arquivo

cotidiano

951

A  alameda Fernão Cardim é uma ruazinha de apenas dois quarteirões, que corre paralela à avenida Paulista, começando na Brigadeiro Luís Antonio e terminando na alameda Campinas. Hoje ela é basicamente um corredor de guaritas e grades de segurança, que não se presta muito a festividades. Mas há 50 anos, era cenário dos carnavais de Mariana Pabst Martins.

Mariana é a mais alta das meninas que aparecem no portão, posando com suas fantasias no carnaval de 1967. Um pouco mais à esquerda, protegido pelo toldo que servia de garagem, aparece o DKW Fissore do pai de Mariana, o artista plástico Aldemir Martins.

A casa, segundo nos conta Mariana, foi demolida nos anos 70 junto com a vizinha da esquerda, no auge da febre imobiliária que alterou  a paisagem dos Jardins, substituindo as casinhas, mansões e cortiços que formavam um bairro misto e variado, pelo mar de prédios homogêneos que conhecemos hoje.

No lugar das duas casas, hoje existe o edifício alto e gradeado que se vê na foto abaixo, do Google. Seu “estilo neoclássico” relembra um passado que São Paulo nunca teve. E seu nome, “Mansão Fragonard”, homenageia o francês Jean-Honoré Fragonard, artista plástico do século 18 que, ao contrário do pai de Mariana, nunca teve nada a ver com o lugar.

Arquitetura neoclássica de carro alegórico e homenagem barroca de samba enredo…
Pensando bem, de alguma maneira o local conseguiu conservar, sim, a atmosfera festiva do carnaval.

 

952
(Agradeço à Mariana, que pela segunda vez compartilhou conosco suas fotos e memórias.)

949

O cartão foi enviado para a Inglaterra por um tal Edward, em 1940. A destinatária, Miss Marjorie Robbins, certamente sofreu tentando entender a caligrafia. Eu também penei bastante, e só consegui decifrar uma parte. Esta é a melhor transcrição que consegui fazer, e talvez alguém consiga completá-la. No lugar de cada palavra que não entendi, coloquei um sinal de interrogação:

“Oct 11th 1940
S.P.
Here’s another Sao Paulo view [?]. Through this tunnel [?] gets [?] on his way to and from the airport. And that big ‘Goodyear’ sign is the one that stares him in the face wherever he walks [?]. Today there’s no chance of rolling far ([?] [?]) we have rain to [?] as all reminds one  person it [?] [?] [?] of England. (The illusion is almost complete by daytime. But at night, when the lights go on, we [?] better!)
[?] love, Edward”

Traduzir a partir desses fragmentos é uma missão quase impossível. Mas com um pouco de imaginação, é possível intuir o sentido geral. Para mim, a mensagem fala sobre a dificuldade de andar de carro em São Paulo. Edward fala de alguém (de nome ilegível) que sempre passa pelo “túnel” da foto, que na verdade é a avenida 9 de Julho cruzando o viaduto Major Quedinho. Mas quando chove, fica impossível rodar até muito longe. E chove tanto em São Paulo, que às vezes se tem a ilusão de estar na Inglaterra!

Imagino que a chuva fosse um problema  mesmo, sobretudo nessa 9 de Julho ainda sem asfalto. Só de ver a foto já da pra imaginar o lamaçal que ela devia virar. E Edward acha curioso que essa cidade em que os carros atolavam tivesse como referência na paisagem justamente um anúncio de pneus, que se vê na foto instalado no topo do Martinelli. O inglês tinha uma letra péssima, mas uma ironia fina…

Não sei se eu reconstituí direito a mensagem. Talvez o sentido fosse completamente outro. Mas isso me fez pensar que  não é só o texto do Edward que está  fragmentado. A própria cidade que ele conheceu também costuma nos chegar assim, e a memória que temos dela é em grande parte inventada, num processo não muito diferente deste.

950

(Outra coisa que este cartão me fez ponderar é sobre a efetividade dos serviços britânicos de censura durante a Segunda Guerra. Notem o carimbo azul: ele significa que o cartão passou por um censor e foi liberado. Que censor mequetrefe é esse, que libera algo que certamente não entendeu?)

943

944O cartão postal foi enviado de São Paulo a uma certa Mary Gates, no estado americano de Rhode Island. Parece que quem o escreveu foi a avó de Mary, de sobrenome Stellman. Pelo menos é isto que se entende da anotação que alguém, talvez a própria Mary, acrescentou a lápis.

A data também é incerta. Vovó escreveu em 7 de fevereiro, mas não é possível saber de que ano. De qualquer forma, parece ter sido no final dos anos 20.

A única informação 100% segura é o local retratado. Trata-se do “Largo do Paraizo”, atual praça Oswaldo Cruz, onde começa a avenida Paulista. Mas isto nem precisava vir escrito no cartão. O índio da foto continua pescando lá até hoje, o que torna o lugar muito fácil de reconhecer.

A foto  é cheia de detalhes interessantes, mas os que mais me atraem são os anúncios e letreiros que aparecem ao fundo, atrás da escultura do índio pescador. Para vê-los com mais clareza, é preciso clicar na imagem e ampliá-la. Da esquerda para a direita, aparece o nome de uma loja de armarinhos, cujo telefone parece ser Avenida 1151 (na época, os números telefônicos de São Paulo começavam com prefixos como “Braz”, “Central”, “Cidade” e “Avenida”); um anúncio de charutos (“Fume charutos Stern”, ou “Stella”, parece estar escrito em um muro); o outdoor uma conhecida marca de pneus da época (“Os pneumáticos United States são bons pneumáticos”, diz o texto meio encoberto pela folhagem das palmeiras); e um “seccos e molhados finos” estampado na fachada de um armazém.

Outra coisa interessante é a forma como a avó descreveu a cidade para a neta. Se eu tivesse lido só o texto, sem ver o cartão, dificilmente adivinharia que se trata de São Paulo:

“We are on a mountain top 3000 ft high – just had our lunch. It is a beautiful city. We were three hours getting here – It is pretty thrilling to climb in one conveyance and another. Hope you can take it sometime.”

(Estamos no topo de uma montanha de 3 mil pés de altura – acabamos de almoçar. É uma cidade bonita. Levamos três horas para chegar aqui. Subir é bem excitante, em um meio de transporte e no outro. Espero que algum dia você possa fazê-lo.)

Fiquei me perguntando o que a vovó Stellman quis dizer com essa história de “em um meio de transporte e no outro”. Não sei ao certo, mas acho que a própria foto fornece pistas. Além do outdoor com anúncio de pneus, também vemos um automóvel na extrema esquerda. Carros começavam a tomar conta de São Paulo, e já eram uma alternativa ao trem para a viagem a Santos. É minha hipótese.

Na foto do Google dá pra ver que o índio continua na mesma posição, embora tudo tenha mudado à sua vota.

945

“Ma chère amie, je vous envoie tous mes vœux et souhaits les plus sincères pour 1906 …”
(Minha querida amiga, eu lhe envio meus votos e os desejos mais sinceros para 1906 …)

As palavras simpáticas foram endereçadas a uma tal de Julie Bisse. Até aí, tudo bem.

O que me intriga é que a pessoa que escreveu (cujo nome não sabemos, já que ela assinou só as iniciais) tenha escolhido logo este cartão – a porta do cemitério – para expressar à amiga os seus desejos mais sinceros.

De qualquer maneira, para fechar um ano como 2016, achei o cartão apropriado.

Desejo a todos uma boa passagem (de ano, claro!), e que 2017 seja melhor.

941

940

938

O menino que aparece à esquerda, acompanhado da mãe e do primo, é o pianista Fábio Caramuru. Eu pedi, e ele generosamente deixou que eu publicasse a foto aqui no blog.

Eu jamais reconheceria o local, mas o próprio Fábio explica: é a rua Cravinhos, no Jardim Paulista, com a avenida 9 de Julho ao fundo.

As árvores lá atrás ficavam ao lado do Colégio Assunção. Foram derrubadas mais tarde para construção de um supermercado Eldorado, hoje Carrefour, com entrada pela rua Pamplona.Hoje elas fazem falta na paisagem do local.

E além das árvores, também fazem falta os jardins de muro baixo, a rua da paralelepípedos e a calçada feita de caquinhos. Tudo isso dava à rua uma atmosfera de gentileza e tranquilidade, que combinava à perfeição com o coração estampado na roupinha do Fábio.

Hoje o local está assim:

939

(A primeira foto, de 1958, é do acervo pessoal de Fábio Caramuru. A segunda, de 2014, é reproduzida do Google.)

“A Seringueira Paulista” era uma tradicional loja de artefatos de borracha, que ao longo dos anos ocupou diferentes endereços na última quadra da rua Clélia, na Lapa. Nas fotos abaixo, aqui a vemos instalada respectivamente nos números 2285, 2293 e 2290.

922

923

924

Atualmente, nesses três endereços existem comércios bem menos sedutores. Os dois primeiros, hoje unificados, abrigam uma concessionária de carros da marca chinesa Chery. No terceiro funciona uma loja de motos.

Mas o que eu gosto mesmo é o resto do álbum, que parece ter pertencido aos donos da Seringueira Paulista. Elas nos fazem passear por uma rua Clélia bem mais tranquila, no começo dos anos 70.

Destaque para o prédio da Escola Estadual Pereira Barreto, praticamente o único que não se alterou, e também para o posto de gasolina com frentistas gêmeos, no terreno hoje ocupado por uma escola de inglês CNA.

Em quase cinco anos de blog, eu nunca tinha postado uma foto minha por aqui. Mas hoje, mexendo numas coisas velhas de família, acabei encontrando esta e não resisti.

Pelo meu tamanho, a foto deve ser de 1976. Mas o mais interessante nela não sou eu, e sim a vista para a rua Itambé. As casas do outro lado da rua não estão mais lá. Hoje existe um prédio feio, cercado por muro bege, que se chama Neoclass Helbor Higienópolis.

As casas não tinham nome, mas eram bem mais legais de se ver.

917