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Hoje em dia existe um debate muito intenso a respeito de quantas pessoas são necessárias para trocar uma lâmpada.

Se forem portugueses, são necessários três (um para segurar a lâmpada e dois para girar a escada). Já se o sujeito for argentino, aí basta um só (ele segura a lâmpada e o mundo gira em torno dele). Também é necessário apenas um psicólogo, mas neste a caso a lâmpada precisa querer ser trocada. E assim por diante. A discussão é longa e complexa.

A foto é reproduzida de um cartão postal dos anos 40, época em que o conhecimento sobre esse assunto não estava tão desenvolvido. Por isso, em plena avenida 9 de Julho, a prefeitura trocava lâmpadas deste jeito tão rudimentar e singelo.

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Erguido entre 1954 e 1979, o falso conjunto jesuítico do Pátio do Colégio (ou Pateo do Collegio como alguns teimam em grafar afetadamente) é uma réplica do que se supõe ter sido a construção que originou o núcleo inicial da atual cidade de São Paulo. Embora ele tente parecer (e muitos incautos acreditem ser de fato) remanescente do século 16, o prédio é na verdade um exemplar paulistano de “falso histórico”. Finge ser antigo, e até engana bem, mas na verdade foi construído em época bastante recente.

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A história do prédio, que na foto acima, de 1976, aparece em sua última fase de construção, é conhecida e não vale a pena retomá-la aqui. O que quero mesmo comentar é o acontecimento que causou comoção nas redes sociais e na grande imprensa esta semana: na terça-feira, 10 de abril, o edifício amanheceu com um garrafal “OLHAI POR NÓIS” pixado (ou pichado, como preferem os puristas da língua) em sua fachada.

A intervenção usou técnica difundida desde a década de 1990 em cidades como Los Angeles, Nova York e Paris, mas que só em 2012 desembarcou em muros brasileiros: o uso de extintores de incêndio carregados com tinta, o que permite intervenções de grande proporção. Graças a essa técnica, numa ação que durou pouco mais de um minuto, gravada pelas câmeras de segurança do local, a fachada foi inteiramente coberta, o que teria sido impossível de se produzir com os tradicionais sprays.

Reações indignadas vieram instantaneamente. Uma das primeiras foi a do próprio poder público: poucas horas depois da ação, em uma inflamada postagem no Facebook, o subprefeito da Sé, Eduardo Odloak, qualificava a intervenção como “um CRIME contra a cidade e TODOS os paulistanos de bem” (grifos no original). Em vídeo gravado no próprio local, o subprefeito anunciava: “Nós não vamos deixar quieto. Isto aqui é um ato criminoso contra a nossa cidade!”.

A grande imprensa aderiu ao discurso, classificando a pixação como ato de vandalismo e o prédio pixado como edifício histórico. Essa construção discursiva – a de um condenável ato criminoso cometido contra edifício histórico – dominou também o debate que se seguiu nas redes sociais. Este último, como costuma acontecer, se deu de maneira desalentadoramente rasa e estereotipada. Não faltou nem mesmo quem atribuísse o crime a apoiadores do PT, enxergando indícios de autoria na cor vermelha usada na intervenção!

Também não faltou no raso debate quem se incomodasse com a grafia do pronome pessoal empregado na pixação: não bastasse agredir o patrimônio, agrediu-se também a língua portuguesa. “É nós e não nóis!”, “Nem escrever direito sabem?”, gritaram não poucos puristas da língua, para os quais até os crimes devem ser cometidos respeitando a norma culta.

Não entenderam, esses zeladores do prédio e do idioma, que a súplica pixada no Pátio do Colégio não é para ninguém olhar por nós. Ao contrário, nós é que fomos chamados a olhar por “nóis”, aqueles para os quais jamais olhamos. É sintomático que, mesmo após uma súplica tão eloquente, toda nossa atenção e indignação tenham se dirigido à agressão ao prédio, incapazes que somos de olhar para “nóis”. A própria população que se refugia no Pátio, embora captada pelas mesmas imagens de segurança, não mereceu qualquer parcela de atenção.

Mas os indignados podem ficar tranquilos: em pouco tempo a situação se normalizará. A fachada ficará branca de novo (oh, desperdício de recursos!), e “nós” poderemos voltar a admirar orgulhosos esse prédio histórico de 1979. Ainda que, para tanto, tenhamos que desviar de uns tantos “nóis” inconvenientes que insistem em ficar por lá atrapalhando.

Tudo isto pra dizer que São Paulo precisava mesmo ouvir um vigoroso “olhai por nóis”. Podem me pixar.

(A foto recente é de Pedro Pinto / fotospublicas.com. A de 1976 é de Waldemir Gomes de Lima / acervo da Prefeitura de São Paulo. O texto é uma versão ligeiramente modificada de um artigo que publiquei esta semana na revista Minha Cidade, do portal Vitruvius.)

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A foto foi enviada pelo cineasta Lufe Steffen, e de cara isso me deixou muito feliz: há tempos eu sou um admirador do trabalho do Lufe (adorei “São Paulo em Hi-Fi”, documentário sobre a vida LGBT na cidade nos anos 60 e 70), mas não fazia ideia de que ele conhecia o blog. Fiquei sabendo agora que ele não só conhece, mas é um leitor assíduo!

A foto é daquelas que, à primeira vista, só fazem sentido para um círculo restrito de pessoas e não têm muito a dizer para quem é de fora. Ela mostra os pais do Lufe, posando felizes e cheios de expectativa em 1975. O próprio Lufe de certa forma também está na foto, tirada dias antes do nascimento dele. Mas para quem não os conhece, a cena não diz lá grande coisa.

Mas isso é só à primeira vista, pois a foto também é daquelas que, com o tempo, viram interessantes documentos acidentais da vida na cidade.

O que confere essa característica a ela é o local que casal escolheu para a pose. Eles estão na porta de casa, mais precisamente no jardim da entrada do Edifício Marajó, prédio de classe média na rua Ministro Gabriel Rezende Passos, esquina com rua Inhambu, em Moema.

Em 1975, esses lugares ainda se prestavam a fotos de família como esta. De lá para cá, perderam completamente essa vocação. Qual é o casal que, hoje em dia, vai querer eternizar esse momento tendo ao fundo, como cenário, a guarita, a grade e os equipamentos de segurança do prédio?

Para quem quiser tirar a prova, aqui vai uma foto atual, tirada do mesmo ângulo pelo próprio Lufe.

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Pela semelhança física, as moças parecem irmãs.

E pela anotação no verso, certamente feita por uma delas, sabemos que são italianas, que a cena é de 1950 e que a foto foi enviada como lembrança para os pais.

O resto de história se perdeu. A imagem é cheia de enigmas: quem são as duas italianas, que endereço é esse em que elas estão, e até mesmo se o carro é delas ou se estava estacionado ali por acaso na hora da foto.

Mas pra não dizer que eu não resolvi nenhum enigma, pelo menos um deles eu decifrei: o que significa essa numeração tão curiosa na placa do carro: “10-00”.

Na verdade, não foi difícil: encontrei a maior parte da resposta neste texto, publicado em 2009 pelo Ralph Giesbrecht.

Pelo sistema de emplacamento vigente na época, os carros registrados em cada estado recebiam placas com números sequenciais: o primeiro a ser emplacado recebeu a placa “1”, o segundo ganhou a placa “2”, e assim por diante. Mas os números, para facilitar a leitura à distância, eram separados de dois em dois algarismos. Desta forma, a centésima placa recebeu a inscrição “1-00”. A de número 941, por exemplo, acabou ficando “9-41”.

A placa número 59.998 era “5-99-98”. Esta, segundo o Ralph conta, era do pai dele.

E a milésima placa recebeu um “10-00”. Justamente a da foto.

O que não significa que o carro da foto tenha sido o milésimo a ser emplacado em São Paulo. Ele é muito novo pra isso. O que ocorria é que, ao contrário de hoje, as placas não estavam vinculadas ao carro, mas ao proprietário. Quando alguém trocava de carro, a mesma placa do carro velho passava para o novo. Por isso alguns carros nos anos 50, mesmo não sendo tão velhos, tinham placas com número baixo. É o caso deste.

Talvez não seja muito difícil descobrir quem era o dono da placa 1000. Mas eu já cumpri minha cota de descobertas, e deixo isso para quem quiser ir atrás.

Atualização em 20 de janeiro: O João José Basso, leitor do blog, acaba de resolver mais um dos enigmas da foto. Ele reconheceu o local exato onde ela foi tirada. E não é um lugar qualquer: trata-se do edifício Columbus, demolido em 1971, sobre o qual eu já havia escrito em 2013. Para matar qualquer dúvida de que o prédio é esse mesmo, basta comparar a foto com as que aparecem neste artigo da professora Maria Lúcia Bressan Pinheiro: https://goo.gl/E2jmgZ. Obrigado, João, e parabéns pela memória fotográfica!

Atualização em 22 de janeiro: Aos poucos os enigmas vão se resolvendo: já sabemos de quem é o carro! Desta vez a novidade vem do próprio Ralph Giesbrecht, citado no post, que me escreveu há pouco. Ele tem a lista das placas registradas em São Paulo em 1940, e verificou que a de número 1000, ou 10-00, pertencia um tal João Giannini. E mais: o automóvel emplacado com ela em 1940 era um Packard. Como é a mesma marca do da foto, é bem provável que seja o mesmo carro, visto aqui dez anos depois. Obrigado, Ralph!

998“Questa è la mia casa, quella sinistra”: o italiano que escreve quer que saibamos que a casa dele é a da esquerda.

E para evitar qualquer dúvida, ele marca na foto, com caneta, os limites da casa. O cuidado se justifica: é que o seu sobrado e o do vizinho são geminados, e a fachada pode confundir. Quem não está acostumado com esse tipo de casa pode achar que as duas são uma só.

Na porta do sobradinho está estacionada a “macchina”. Dois símbolos de status bem paulistanos, reunidos numa foto só, tirada em pleno dia de Natal: o imigrante parece orgulhoso de suas conquistas.

59 natais depois, quase nada sobrou da história. Não sabemos quem é o personagem, nem o bairro onde ele morava. Talvez alguém identifique o modelo do carro (será uma perua Dodge?), mas não vamos muito além disso. O italiano mostrou a casa e a perua, mas não deixou seu nome e se esqueceu de passar o endereço.

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“S. Paulo, 10-7-51
Io, Felice, Renato, Gaetano. La prima auto che ho guidato, davanti alla nostra casa dalle parte del parco don Pedro Secondo. Isso es uma grande Beleza. O mais lindo parco do S. Paulo, é muito bonito nos stamos em frente.”

Está na cara que o italiano que escreveu no verso da foto estava aprendendo português. O começo do texto saiu em italiano mesmo (“Eu, Felice, Renato, Gaetano e o primeiro carro que eu guiei, em frente à nossa casa, ao lado do parque Dom Pedro Segundo”), mas na última frase ele já engata um português macarrônico bastante razoável.

E além de aprender a língua, parece que ele também estava fazendo várias outras coisas, como aprender a dirigir, conhecer São Paulo, divertir-se com os amigos…

Se ao invés de querer fazer tudo ao mesmo tempo ele tivesse se concentrado em uma coisa de cada vez, talvez teria conseguido explicar que lugar tão bonito é esse em que morava, vizinho ao Parque D. Pedro.

Eu tentei, mas não consegui entender onde é.

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Acabo de fazer uma grande descoberta: já existiu, em plena avenida Paulista, uma casa sobre a qual até agora não havia nenhuma informação ou registro conhecido!

Mas antes de mostrar esse achado, tenho que contar como cheguei a ele. Foi por meio de um velho álbum recheado de fotos da Primeira Guerra Mundial, posto à venda na internet por uma casa de leilões francesa.

Era um álbum com pedigree: pertenceu a um tal Georges Jean Bourgès (1887-1974), que comandou tropas francesas em diversas batalhas da primeira guerra. Quem tiver a paciência de pesquisar verá que ele era membro de uma família muito influente, pertencente à fina flor da aristocracia francesa.

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Como costuma acontecer nesses leilões, o álbum foi retalhado e vendido por partes. Cerca de metade dele era formada por páginas e páginas com fotos do cotidiano de campos de batalha. São centenas de imagens de trincheiras, armas e soldados, feitas por Bourgès entre 1914 e 1917. Estas páginas acabaram vendidas por valores bastante altos.

Mas a segunda metade não fez o mesmo sucesso. Eram fotos de uma viagem que Bourgès fez à América do Sul entre janeiro e agosto de 1918. A guerra ainda estava rolando, mas pelo jeito ele resolveu deixar os campos de batalha e dar uma passeada, que ninguém é de ferro. Visitou Buenos Aires, Montevidéu, São Paulo, Rio, Vitória e Salvador. Eu acabei comprando baratinho, pelo lance mínimo, o lote com fotos de São Paulo.

As imagens, de março e abril de 1918, mostram que o combatente em férias andou bastante pela cidade. Visitou não só as atrações mais comuns – estação da Luz, vale do Anhangabaú, museu do Ipiranga… – mas também outros lugares menos óbvios para um turista. Chegou a ir às regatas na represa de Guarapiranga!

 

Entre um passeio e outro, o visitante parece ter-se hospedado na casa de outro francês: um senhor gordinho de terno escuro, gravata borboleta e chapéu Panamá, que em algumas fotos aparece identificado como Monsieur Pierre.

Não é preciso pesquisar muito para saber quem é o anfitrião. Trata-se do banqueiro Ferdinand Pierre, presidente do Banco de Credito Hypothecario e Agricola. No ano seguinte o banco seria comprado pelo governo estadual, e acabaria dando origem ao Banespa.

O banqueiro morava com a família numa casa bastante confortável, como se vê em duas das fotos. A casa é bem fácil de reconhecer: era um palacete em estilo neocolonial, no atual número 171 da avenida Paulista, projetado pelo arquiteto também francês Victor Dubugras.

 

E é nos fundos dessa imponente residência de banqueiro que fazemos a grande descoberta. Ali estava situada a casa de bonecas de Jacqueline Pierre, filha de Ferdinand.

É sem dúvida uma novidade e tanto: uma charmosa casinha que existiu na Paulista, mas que até agora ninguém conhecia. E ainda por cima com alguma chance de ter sido projetada pelo Dubugras!  🙂

 

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