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Dias atrás, por meio de uma fotografia de 17 por 23 centímetros que encontrei à venda na Internet, fui apresentado a este estabelecimento paulistano: a Brasserie High Life.

Graças a um carimbo (“Aristides Greco, photographo”) e uma anotação manuscrita no verso (“31 de maio de 1914”), temos informações precisas sobre a autoria e a data da foto. Mas as informações mais interessantes estão na imagem em si, que é repleta de detalhes. Por um deles – duas placas de rua na fachada – sabemos que a brasserie ficava em alguma esquina do Largo do Arouche. Em qual delas exatamente, dependerá da nossa habilidade para decifrar a placa da esquerda, semioculta por um poste e um galho de árvore. Eu matei a charada, mas vou guardar a resposta para o final do post.

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Também gostei da variedade de produtos, listada em pequenas tabuletas na fachada. São 7 placas no total, anunciando “sorvetes, refrescos, chops”, “café, leite, coalhada, chocolates”, “manteiga fresca e queijos de Minas”, “acceitam-se encommendas para festas”, “biscoutos e doces finos, fabricação especial”, e “cigarros 34, mistura da moda”.

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Um detalhe importante é o homem encarando a câmara, em pé junto a uma das portas da brasserie. É impossível não se sentir estranhamente atraído por essa figura soturna: reparem no olhar lúgubre, nas roupas forçadamente elegantes… Ele deve ser um funcionário à espera de clientes, mas eu confesso que pensaria duas vezes se tivesse que comer um “biscouto fino” ou qualquer coisa servida por alguém que me encara com esse ar.

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Há muitos outros detalhes, mas os deixo para a exploração do leitor. O que eu queria mesmo dizer é outra coisa. Até conhecer a foto eu nunca tinha ouvido falar desta Brasserie High Life, mas já sabia de um cinema homônimo, que funcionou também no Arouche nesta mesma época: o High Life Theatre. Fico imaginando que tipo de relação terá havido entre os dois estabelecimentos. Será que a brasserie era uma espécie de café do cinema? O tamanho da loja, as portas para a rua e a extensão do cardápio indicam que não. Talvez ambos pertencessem a um mesmo dono, daí os nomes idênticos, ou quem sabe um deles tenha apenas copiado a denominação do vizinho.

Seja como for, é muito provável que eles compartilhassem a mesma clientela, e isso nos diz algo sobre o imaginário do lazer paulistano daquele início do século 20. Assistir a um filme mudo numa sala de cinema, emendando com um lanche, um chope ou um café com “biscoutos” servido pelo atendente engravatado da brasserie ao lado, era um programa associado à ideia de bem-viver, de high life.

Fiquei curioso para descobrir em qual esquina exata funcionava a brasserie, já que apenas pela foto, como já vimos, não me foi possível saber. Não foi difícil achar a resposta. Em um anúncio publicado no Correio Paulistano, em 28 de fevereiro do mesmo ano de 1914, a “Secção de Licores” da Companhia Antarctica Paulista divulgava os endereços de seus principais distribuidores. Um dos citados é “Brasserie High Life, rua Sebastião Pereira”, matando a charada.

O ponto exato em que portanto ficava a Brasserie High Life – esquina do Largo do Arouche com a rua Sebastião Pereira – está hoje totalmente coberto pelo Minhocão, como se vê na foto abaixo. Sobre o viaduto, há quem esteja querendo implantar um parque ao estilo do novaiorquino High Line Park.

O que nos mostra que, de algum modo, a mudança nestes mais de 100 anos não foi tão grande assim: de high life para high line, a mudança é de apenas uma letra!

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As fotos de hoje têm algo em comum com as do post anterior: elas também mostram a São Paulo que um turista viu.

Desta vez o turista é espanhol. As fotos, de 1969, estavam até agora em Valência. Eu as achei à venda em um site, por 50 centavos de euro cada uma, e as repatriei.

E desta vez o turista sabia fotografar um pouco melhor. As fotos têm alguma qualidade técnica, e algumas têm enquadramentos bastante incomuns para fotos de turista.

A primeira foto foi tirada “desde la ventana del hotel”, como diz a anotação no verso. Mas nem precisava dizer: essa vista só poderia ser mesmo de uma janela do antigo hotel Othon, que funcionou até 2008 na praça do Patriarca. O que atraiu o olhar do espanhol pode ter sido a surpreendente mistura: o ecletismo do Teatro Municipal, o art déco do viaduto do Chá e a arquitetura moderna das torres de vidro formam um conjunto de evidente (e muito paulistana) desarmonia.

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A arquitetura moderna, por sinal, parece ter impressionado bastante o visitante. Andando pela região central, ele fotografou o Copan, o Itália e o Bretagne.

O Copan ainda estava com seu anexo (aquele prédio mais baixo em que funciona o Bradesco) em final de construção. Já o Bretagne aparece retratado a partir de sua área interna, numa época em que, sem grades nem controle de acesso, podia-se entrar à vontade. Todos os ângulos ressaltam a monumentalidade dos edifícios. 

Além de andar pela região central fotografando prédios, podemos ver que o visitante fez pelo menos mais dois passeios. Em um deles esteve no Instituto Butantan, que hoje em dia é muito pouco frequentado, mas na época fazia parte do roteiro turístico da cidade. 

E no outro foi ao parque do Ibirapuera, onde conheceu o famosíssimo “Monumento a los Cangançeiros”:

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Enfim…  Prédios, cobras e cangaço, eis o que este espanhol deve ter voltado dizendo que viu em São Paulo.

 

São Paulo tem algumas coisas que não mudam nunca. Nesta foto, vemos duas.

A primeira é o bonito cenário da foto. Pode não parecer, mas a imagem já tem 53 anos. Mesmo depois de tanto tempo, tudo continua exatamente igual na piscina do edifício Bretagne, na avenida Higienópolis.

A segunda é a cena em si: uma mãe descontraída e seus filhos loirinhos curtindo a piscina, e a babá negra e anônima – a única sem rosto na foto – metida em uniforme branco.

A foto foi tirada em 1965 por um visitante americano e apareceu recentemente à venda em um lote de slides em Brecksville, Ohio. Na época o Bretagne era ponto de parada de excursões, e os turistas entravam para fotografar nossa arquitetura moderna e nossos costumes arcaicos.

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Hoje em dia existe um debate muito intenso a respeito de quantas pessoas são necessárias para trocar uma lâmpada.

Se forem portugueses, são necessários três (um para segurar a lâmpada e dois para girar a escada). Já se o sujeito for argentino, aí basta um só (ele segura a lâmpada e o mundo gira em torno dele). Também é necessário apenas um psicólogo, mas neste a caso a lâmpada precisa querer ser trocada. E assim por diante. A discussão é longa e complexa.

A foto é reproduzida de um cartão postal dos anos 40, época em que o conhecimento sobre esse assunto não estava tão desenvolvido. Por isso, em plena avenida 9 de Julho, a prefeitura trocava lâmpadas deste jeito tão rudimentar e singelo.

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Erguido entre 1954 e 1979, o falso conjunto jesuítico do Pátio do Colégio (ou Pateo do Collegio como alguns teimam em grafar afetadamente) é uma réplica do que se supõe ter sido a construção que originou o núcleo inicial da atual cidade de São Paulo. Embora ele tente parecer (e muitos incautos acreditem ser de fato) remanescente do século 16, o prédio é na verdade um exemplar paulistano de “falso histórico”. Finge ser antigo, e até engana bem, mas na verdade foi construído em época bastante recente.

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A história do prédio, que na foto acima, de 1976, aparece em sua última fase de construção, é conhecida e não vale a pena retomá-la aqui. O que quero mesmo comentar é o acontecimento que causou comoção nas redes sociais e na grande imprensa esta semana: na terça-feira, 10 de abril, o edifício amanheceu com um garrafal “OLHAI POR NÓIS” pixado (ou pichado, como preferem os puristas da língua) em sua fachada.

A intervenção usou técnica difundida desde a década de 1990 em cidades como Los Angeles, Nova York e Paris, mas que só em 2012 desembarcou em muros brasileiros: o uso de extintores de incêndio carregados com tinta, o que permite intervenções de grande proporção. Graças a essa técnica, numa ação que durou pouco mais de um minuto, gravada pelas câmeras de segurança do local, a fachada foi inteiramente coberta, o que teria sido impossível de se produzir com os tradicionais sprays.

Reações indignadas vieram instantaneamente. Uma das primeiras foi a do próprio poder público: poucas horas depois da ação, em uma inflamada postagem no Facebook, o subprefeito da Sé, Eduardo Odloak, qualificava a intervenção como “um CRIME contra a cidade e TODOS os paulistanos de bem” (grifos no original). Em vídeo gravado no próprio local, o subprefeito anunciava: “Nós não vamos deixar quieto. Isto aqui é um ato criminoso contra a nossa cidade!”.

A grande imprensa aderiu ao discurso, classificando a pixação como ato de vandalismo e o prédio pixado como edifício histórico. Essa construção discursiva – a de um condenável ato criminoso cometido contra edifício histórico – dominou também o debate que se seguiu nas redes sociais. Este último, como costuma acontecer, se deu de maneira desalentadoramente rasa e estereotipada. Não faltou nem mesmo quem atribuísse o crime a apoiadores do PT, enxergando indícios de autoria na cor vermelha usada na intervenção!

Também não faltou no raso debate quem se incomodasse com a grafia do pronome pessoal empregado na pixação: não bastasse agredir o patrimônio, agrediu-se também a língua portuguesa. “É nós e não nóis!”, “Nem escrever direito sabem?”, gritaram não poucos puristas da língua, para os quais até os crimes devem ser cometidos respeitando a norma culta.

Não entenderam, esses zeladores do prédio e do idioma, que a súplica pixada no Pátio do Colégio não é para ninguém olhar por nós. Ao contrário, nós é que fomos chamados a olhar por “nóis”, aqueles para os quais jamais olhamos. É sintomático que, mesmo após uma súplica tão eloquente, toda nossa atenção e indignação tenham se dirigido à agressão ao prédio, incapazes que somos de olhar para “nóis”. A própria população que se refugia no Pátio, embora captada pelas mesmas imagens de segurança, não mereceu qualquer parcela de atenção.

Mas os indignados podem ficar tranquilos: em pouco tempo a situação se normalizará. A fachada ficará branca de novo (oh, desperdício de recursos!), e “nós” poderemos voltar a admirar orgulhosos esse prédio histórico de 1979. Ainda que, para tanto, tenhamos que desviar de uns tantos “nóis” inconvenientes que insistem em ficar por lá atrapalhando.

Tudo isto pra dizer que São Paulo precisava mesmo ouvir um vigoroso “olhai por nóis”. Podem me pixar.

(A foto recente é de Pedro Pinto / fotospublicas.com. A de 1976 é de Waldemir Gomes de Lima / acervo da Prefeitura de São Paulo. O texto é uma versão ligeiramente modificada de um artigo que publiquei esta semana na revista Minha Cidade, do portal Vitruvius.)

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A foto foi enviada pelo cineasta Lufe Steffen, e de cara isso me deixou muito feliz: há tempos eu sou um admirador do trabalho do Lufe (adorei “São Paulo em Hi-Fi”, documentário sobre a vida LGBT na cidade nos anos 60 e 70), mas não fazia ideia de que ele conhecia o blog. Fiquei sabendo agora que ele não só conhece, mas é um leitor assíduo!

A foto é daquelas que, à primeira vista, só fazem sentido para um círculo restrito de pessoas e não têm muito a dizer para quem é de fora. Ela mostra os pais do Lufe, posando felizes e cheios de expectativa em 1975. O próprio Lufe de certa forma também está na foto, tirada dias antes do nascimento dele. Mas para quem não os conhece, a cena não diz lá grande coisa.

Mas isso é só à primeira vista, pois a foto também é daquelas que, com o tempo, viram interessantes documentos acidentais da vida na cidade.

O que confere essa característica a ela é o local que casal escolheu para a pose. Eles estão na porta de casa, mais precisamente no jardim da entrada do Edifício Marajó, prédio de classe média na rua Ministro Gabriel Rezende Passos, esquina com rua Inhambu, em Moema.

Em 1975, esses lugares ainda se prestavam a fotos de família como esta. De lá para cá, perderam completamente essa vocação. Qual é o casal que, hoje em dia, vai querer eternizar esse momento tendo ao fundo, como cenário, a guarita, a grade e os equipamentos de segurança do prédio?

Para quem quiser tirar a prova, aqui vai uma foto atual, tirada do mesmo ângulo pelo próprio Lufe.

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Pela semelhança física, as moças parecem irmãs.

E pela anotação no verso, certamente feita por uma delas, sabemos que são italianas, que a cena é de 1950 e que a foto foi enviada como lembrança para os pais.

O resto de história se perdeu. A imagem é cheia de enigmas: quem são as duas italianas, que endereço é esse em que elas estão, e até mesmo se o carro é delas ou se estava estacionado ali por acaso na hora da foto.

Mas pra não dizer que eu não resolvi nenhum enigma, pelo menos um deles eu decifrei: o que significa essa numeração tão curiosa na placa do carro: “10-00”.

Na verdade, não foi difícil: encontrei a maior parte da resposta neste texto, publicado em 2009 pelo Ralph Giesbrecht.

Pelo sistema de emplacamento vigente na época, os carros registrados em cada estado recebiam placas com números sequenciais: o primeiro a ser emplacado recebeu a placa “1”, o segundo ganhou a placa “2”, e assim por diante. Mas os números, para facilitar a leitura à distância, eram separados de dois em dois algarismos. Desta forma, a centésima placa recebeu a inscrição “1-00”. A de número 941, por exemplo, acabou ficando “9-41”.

A placa número 59.998 era “5-99-98”. Esta, segundo o Ralph conta, era do pai dele.

E a milésima placa recebeu um “10-00”. Justamente a da foto.

O que não significa que o carro da foto tenha sido o milésimo a ser emplacado em São Paulo. Ele é muito novo pra isso. O que ocorria é que, ao contrário de hoje, as placas não estavam vinculadas ao carro, mas ao proprietário. Quando alguém trocava de carro, a mesma placa do carro velho passava para o novo. Por isso alguns carros nos anos 50, mesmo não sendo tão velhos, tinham placas com número baixo. É o caso deste.

Talvez não seja muito difícil descobrir quem era o dono da placa 1000. Mas eu já cumpri minha cota de descobertas, e deixo isso para quem quiser ir atrás.

Atualização em 20 de janeiro: O João José Basso, leitor do blog, acaba de resolver mais um dos enigmas da foto. Ele reconheceu o local exato onde ela foi tirada. E não é um lugar qualquer: trata-se do edifício Columbus, demolido em 1971, sobre o qual eu já havia escrito em 2013. Para matar qualquer dúvida de que o prédio é esse mesmo, basta comparar a foto com as que aparecem neste artigo da professora Maria Lúcia Bressan Pinheiro: https://goo.gl/E2jmgZ. Obrigado, João, e parabéns pela memória fotográfica!

Atualização em 22 de janeiro: Aos poucos os enigmas vão se resolvendo: já sabemos de quem é o carro! Desta vez a novidade vem do próprio Ralph Giesbrecht, citado no post, que me escreveu há pouco. Ele tem a lista das placas registradas em São Paulo em 1940, e verificou que a de número 1000, ou 10-00, pertencia um tal João Giannini. E mais: o automóvel emplacado com ela em 1940 era um Packard. Como é a mesma marca do da foto, é bem provável que seja o mesmo carro, visto aqui dez anos depois. Obrigado, Ralph!