cidades como Manaus, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.

Mas embora tenham fotografado muito as outras cidades, em São Paulo eles não se animaram. Somente três fotos da viagem são daqui, e todas foram tiradas dentro do hotel. A primeira é uma engenhosa selfie no banheiro, e as outras duas foram tomadas da janela do quarto, de onde se viam prédios como o Itália, o Viadutos e o Copan.

É realmente uma pena que eles não tenham fotografado mais a cidade, mas o pouco que produziram já nos serve para alguma coisa.  É que o hotel Hilton, onde o casal se hospedou, deixou de funcionar em 2004. Como não podemos nos hospedar lá, é só mesmo por meio das fotos que temos acesso ao banheiro e à paisagem…

946

947

948

O reverendo Alva W. Knoll, até onde eu consegui pesquisar, foi um religioso americano que passou a maior parte da vida em Freeport, uma cidadezinha do estado de Ohio. As últimas informações que consegui achar dele são dos anos 1960: deve ter se aposentado ou morrido nessa época.

Mas bem antes disso, quando ainda era estudante em um seminário metodista, ele teve a chance de fazer longas viagens pelo mundo. E uma delas, em 1924, incluiu um tour pela América do Sul.

A viagem rendeu muitas fotos, e de volta aos Estados Unidos o futuro pastor resolveu ganhar um dinheirinho com elas, rodando as igrejas do estado de Ohio e oferecendo seus serviços como palestrante.

Como na época não exista powerpoint, o jeito era viajar carregando 50 delicados slides de vidro para serem projetados. A palestra se chamava “Little glimpses of daily life beyond the Equator” (Pequenos vislumbres da vida cotidiana debaixo do Equador), e a remuneração sugerida era de 10 dólares. O restante das informações está no folheto datilografado que Alva distribuía divulgando o serviço:

“Fifty minute lecture, with fifty colored slides selected from 800 photographs taken on the South American Tour. Slides made up and colored by Knoll. Slides give a fair picture of living conditions, customs, character, and some history.”

(Palestra de 50 minutos, com 50 slides coloridos selecionados de 800 fotografias do tour sulamericano. Os slides, produzidos e colorizados por Knoll, proporcionam uma imagem fiel das condições de vida, costumes, caráter e alguma história.)

912

As imagens que ele mostrava de São Paulo eram interessantes, mas eu tenho cá as minhas dúvidas sobre a qualidade das informações que Alva Knoll divulgava na palestra. Em um dos slides, dá pra perceber que ele ficou na dúvida sobre como escrever “Butantan”. E em outro, errou bem mais feio: escreveu “Teatros” na foto do Anhangabaú em que aparecem os prédios da Prefeitura e do Automóvel Clube. Deve tê-los confundido com o Teatro Municipal e o Teatro São Pedro, que ficavam (um deles ainda fica) quase ali, mas do lado oposto do vale.

Mas o mais interessante nas fotos é que, se fossem tiradas hoje, a do Instituto Butantan ficaria praticamente igual, enquanto a do Anhangabaú seria totalmente diferente. Meu detalhe preferido  está na segunda: o edifício Sampaio Moreira, em construção, exibindo um anúncio do loteamento Bosque da Saúde. O prédio do centro e o bairro da zona sul estavam nascendo simultaneamente.

914

913

Quando a construtora Monções começou a comercializar o edifício Louvre, em 1952, os anúncios nos jornais descreviam os “requintes de confôrto” que os moradores do prédio teriam à sua disposição nas áreas comuns. A lista era longa: playground, solarium, piscina, bar, jardim de inverno, salão de festas, salão de estar, salão de chá, salão para crianças…

Quase todos esses itens, na verdade, estavam presentes também em outros prédios do João Artacho Jurado, como por exemplo o Bretagne. O único realmente exclusivo era uma “Grandiosa Galeria de Arte” que seria instalada no térreo. Ela com certeza tinha sido concebida para ressaltar a atmosfera ‘artística’ do empreendimento, que não só tinha nome de museu, mas também se dividia em alas com nomes de pintores: Da Vinci, Rembrandt, Velázquez, Renoir, Pedro Américo.

Artacho, infelizmente, não conseguiu entregar essa galeria. Como tantos outros empreendimentos dele, o Louvre foi construído com grandes dificuldades. A obra se arrastou por mais de 15 anos e, quando o prédio ficou pronto, em 1967, a ideia já tinha ficado para trás.

Mas eis que, quase 65 anos depois de anunciada, a promessa será finalmente cumprida, com a inauguração em setembro próximo do Museu do Louvre Pau-Brazyl. O projeto é iniciativa do Guilherme Giufrida e da Jéssica Varrichio, moradores/curadores que convidaram artistas e coletivos e estão angariando fundos para viabilizá-lo.

Eu gostei muito do projeto e também da ideia de batizá-lo com o nome Pau-Brazyl. A meu ver, isso compensará uma feia injustiça cometida lá atrás pelo próprio Artacho. Eu sempre achei que não tinha sido muito elegante da parte dele dar nomes de artistas europeus aos quatro luxuosos blocos da frente, enquanto relegava o paraibano Pedro Américo ao bloco de apartamentos de fundos, mais barato e modesto. Um complexo de vira-lata que podia ter sido evitado…

Quem quiser conhecer os detalhes do Museu do Louvre Pau-Brazyl pode entrar na página do projeto no Facebook (www.facebook.com/louvrepaubrazyl), ou no link da campanha de crowdfunding (goo.gl/L7tz11).

911

Quando se mudou da praça do Patriarca para a praça Ramos, em 1939, o Mappin tentou mudar de nome e passou a se chamar Casa Anglo Brasileira. A tentativa durou alguns anos, mas não vingou: as pessoas continuavam chamando a loja de Mappin mesmo.

Esta foto é uma das poucas que existem do prédio com o nome trocado na fachada. Algum tempo depois, o letreiro com a marca Mappin voltaria ao seu lugar.

Porém, o que torna a foto rara mesmo nem é isso, mas sim o fato de ela ser em cores, em plena década de 1940. O Mappin, aliás, só aparece por acaso: a riqueza está nos personagens do fascinante carrinho de mexericas, vendidas a 5 cruzeiros a dúzia.

A foto é reproduzida de um slide de 2 1/4 polegadas, formato que foi comum nos anos 40, antes de os filmes de 35 mm se popularizarem.

E quem gostou deste post provavelmente também vai gostar deste outro.

Pelo enquadramento torto, pela falta de foco e pela composição estranha, a foto parece ser daquelas que a gente tira sem querer, esbarrando por acidente o dedo no disparador. Fotografar em cores nos anos 50 era muito caro, e eu não acho que alguém ia desperdiçar uma pose de kodachrome com uma foto tão mal feita como esta.

De qualquer maneira, acidental ou não, a foto não só ficou bonita como também acabou mostrando muita coisa interessante sobre São Paulo. Eu gosto em especial da mulher negra com criança no colo e trouxa de roupas na cabeça, disputando a cena com um homem branco de terno alinhado: um contraste social frequente no centro de São Paulo, nessa e em qualquer outra época.

Do outro lado da rua, os cartazes colados no muro anunciam os últimos dias de apresentação do Gran Circo Norte Americano. Por esse detalhe, é possível saber que a foto é de 1951, 1954 ou 1957, que são os anos em que esse circo passou por São Paulo. Pelos modelos dos carros, eu acho que está mais pra 51.

O terreno atrás do muro funcionava, pelo jeito, como estacionamento. Ele continuou com esse uso por muito tempo, e só em 2014 virou prédio de apartamentos. O site do empreendimento explica que esse lugar oferece “entretenimento, lifestyle, urbanidade, arquitetura de ponta e conveniência urbana”. Tudo isso em apartamentos de 18 metros quadrados, sobre os quais eu já falei em outro post.

No fundo do terreno, um outdoor anuncia os produtos da Fundição Brasil SA. Esta empresa tinha fábrica na Mooca, onde produzia banheiras de ferro esmaltado, numa época em que a cidade crescia como nunca e os apartamentos já eram produzidos no atacado, talvez com menos “lifestyle”, mas com espaço para banheira.

E por fim, lá no alto, na empena de um edifício, outro anúncio (infelizmente não se sabe de quê) exibe um endereço em letras garrafais: rua da Consolação, 73. O endereço é de uma loja que fica no térreo do próprio prédio. Tentei descobrir o que havia lá nos anos 50, mas não consegui. Hoje é uma agência do Banco do Brasil.

O registro foi feito no início do viaduto 9 de Julho, com o fotógrafo de costas para o hotel Jaraguá. Gosto de pensar que, se tivesse sido tirada de propósito, a foto não carregaria tanta informação.

A imagem é reproduzida de um slide de 35 mm. Vale a pena clicar nela para ver melhor os detalhes.

 

O post de ontem, que mostrava a praça da Sé convertida em terminal de ônibus em 1960, fez bastante sucesso e acabou se tornando um dos mais lidos dos últimos tempos. Já que tanta gente gostou, resolvi complementá-lo com este outro. A foto que mostro hoje é do mesmo autor anônimo da de ontem. Faz parte do mesmo rolo de filme, e foi feita certamente no mesmo dia, só que de um ângulo diferente.

A catedral da Sé aparece aqui com a praça-terminal à sua frente, apinhada de passageiros. Deve ser final de tarde, hora de pegar a condução de volta pra casa…

À esquerda está o conjunto de prédios que desaparecerá para a construção do metrô. O Santa Helena quase não se vê, mas chama a atenção um prédio maior, ainda em construção, cortado pela margem da foto. É o edifício Mendes Caldeira, um arranha-céu tão alto quanto efêmero, que ficou pronto em 1961 e foi implodido em 1975. Ele teve 30 andares e durou 14 anos.

861

A foto mostra a praça da Sé. Um detalhe da catedral pode ser visto no canto direito, ajudando a reconhecer o local. O resto está quase irreconhecível. Os cartazes da campanha de Jânio Quadros, candidato a presidente em 1960, sugerem que ela tenha sido tirada nesse ano.

De praça mesmo, na época, o lugar só conservava o nome. A praça funcionava na prática como terminal de ônibus, e se manteria assim até o início da década de 70, quando as obras do metrô empurraram o terminal para o parque Dom Pedro.

Mas é uma pena que, entre ganhos e perdas, a forma como o metrô chegou tenha feito mais mal do que bem à praça. Junto com os ônibus, também foi embora o prédio Santa Helena, que se vê ao fundo, um dos mais belos que São Paulo já teve. Sua demolição, em 1971, acabou transformando as praças da Sé, à frente dele, e Clóvis Bevilacqua, atrás, numa maçaroca só.

Fotos em cores do Santa Helena são bastante raras, como eu já disse em outro post, e isso torna esta imagem particularmente interessante. Ela é reproduzida de um slide de 35 mm da época, de autor desconhecido.