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parques e praças

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944O cartão postal foi enviado de São Paulo a uma certa Mary Gates, no estado americano de Rhode Island. Parece que quem o escreveu foi a avó de Mary, de sobrenome Stellman. Pelo menos é isto que se entende da anotação que alguém, talvez a própria Mary, acrescentou a lápis.

A data também é incerta. Vovó escreveu em 7 de fevereiro, mas não é possível saber de que ano. De qualquer forma, parece ter sido no final dos anos 20.

A única informação 100% segura é o local retratado. Trata-se do “Largo do Paraizo”, atual praça Oswaldo Cruz, onde começa a avenida Paulista. Mas isto nem precisava vir escrito no cartão. O índio da foto continua pescando lá até hoje, o que torna o lugar muito fácil de reconhecer.

A foto  é cheia de detalhes interessantes, mas os que mais me atraem são os anúncios e letreiros que aparecem ao fundo, atrás da escultura do índio pescador. Para vê-los com mais clareza, é preciso clicar na imagem e ampliá-la. Da esquerda para a direita, aparece o nome de uma loja de armarinhos, cujo telefone parece ser Avenida 1151 (na época, os números telefônicos de São Paulo começavam com prefixos como “Braz”, “Central”, “Cidade” e “Avenida”); um anúncio de charutos (“Fume charutos Stern”, ou “Stella”, parece estar escrito em um muro); o outdoor uma conhecida marca de pneus da época (“Os pneumáticos United States são bons pneumáticos”, diz o texto meio encoberto pela folhagem das palmeiras); e um “seccos e molhados finos” estampado na fachada de um armazém.

Outra coisa interessante é a forma como a avó descreveu a cidade para a neta. Se eu tivesse lido só o texto, sem ver o cartão, dificilmente adivinharia que se trata de São Paulo:

“We are on a mountain top 3000 ft high – just had our lunch. It is a beautiful city. We were three hours getting here – It is pretty thrilling to climb in one conveyance and another. Hope you can take it sometime.”

(Estamos no topo de uma montanha de 3 mil pés de altura – acabamos de almoçar. É uma cidade bonita. Levamos três horas para chegar aqui. Subir é bem excitante, em um meio de transporte e no outro. Espero que algum dia você possa fazê-lo.)

Fiquei me perguntando o que a vovó Stellman quis dizer com essa história de “em um meio de transporte e no outro”. Não sei ao certo, mas acho que a própria foto fornece pistas. Além do outdoor com anúncio de pneus, também vemos um automóvel na extrema esquerda. Carros começavam a tomar conta de São Paulo, e já eram uma alternativa ao trem para a viagem a Santos. É minha hipótese.

Na foto do Google dá pra ver que o índio continua na mesma posição, embora tudo tenha mudado à sua vota.

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O post de ontem, que mostrava a praça da Sé convertida em terminal de ônibus em 1960, fez bastante sucesso e acabou se tornando um dos mais lidos dos últimos tempos. Já que tanta gente gostou, resolvi complementá-lo com este outro. A foto que mostro hoje é do mesmo autor anônimo da de ontem. Faz parte do mesmo rolo de filme, e foi feita certamente no mesmo dia, só que de um ângulo diferente.

A catedral da Sé aparece aqui com a praça-terminal à sua frente, apinhada de passageiros. Deve ser final de tarde, hora de pegar a condução de volta pra casa…

À esquerda está o conjunto de prédios que desaparecerá para a construção do metrô. O Santa Helena quase não se vê, mas chama a atenção um prédio maior, ainda em construção, cortado pela margem da foto. É o edifício Mendes Caldeira, um arranha-céu tão alto quanto efêmero, que ficou pronto em 1961 e foi implodido em 1975. Ele teve 30 andares e durou 14 anos.

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A foto mostra a praça da Sé. Um detalhe da catedral pode ser visto no canto direito, ajudando a reconhecer o local. O resto está quase irreconhecível. Os cartazes da campanha de Jânio Quadros, candidato a presidente em 1960, sugerem que ela tenha sido tirada nesse ano.

De praça mesmo, na época, o lugar só conservava o nome. A praça funcionava na prática como terminal de ônibus, e se manteria assim até o início da década de 70, quando as obras do metrô empurraram o terminal para o parque Dom Pedro.

Mas é uma pena que, entre ganhos e perdas, a forma como o metrô chegou tenha feito mais mal do que bem à praça. Junto com os ônibus, também foi embora o prédio Santa Helena, que se vê ao fundo, um dos mais belos que São Paulo já teve. Sua demolição, em 1971, acabou transformando as praças da Sé, à frente dele, e Clóvis Bevilacqua, atrás, numa maçaroca só.

Fotos em cores do Santa Helena são bastante raras, como eu já disse em outro post, e isso torna esta imagem particularmente interessante. Ela é reproduzida de um slide de 35 mm da época, de autor desconhecido.

A foto, ao que parece de 1906, é  de um tal Frédéric Manuel, fotógrafo do qual eu nunca tinha ouvido falar. Fiquei sabendo dele por intermédio da Maria Paula Cosme, que postou a foto recentemente no Facebook. Gostei tanto que não resisti e resolvi copiá-la aqui.

O local é muito fácil de identificar: é o vale do Anhangabaú, atravessado pelo viaduto do Chá. Ocupado por casinhas humildes e uma ou outra plantação, nesta época o vale era foco de preocupações do poder público, que fazia planos de reurbanização. Em poucos anos, um jardim público afrancesado e monumental daria cabo de toda essa feiura, pobreza e caipirice.

Um século depois, a feiura bucólica do vale nem parece tão feia assim. E o parque afrancesado, inaugurado em 1917, trouxe pompa e beleza ao local mas acabou durando pouco: no final dos anos 30 foi rasgado por uma avenida.

Mas o melhor de tudo, para mim, é a resolução da imagem. Clicando nela, dá pra perder um bom tempo passeando nos detalhes e bisbilhotando as casas das pessoas. O que mais me chamou a atenção é o contraste entre o aspecto modorrento da vida no vale, onde tudo parece parado, e o intenso movimento em cima do viaduto, com grande tráfego de pedestres e bondes.

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A intenção do fotógrafo era retratar só a banca de revistas, mas São Paulo deu um jeito de se mostrar nos fragmentos de cidade que aparecem ao fundo.

Alguns desses fragmentos – como as três palmeiras do Anhangabaú, no lado esquerdo – existem até hoje. Outros já desapareceram, como a torre do palacete Prates que abrigava a prefeitura (que se vê entre as palmeiras), ou o antigo prédio do Mappin na praça do Patriarca (à direita, debaixo de um grande anúncio da Ford). Todos eles nos mostram com precisão o local onde a foto foi tirada: a banca ficava na praça Ramos de Azevedo, bem ao lado da cabeceira do viaduto do Chá.

Mas o melhor da foto é poder ver o que São Paulo lia no final dos anos 40. São dezenas de publicações, tanto nacionais (Anuário das Senhoras, Jornal das Moças, Vida Doméstica, O Cruzeiro, Almanaque do Tico-Tico, Digesto Econômico, Mecânica Popular, Tarzan) como estrangeiras (Life, Time, Screenland, Motor Boating, Vogue, Harper’s Bazaar). Eu confesso que estas últimas me surpreenderam: não imaginava que já houvesse na cidade, há quase 70 anos, tanto mercado para revistas em inglês.

E, como em toda banca que se preze, certas publicações eram “para adultos”. Uma delas é o “1949 Esquire Girl Calendar”, um calendário sensual de parede, daqueles de oficina mecânica, ilustrado com pin-ups.

Outra é um livro de capa rosa, também de 1949: “A Nossa Vida Sexual”, do dr. Fritz Kahn, em “edição ilustrada”. Segundo anúncios da época, o livro se destinava aos “moços e moças, noivos e noivas, maridos e esposas”, que encontrariam nele “a solução dos graves problemas sexuais com que se defrontam”.

Mas, por precaução, o exemplar exposto na banca ficava com as capas cuidadosamente amarradas com barbante, evitando assim que as pessoas se pusessem a resolver tais problemas em plena praça Ramos.

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A foto da banca é reproduzida de um slide da época, cujo autor desconheço. O anúncio do livro saiu no “Almanhaque para 1949” do Barão de Itararé, reeditado em facsímile pela Edusp em 1991.

831“Dear Earl,
This is a beautiful modern city and the ‘old’ is not so very old, but this picture shows how the ‘modern’ is replacing the ‘old’.
Sincerely,
Lee”

(Prezado Earl, esta é uma cidade bonita e moderna, onde o ‘velho’ não é tão velho assim, mas a foto mostra como o ‘moderno’ está substituindo o ‘velho’. Atenciosamente, Lee)

Pobre Lee. Mal sabia ele que, 28 anos depois, o ignóbil passaria por cima do velho, do novo e do que mais houvesse pela frente. A foto que ele comentou em 1942 é da praça Marechal, que desde 1970 está debaixo do minhocão.

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A foto acima é clássica. Feita em 1954 por German Lorca, ela acabou se tornando uma das mais conhecidas do autor, fotógrafo oficial das comemorações do IV Centenário.

A foto abaixo, ao contrário, era inédita até agora. Também foi feita em 1954, mas por um alemão anônimo que, ao que parece, visitou a “Internationale Ausstellung” do Ibirapuera e mandou revelar o filme na Fotoptica.

Sem dúvida a foto de Lorca tem mais poesia que a do alemão, mas mesmo assim achei curiosa a semelhança entre elas. Até as sombras que as pessoas projetam no chão se parecem muito nas duas!

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A foto de German Lorca é reproduzida da internet. A do alemão estava até agora em Berlim e apareceu à venda num site, junto com a do post anterior.