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minhocão

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São Paulo gosta tanto de demolir seus prédios antigos, que ao ver fotos como esta a gente vai logo supondo que eles não existem mais. Mas nem sempre isso é verdade.

Este cartão postal, por exemplo, é da primeira metade do século passado. A legenda hoje soa estranha: trata-se da Escola Allemã (Deutsche Schulle), na rua Olinda.

De lá pra cá, quase tudo mudou ali. A Escola Allemã não existe mais com esse nome (virou Colégio Visconde de Porto Seguro), e não funciona mais nessa rua. A própria rua também não é a mesma: foi desfigurada em 1970 pela construção do complexo minhocão-Roosevelt e nunca mais se recuperou. Nem mesmo o nome ela manteve, rebatizada de João Guimarães Rosa.

Em meio a tanta mudança, só ficaram mesmo os dois prédios para contar a história. Eles são a única coisa do cartão que ainda pode ser reconhecida, como se vê na foto atual, do Google.

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831“Dear Earl,
This is a beautiful modern city and the ‘old’ is not so very old, but this picture shows how the ‘modern’ is replacing the ‘old’.
Sincerely,
Lee”

(Prezado Earl, esta é uma cidade bonita e moderna, onde o ‘velho’ não é tão velho assim, mas a foto mostra como o ‘moderno’ está substituindo o ‘velho’. Atenciosamente, Lee)

Pobre Lee. Mal sabia ele que, 28 anos depois, o ignóbil passaria por cima do velho, do novo e do que mais houvesse pela frente. A foto que ele comentou em 1942 é da praça Marechal, que desde 1970 está debaixo do minhocão.

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(Quem gostou deste post provavelmente também gostará deste outro)

Fotos de esquartejamento são sempre fortes e impressionantes. É o caso desta, de 1969, em que o Bixiga e a Liberdade acabam de ser retalhados.

Trata-se da construção da ligação leste-oeste, aquela via expressa que começa debaixo da praça Roosevelt e vai até o Glicério, cortando os dois bairros e funcionando como uma continuação do minhocão.

Uma continuação, diga-se de passagem, que consegue ser mais violenta que o próprio minhocão. Porque com este, de uma forma ou de outra, ainda dá pra fazer alguma coisa: ele pode ser desmontado, como defendem alguns, ou transformado em uma floreira gigante, como querem outros. Já a destruição urbana que vemos na foto tem bem menos chances de reparação.

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A foto é reproduzida de um slide de 35 mm, cuja autoria eu desconheço. Para quem não se localizou, a rua sobre a qual eu coloquei o endereço do blog é a João Passalacqua/Rui Barbosa. A paralela, logo abaixo, é a 13 de Maio.

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Hoje li a revista Veja. Não a edição desta semana, claro, que eu não ia estragar meu feriado, mas a de 3 de fevereiro de 1971. A Veja é assim: depois de deixá-la descansar uns 40 ou 50 anos, já dá pra ler.

A matéria que mais me chamou a atenção conta como a cidade estava reagindo a um evento grandioso: a inauguração do minhocão, que tinha acontecido poucos dias antes. O discurso da revista era bem afinado com o da prefeitura, e a matéria festejava a obra-prima de Paulo Maluf:

“Da praça Roosevelt ao largo Padre Péricles (…) o tempo de viagem passou da incerteza entre vinte e cinqüenta minutos à certeza de menos de cinco. Para São Paulo ganhar tôdo esse tempo, certamente valeu a pena devastar uma floresta de 5000 eucaliptos (para os caibros), gastar 58.000 metros cúbicos de concreto (um prédio do tamanho do Empire State de Nova York só precisaria de um décimo disso) e 6.200 toneladas de ferro, num total de 40 milhões de cruzeiros. Pois o minhocão significa que é possível ir da Mooca, na zona leste, à Lapa, na oeste, em doze minutos, um têrço do tempo anterior.”

Ainda segundo a matéria, a reação da população à inauguração do viaduto foi bastante previsível. O paulistano da época, assim como o atual, adorava uma aglomeração. O programa de índio foi o mesmo que se repete até hoje, invariavelmente, em qualquer inauguração de shopping ou de árvore de natal:

“Nos dois primeiros dias da semana passada, aparentemente todos os carros de passeio e táxis de São Paulo em condições de movimentar-se, lotados por famílias, crianças e cachorros, foram praticar o ritual de ‘ir conhecer’. A situação criou notáveis, mesmo para São Paulo, congestionamentos de trânsito. Nos dois dias seguintes, possivelmente temerosos de que o engarrafamento se repetisse, os motoristas realizaram a segunda parte do ritual, o ‘desviar dali a todo custo’.”

805Mas a parte mais interessante é quando a Veja admite que todo esse progresso tinha algum custo. A reportagem tinha visitado os prédios ao longo do elevado e conversado com moradores, e descobriu que para eles, vejam só que coisa, o minhocão estava criando certos “problemas especiais”.

Uma das pessoas entrevistadas foi Cleusa da Silva, de 18 anos, que morava com a mãe em um apartamento a 19 centímetros da pista. “Tenho mêdo de ser atropelada na sala, ou então de que algum malvado salte na minha cama”, disse Cleusa à reportagem. A mãe dela explicou que, por causa do calor, não era possível fechar as janelas do apartamento. “Então os motoristas passam, olham e riem para a gente”.

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Elvira Frederici, 42 anos, apareceu na reportagem estendendo roupas no varal, em seu espaçoso terraço a menos de 1 metro dos carros. “Era o orgulho da gente êsse terraço, num sol de fazer inveja para quem morava em cima”, contou Elvira, saudosa.

E Lília Stevanini, uma secretária de 30 anos, tinha decidido deixar de usar um dos dois quartos do seu apartamento, o que dava para o elevado. De dia o barulho era muito grande, e de noite também vinha “uma luz brutal que atravessa qualquer cortina”.

Nem todo mundo, no entanto, reclamava. João Casanova, um aposentado de 78 anos, estava adorando a vista do terceiro andar. A esposa dele, que pelo jeito não gostava muito do seu João dentro do apartamento, também elogiava: “Com o elevado, a casa ficou mais alegre. Meu marido fica no terraço desde cedo, apreciando o movimento dos carros. Êle prefere o terraço à televisão”. E a Veja aproveitou para concluir: “O que prova que, sem dúvida e em mais de um sentido, o minhocão é um espetáculo”.

É bem possível que Cleusa, Elvira e Lília estejam vivas até hoje. Se estiverem, têm 62, 86 e 74 anos de idade. Espero que tenham sido felizes estes anos todos, e que tenham tido a chance de se mudar logo dali. Já seu João, que hoje teria 122 anos, com certeza já faz tempo que não está mais vendo a vida fugir pela janela.

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Estes prédios ficavam de frente para uma grande praça…

Ou melhor, ficam!  Porque tanto a praça como os prédios continuam até hoje lá, firmes, no cruzamento da avenida Angélica com a General Olímpio da Silveira. Só não os enxergamos direito porque estão escondidos e asfixiados pelo minhocão.

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A foto é de um cartão postal, provavelmente da década de 40. Destaque especial para o prédio de linhas retas e janelas quadradas, à direita, projetado por Julio de Abreu e construído em 1927. Ele é considerado o primeiro prédio de apartamentos modernista da cidade.

E quem quiser uma vista mais completa da praça pode olhar neste outro post, de 2012.

Paulo Maluf não foi o único prefeito que quis fazer um minhocão sobre a avenida São João. Sessenta anos antes dele, já tinha havido uma outra tentativa.

No final de 1910, o prefeito Antonio Prado apresentou um ambicioso plano de remodelação do centro. Um dos pontos chave do projeto elaborado por Victor da Silva Freire e Eugenio Guilhem, engenheiros da Prefeitura, era um grande viaduto ao longo da São João, que ligaria o largo do Paissandu à praça Antonio Prado. Ao contrário dos outros viadutos já existentes ali perto (o do Chá e o de Santa Ifigênia), que eram de ferro, este seria construído em alvenaria. O objetivo era facilitar o trânsito entre o centro velho e os bairros do outro lado do Anhangabaú, e com isso “diminuir, durante longos annos, a congestão de movimento que se nota agora”.

Além do viaduto, o projeto também previa vários outros melhoramentos com o objetivo de  “transformar o aspecto acanhado da nossa ‘city’, dilatar-lhe os horizontes e a zona commercial”.  O vale do Anhangabaú seria ajardinado, a fim de “transformar de maneira agradavel e risonha” o seu  “aspecto hirsuto e feio”. A rua Líbero Badaró se fundiria ao vale e passaria a ter construções apenas no lado par, de frente para o jardim. Na rua Direita previa-se a demolição de edifícios para formação de um “largo fronteiro á egreja de Santo Antonio”, exatamente onde hoje fica a praça do Patriarca.

Infelizmente (ou felizmente, não sei), não dá pra saber qual teria sido o resultado. Em 1911 Antonio Prado saiu da prefeitura, e o plano não saiu do papel. O sucessor, Raymundo Duprat, preferiu remodelar o centro de acordo com outro projeto, encomendado ao urbanista francês Joseph Bouvard, que manteve alguns pontos em comum com o de Prado mas não previu o minhocão.

Vale a pena clicar na imagem para vê-la com mais detalhes. Tanto ela como os trechos entre aspas são de matéria do Estadão de 4 de janeiro de 1911.

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A foto foi tirada do edifício Altino Arantes e mostra a avenida São João em toda a sua extensão, apontando para o Tietê.

Hoje não é mais possível fotografar a avenida assim, toda ensolarada. É que um grande pedaço dela, do meio da foto para cima, está desde 1970 na sombra do minhocão.

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A foto é de um cartão postal que circulou em 1967. Quem gostou dela talvez também goste desta outra.