arquivo

marginais

Como muita gente gostou do post de ontem, sobre o futuro aeroporto de Guarulhos, compartilho com vocês mais uma imagem da visita do general Harper.

Desta vez a foto é do Campo de Marte, que hoje em dia é, para mim, um dos lugares-símbolo da cafonice paulistana: uma imensa área pública, em uma região privilegiada da cidade, servindo como aeroporto para os jatinhos e helicópteros dos mais endinheirados.

O aeroporto em si não mudou muita coisa de 1950 pra cá, e o interessante mesmo na foto é a área em volta dele. O rio Tietê ainda está sem marginal, e a ponte Casa Verde (não a atual, de concreto, mas a antiga, de madeira), chama a atenção lá embaixo. As avenidas Rudge e Olavo Fontoura também aparecem em destaque.

795

Roger Wollstadt é um americano que, entre 1971 e 1974, esteve em São Paulo três vezes. Ele trabalhava para a Carterpillar, empresa fabricante de tratores e máquinas, e veio a serviço. E a São Paulo que ele conheceu foi esta das fotos.

Somando as três viagens, Roger ficou 9 semanas por aqui. Hospedou-se sempre no Hotel Ca’d’Oro. No último andar do hotel (que fechou em 2009 e foi demolido em seguida) havia um terraço de onde dava pra se ter uma vista panorâmica da cidade.

712

713The hotel was very nice, and had great meals in the dining room. This sounds glamorous, but the trip to the plant was an hour each way”: Roger nos conta que o hotel era muito bacana e servia refeições ótimas, mas o deslocamento até a Carterpillar demorava mais de uma hora, quebrando qualquer glamour. As viagens de ida e volta eram feitas num ônibus da empresa, que fazia o trajeto centro-fábrica. São Paulo já tinha inventado o fretado…

714

715Pelas fotos vemos que, nas horas vagas, Roger passeou bastante pela cidade e foi a todos os lugares que um turista deve conhecer: República, Anhangabaú, Augusta, Praça Roosevelt, Ibirapuera e até mesmo o estádio do Morumbi. Fotografou tudo, inclusive uma favela que, segundo ele, ficava perto do aeroporto de Congonhas:

716 717 718

722719 720 721

Mas de todas as fotos, as que eu mais gostei são as da fábrica da Carterpillar, onde Roger trabalhava. Roger explica que ela ficava “on the outskirts of São Paulo” (na periferia de São Paulo), em uma estrada popularmente conhecida como “the Marginale”. A fábrica ficou por lá até 1993. No terreno dela existe hoje o shopping SP Market.

723 724 725

As fotos, originalmente slides de 35mm, hoje estão na internet. Eu selecionei apenas algumas para o post. Para vê-las e conhecer a história com mais detalhes, é só clicar aqui.

Agradeço ao Roger, que eu nem conheço, por ter compartilhado as fotos, e também ao Gustavo Basso, um leitor do blog que as descobriu e me mandou a sugestão deste post.

Um turista catalão esteve aqui em setembro de 1908 e mandou notícias para um amigo em Barcelona. Escolheu um postal com uma linda paisagem do Tietê.

Mas no texto, ele se mostra pouco à vontade com a cidade. Não está vendo muita beleza por aqui, e anda meio entediado:

“S. Paŭlo no te gayres edificis bonichs, pero si importans. Avuy fa 9 dias que hi estic y me semble que fa un any.”
(São Paulo não tem muitos prédios bonitos, mas tem importância. Hoje faz 9 dias que estou aqui, e parece que faz um ano.)

Coitado. Se sentiu falta de beleza na São Paulo que conheceu, o que pensaria se voltasse agora e visse a marginal Tietê na altura da ponte das Bandeiras, que é o cenário do seu cartão…

690

691

A foto, de 1937, veio junto com as do post anterior. O rio que aparece nela é o Pinheiros, e a foto foi tirada em direção ao espigão da Doutor Arnaldo e Paulista.

Vamos traduzir as legendas? A primeira diz “faculdade de medicina”. A segunda, “avenida Rebouças”.

E a terceira diz que a Light está acabando com o rio e estragando o lugar para sempre. A tradução não é literal, mas o sentido é preciso.

523

De tão feio que era, ele harmonizava com a marginal e se integrava à paisagem com rara perfeição.

Estou falando daquele enorme esqueleto de concreto que existiu durante mais de 30 anos ao lado do parque Anhembi. Desde 2004 ele abriga um hotel, mas eu continuo enxergando o esqueleto quando passo por lá. É difícil apagar a referência.

Além de ser hoje (segundo dizem) o maior hotel do Brasil, ele deve ser um dos prédios de São Paulo que mais demoraram para ser construídos. Mas seu principal recorde é outro: trata-se do único esqueleto de concreto que está presente em álbuns de recordações familiares.

A foto da esquerda é das irmãs Carolina e Paula Ponte Ferrari. A da direita é do acervo familiar de Emil Lewinger. À Carolina e ao Emil, obrigado por terem permitido a publicação das fotos aqui no blog.

467    468

Imagine o drama que seria se, hoje, uma das pontes da marginal Tietê tivesse que ser completamente interditada por três dias.

Quando a cidade era mais gentil, isso podia acontecer sem trauma. Aconteceu em maio de 1942, quando uma draga da prefeitura precisou passar sob a ponte Casa Verde. Como a draga era mais alta que a ponte, a solução foi essa que aparece nas fotos. A ponte, que era de madeira, foi cortada e depois refeita. Simples assim.

O mais interessante é a repercussão que isso teve na mídia: apenas uma notinha perdida, quase invisível, espremida num canto entre os anúncios fúnebres e uma propaganda de Magnésia Bisurada.

460“Comunica-nos a Prefeitura Municipal de São Paulo que, em virtude da passagem da draga do 2º para o 3º trecho do rio Tietê, o trânsito na Ponte da Casa Verde será interrompido a partir das 13 horas de hoje e durante três dias. Foram tomadas todas as providências para que o trânsito de pedestres seja feito através de uma passagem provisória, instalada a jusante da referida ponte. O tráfego de bondes e ônibus será mantido na av. Rudge, de um e outro lado do rio Tietê. O trânsito de veiculos da Casa Verde à cidade e vice-versa deverá ser feito ou pela Ponte do Limão (…) ou pela Ponte Grande.”

462

461

A notícia saiu no Estadão en 30 de maio de 1942. As duas fotos são reproduzidas de saudadesampa.nafoto.net, onde aparecem sem crédito de fonte.