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kitsch

Garimpando imagens para o blog, às vezes eu me surpreendo com as coisas que encontro. Esta foi uma das descobertas mais interessantes, e os fãs do João Artacho Jurado com certeza vão concordar comigo.

A foto é um slide de 35 mm que estava misturado com dezenas de outros, de uma viagem que algum americano fez a São Paulo em fevereiro de 1959.

Reconhecer o local é fácil: é o saguão do edifício Bretagne, monumento da arquitetura kitsch paulistana que na época acabava de ser inaugurado.

Nem tão fácil assim é achar fotos em cores da sua decoração original de refinado mau gosto, que há muitos anos deixou de existir. Eu, pelo menos, nunca tinha visto nenhuma.

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Os condomínios que se constroem hoje em São Paulo oferecem muitos atrativos que “agregam valor”: espaço gourmet, praça privativa, fitness center, zen space, cine room, kids place, play baby, espaço barbecue, bistrô lounge…  A lista costuma ser longa e tão aterrorizante quanto os muros, grades e câmeras que protegem e vigiam tudo isso.

Quando a cidade era mais gentil, os condomínios não tinham essas coisas. Mas tinham gangorras em forma de cavalinho.

A foto, do final dos anos 50, mostra o edifício Bretagne recém inaugurado. Na época este prédio era considerado, vejam só que ingenuidade, o cúmulo da cafonice.

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(Imagem reproduzida de um slide de 35 mm)

João Artacho Jurado é um personagem paulistano sobre o qual existem “muitas lendas e algumas verdades”, como disse o escritor e jornalista Bernardo Carvalho em um famoso artigo publicado em 1990.

Uma das lendas, que costuma ser repetida à exaustão, é que Jurado era “constantemente perseguido” pelo CREA, o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, porque projetava prédios sem ter título de engenheiro ou de arquiteto.

Tá certo que Jurado e o Conselho não se davam lá muito bem… Mas do jeito que a história é contada, parece que a relação era de ódio mortal, quando na verdade parece ter sido mais complexa e cheia de nuances do que isso.

Em 1960, por exemplo, a diretoria do CREA, junto com Adolpho Lindenberg e outros figurões da construção civil paulistana, convidou uma delegação de visitantes estrangeiros para ir conhecer o edifício Bretagne e participar de um coquetel gentilmente oferecido, justamente, por João Artacho Jurado e seu irmão Aurélio. Tudo muito cordial, como se vê na matéria da Folha de S.Paulo de 3 de abril de 1960, página 6, “Vida Social”:

“Engenheiros suíços visitam o ‘Bretagne’
Um grupo de engenheiros suíços, ora em turnê pelas três Américas com o objetivo de conhecer vários países do continente e suas respectivas construções, estiveram na noite do ultimo dia 26 em visita ao edifício ‘Bretagne’, na av. Higienópolis.
Após percorrer as principais dependências do prédio, os visitantes, que se encontravam em companhia dos diretores do Instituto de Engenharia de São Paulo e do CREA, foram recebidos com um ‘coq’, oferecido pelos srs. João Artacho Jurado e Aurelio Jurado Artacho, diretores da Imobiliária Monções S.A., firma responsável por aquela construção.
Informaram os engenheiros visitantes que, antes de partir da Suíça, já haviam recebido indicação para que visitassem o edifício ‘Bretagne’. Estiveram presentes à recepção os engenheiros suiços, srs. Feliz Nager, Maxim Passet, Robert Schmid, Frederico Matter, Paul Aubry, Claude Bigar, Eduard Strebel, Julian Schlleutemann, Henry Quiby e René Cleusix, que foram reunidos pelo sr. Adolpho Lindemberg, presidente do Instituto de Engenharia do Estado, e pelos srs. João Artacho Jurado, Aurelio Jurado Artacho, Helio de Caires, presidente do Conselho Regional de Engenharia, Rubens Macedo Vieira, Valter Stark, Jamil Tomé, Arnaldo Albieri, Osvaldo Mazieri e Irineu Simonetti.
Na ocasião, juntaram-se ao grupo suíço, quatro engenheiros bolivianos, que também visitavam o edifício.”

Mas o que mais me chamou a atenção foi o tratamento dado, no finalzinho do texto, aos quatro engenheiros bolivianos – os únicos sem nome – que participaram do encontro. Tratados quase como penetras, esses sim parecem ser os verdadeiros desprezados! 

(Quem gostou deste post provavelmente também vai gostar deste outro, e também deste.)

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Aposto que muita gente nem notou, mas na foto acima o aeroporto de Congonhas aparece todo enfeitado para o Natal. Eu também demorei pra perceber.

A culpa é da agressividade das decorações de Natal atuais em São Paulo. Mergulhados em tanto excesso, nonsense e cafonice, a gente fica meio atarantado e cego mesmo…

A foto é de um conjunto de slides com os principais pontos turísticos da cidade, que era vendido como souvenir nos anos 60.

“Há aqui tanta alegria… quanto confôrto, beleza e poesia!”, cantava um galo em plena avenida General Olímpio da Silveira, em 1950.

Sobre o “confôrto” não posso dizer muita coisa, porque não conheço o edifício Pacaembu por dentro.

Mas a alegria, a beleza e a poesia foram embora faz tempo. Em 1970 elas deram passagem ao minhocão.

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O anúncio é do Estadão de 1º de outubro de 1950. Eu o reproduzi do blog Notícias de São Paulo.

E tem mais sobre o mesmo prédio neste outro post.

Quem acompanha o blog já deve ter percebido que eu gosto do João Artacho Jurado.

E não sou só eu. Alguns prédios do Artacho costumam ser muito admirados por sua arquitetura enfeitada, colorida e alegre, que desafia ao mesmo tempo o bom gosto e a tristeza convencional e cinza da cidade. É o que acontece com os prédios mais conhecidos dele: Bretagne, Planalto, Viadutos, Cinderela …

Outros, porém, não tiveram a mesma sorte. É o caso destes dois. O primeiro fica na esquina da rua Amaral Gurgel com a General Jardim. O segundo, na avenida General Olímpio da Silveira. Hoje dia, ninguém mais os enxerga. Quem os condenou foi o minhocão, que desde 1970 passa na porta dos dois.

(Fotos extraídas do CD-Rom “Artacho Jurado, uma arquitetura cênica”, de Ricardo Barretto e Paula Periscinotto)