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parques e praças

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Faz muito tempo que eu não escrevia no blog, mas hoje esta foto caiu nas minhas mãos e eu achei que ela valia um retorno.

É difícil precisar a data da imagem, mas ela parece ser do final da década de 1910. Seja de quando for, ela mostra uma coisa importante que São Paulo tinha na época, e não tem mais: um cinema em frente a uma praça.

A praça em questão é a da República, vista aqui da esquina da 7 de Abril. E o cinema é o Cine República, quase na esquina com a Rua do Arouche. Ele funcionou ali por cerca de 60 anos.

Tá certo que, durante esse tempo, houve interrupções. Inaugurado em 1911, o prédio nem sempre funcionou como cinema, intercalando esse uso com vários outros: ringue de patinação, mercado, pavilhão de exposições, repartição pública e até mesmo fábrica da Ford.

Mas, curiosamente, nenhuma dessas outras destinações vingava. Reforma após reforma o lugar teimava em virar cinema de novo, reafirmando sua vocação. Nos anos 50, já defasado, o prédio foi inteiramente demolido para a construção de um novo, que comportasse tela gigante e tecnologia cinemascope. O cinema só se rendeu mesmo à construção da estação República do metrô, nos anos 70.

A foto tem a autoria anotada no verso: Photografo Tondelli. E embora o lugar tenha se modificado muito, nem tudo que se vê nela teve a mesma sorte do cinema. As palmeiras  ainda estão lá, hoje escondidas pela vegetação que se adensou.

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“S. Paulo, 10-7-51
Io, Felice, Renato, Gaetano. La prima auto che ho guidato, davanti alla nostra casa dalle parte del parco don Pedro Secondo. Isso es uma grande Beleza. O mais lindo parco do S. Paulo, é muito bonito nos stamos em frente.”

Está na cara que o italiano que escreveu no verso da foto estava aprendendo português. O começo do texto saiu em italiano mesmo (“Eu, Felice, Renato, Gaetano e o primeiro carro que eu guiei, em frente à nossa casa, ao lado do parque Dom Pedro Segundo”), mas na última frase ele já engata um português macarrônico bastante razoável.

E além de aprender a língua, parece que ele também estava fazendo várias outras coisas, como aprender a dirigir, conhecer São Paulo, divertir-se com os amigos…

Se ao invés de querer fazer tudo ao mesmo tempo ele tivesse se concentrado em uma coisa de cada vez, talvez teria conseguido explicar que lugar tão bonito é esse em que morava, vizinho ao Parque D. Pedro.

Eu tentei, mas não consegui entender onde é.

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Tem gente que pensa que a avenida Paulista termina na rua da Consolação. Mas não é assim: na verdade ela atravessa a Consolação e termina duas quadras à frente, numa pracinha na altura da rua Minas Gerais.

Noventa anos atrás, quando estas fotos foram tiradas, a tal praça já tinha mais ou menos o mesmo aspecto que tem hoje. A mureta em semicírculo, que se vê na primeira das fotos abaixo, continua exatamente igual.

A diferença é que naquela época existia ali um enorme e desengonçado monumento em homenagem a Olavo Bilac. Instalado em 1922, o monumento era formado por diversas esculturas em bronze inspiradas na obra do poeta, distribuídas em uma estrutura de alvenaria. Vistas isoladamente, até que não eram tão feias. Mas o conjunto ficou horroroso.

Tão horroroso que a prefeitura, com toda a razão, resolveu tirá-lo de lá em 1936.

Uma vez desfeito o monumento, sobraram as estátuas, que, desgarradas, continuam perambulando até hoje pela cidade. O busto do poeta que ficava no centro do conjunto, por exemplo, atualmente está num modesto pedestal na avenida Sargento Mário Kozel, próximo ao parque do Ibirapuera. Outro fragmento, “O Caçador de Esmeraldas”, foi parar numa escola estadual em Pinheiros. Outro ainda, conhecido como “Idílio” ou “Beijo Eterno”, está no Largo de São Francisco, em frente à faculdade de Direito, e assim por diante.

Estas duas fotos faziam parte de um álbum particular que também foi desmembrado e acabou sendo vendido aos pedaços pela internet. A primeira mostra o monumento visto da avenida, e a segunda, a avenida vista do monumento. Como o álbum se desfez, não dá mais pra saber de quem são as fotos. Só sei que era alguém que falava alemão, por causa da data anotada na folha em que estavam coladas: “März 1926”.

Em 1982 a praça acabou sendo palco de outra homenagem infeliz, ao ser oficialmente batizada de “Praça Marechal Cordeiro de Farias” em reconhecimento a um militar que participou do golpe de 1964. Isto me faz pensar que, feio por feio, teria sido melhor manter o monumento ao poeta parnasiano.

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As fotos são de um álbum de família que foi desmembrado e posto à venda no Rio de Janeiro, então é provável que os personagens que aparecem nelas sejam cariocas endinheirados, em passeio por São Paulo. O ano da viagem está anotado a lápis no verso: 1921.

Fotos de turista quase sempre são ruins, e estas não fogem à regra: a qualidade das imagens é inversamente proporcional à estica desses cariocas. Mesmo assim, dá pra ter uma boa ideia de como era passear no Anhangabaú. Destaque para o contraste entre o aspecto aprazível do vale e o tráfego intenso de automóveis e bondes sobre o viaduto do Chá.

Das construções que aparecem nas três fotos, nenhuma sobreviveu muito tempo. O próprio viaduto ainda está em sua primeira versão, metálica e fininha, que só durará mais 17 anos. O teatro São José, à direita dele, e o hotel Sportsman, à esquerda, também virão abaixo em pouco tempo para dar lugar aos edifícios Alexandre Mackenzie (atual Shopping Light) e Matarazzo (atual prefeitura).

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São Paulo gosta tanto de demolir seus prédios antigos, que ao ver fotos como esta a gente vai logo supondo que eles não existem mais. Mas nem sempre isso é verdade.

Este cartão postal, por exemplo, é da primeira metade do século passado. A legenda hoje soa estranha: trata-se da Escola Allemã (Deutsche Schulle), na rua Olinda.

De lá pra cá, quase tudo mudou ali. A Escola Allemã não existe mais com esse nome (virou Colégio Visconde de Porto Seguro), e não funciona mais nessa rua. A própria rua também não é a mesma: foi desfigurada em 1970 pela construção do complexo minhocão-Roosevelt e nunca mais se recuperou. Nem mesmo o nome ela manteve, rebatizada de João Guimarães Rosa.

Em meio a tanta mudança, só ficaram mesmo os dois prédios para contar a história. Eles são a única coisa do cartão que ainda pode ser reconhecida, como se vê na foto atual, do Google.

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