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São Paulo nos anos 40 e 50 era uma cidade bem mais humana, organizada e acolhedora do que hoje, certo? Tudo funcionava melhor, a cidade era gentil e as pessoas viviam mais felizes.

Essa é a imagem ingênua que muita gente tem, construída com altas doses de romantização e saudosismo, e o próprio nome deste blog brinca um pouco com ela. Mas não é preciso ir longe para desmontá-la. A São Paulo do passado nunca foi assim, e ninguém melhor para nos mostrar isso do que quem sofreu nela.

Como por exemplo o Paco, imigrante espanhol que estava por aqui em 1950. No relato que ele manda ao irmão, fica claro que a cidade em que ele vive é esta mesma que a gente conhece hoje:

“Sao Paulo 31 julio 1950
Querido hermano Miguel: En sustitución de una carta que te debo y que mañana a lo más tardar te mandaré, remito esta vista de lo que se llama “la ciudade”, el cogollito de Sao Paulo. Apreciarás una semejanza con el centro de las populosas aglomeraciones norteamericanas. La mayoría de sus edificios están destinados a fines comerciales y en cambio las viviendas se desparraman en todas direcciones sin que importe la distancia, en casas de una sola planta, en su mayoría.
El exagerado perímetro de la ciudad ocasiona la esclavitud de sus habitantes. Los hace pigmeos. Hoy mismo estamos trabajando en un barrio distante de nuestra morada 10 o 15 Kms. No te extrañe pues que tengamos que salir de casa con hora y media de anticipación para estar en el trabajo a las 7.
Así que después de la jornada y el regreso ceno y no tengo ganas ni humor para escribir ni siquiera unas letras. Se agota uno demasiado y menos mal que no me falta salud y apetito.
Aquel sosiego de Valencia vale muchísimo. Hazte cargo de que ahora son las 5 de la mañana. Anoche me fui a la cama a las 9. Cambio absoluto en mi modo de vivir, ¿no es cierto? Esta fabulosa dispersión, la mezcolanza de razas, los sucesos e incidentes sangrientos diarios que aunque propios de una capital heterogénea por sus habitantes, son exacerbados por el poco control que la policía ejerce, ocasiona que la ciudad en sí adolezca de tristeza y sea a partir de las 8 de la noche una cosa sin vida.
Bueno Miguel, ve coleccionando “fotos” de esta moderna Babilonia y hasta mañana pues. Recibe el cariño de tu hermano Paco. Besos a la abuela.”

(São Paulo, 31 de julho de 1950
Querido irmão Miguel: Em substituição a uma carta que te devo e que amanhã ao mais tardar mandarei, remeto esta vista do que se chama “a ciudade” (sic), o coração de São Paulo. Você apreciará uma semelhança com o centro das populosas aglomerações norte-americanas. A maioria dos seus edifícios está destinada a fins comerciais, enquanto as moradias se esparramam em todas as direções, não importa a distância, em casas de um só andar na sua maioria.
O exagerado perímetro da cidade ocasiona a escravidão de seus habitantes. Os faz pigmeus. Hoje mesmo estamos trabalhando em um bairro distante de nossa morada uns 10 ou 15 quilômetros. Não estranhe, pois, que tenhamos que sair de casa com uma hora e meia de antecedência para estar no trabalho às 7.
Assim, depois da jornada e do regresso, não tenho vontade nem humor para escrever sequer umas letras. A gente se cansa demais, e menos mal que não me falta saúde nem apetite.
Aquele sossego de Valência vale muitíssimo. Saiba que agora são 5 da manhã, e ontem à noite fui dormir às 9. Mudança absoluta no meu modo de viver, não é? Essa fabulosa dispersão, a miscelânea de raças, os acontecimentos e incidentes sangrentos diários que, embora próprios de uma capital heterogênea por seus habitantes, são exacerbados pelo pouco controle que a polícia exerce, fazem com que a cidade em si adoeça de tristeza e seja, a partir das 8 da noite, uma coisa sem vida.
Bom, Miguel, vá colecionando “fotos” desta moderna Babilônia, e até amanhã. Receba o carinho de seu irmão Paco. Beijos à vovó.”

Paco tinha avó, portanto devia ser bastante jovem em 1950. Quem sabe, então, ele ainda esteja por aqui. Seria ótimo se ele pudesse nos contar se, para ele, a cidade piorou tanto como a gente pensa. Ao contrário, deve ter melhorado.

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“Não posso ficar / Nem mais um minuto com você / Sinto muito, amor / Mas não pode ser / Moro em Jaçanã / Se eu perder esse trem / Que sai agora às onze horas / Só amanhã de manhã”

Imortalizado no samba de Adoniran Barbosa, o trem da Cantareira (ou tramway da Cantareira, como também era chamado) é lendário em São Paulo.

Mas embora esteja tão presente na memória afetiva da cidade, as fotos que restaram dele não costumam ter qualidade. A internet está cheia delas, mas são imagens em preto e branco, com baixa resolução e pouca nitidez.

Por isso eu fiquei surpreso quando descobri estas. Nunca tinha visto fotos do trem a cores, e muito menos com esta riqueza de detalhes. Destaque para a estação Guarulhos, que por sinal continua em pé até hoje, embora evidentemente não seja mais usada como estação.

As fotos são de setembro de 1963 (essa é a data da revelação, impressa na moldura dos slides kodachrome). Foi justamente nessa época que Adoniran compôs o samba, que seria lançado em disco, pelos Demônios da Garoa, em 1964.

O trem, que circulava desde 1893, foi desativado menos de dois anos depois destas fotos.

As fotos são reproduzidas de slides de 35 mm da época, que apareceram à venda em Bethlehem, no estado americano da Pensilvânia. Como foram parar lá, não faço ideia. Mas fico feliz de tê-les achado e poder dar esta pequena contribuição à memória iconográfica do trem das onze.


Atualização em 24 de novembro:
Cinco meses depois da publicação, o vendedor lá em Bethlehem descobre que tinha mais dois slides, e eu não podia deixar de acrescentá-los ao post! Gostei especialmente da segunda imagem, que é ainda mais rara que as anteriores. Nela o trem aparece puxado por uma das locomotivas a diesel que, quando a linha já estava para ser desativada, chegaram a ser usadas em substituição às tradicionais a vapor.

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O post de ontem, que mostrava a praça da Sé convertida em terminal de ônibus em 1960, fez bastante sucesso e acabou se tornando um dos mais lidos dos últimos tempos. Já que tanta gente gostou, resolvi complementá-lo com este outro. A foto que mostro hoje é do mesmo autor anônimo da de ontem. Faz parte do mesmo rolo de filme, e foi feita certamente no mesmo dia, só que de um ângulo diferente.

A catedral da Sé aparece aqui com a praça-terminal à sua frente, apinhada de passageiros. Deve ser final de tarde, hora de pegar a condução de volta pra casa…

À esquerda está o conjunto de prédios que desaparecerá para a construção do metrô. O Santa Helena quase não se vê, mas chama a atenção um prédio maior, ainda em construção, cortado pela margem da foto. É o edifício Mendes Caldeira, um arranha-céu tão alto quanto efêmero, que ficou pronto em 1961 e foi implodido em 1975. Ele teve 30 andares e durou 14 anos.

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A foto mostra a praça da Sé. Um detalhe da catedral pode ser visto no canto direito, ajudando a reconhecer o local. O resto está quase irreconhecível. Os cartazes da campanha de Jânio Quadros, candidato a presidente em 1960, sugerem que ela tenha sido tirada nesse ano.

De praça mesmo, na época, o lugar só conservava o nome. A praça funcionava na prática como terminal de ônibus, e se manteria assim até o início da década de 70, quando as obras do metrô empurraram o terminal para o parque Dom Pedro.

Mas é uma pena que, entre ganhos e perdas, a forma como o metrô chegou tenha feito mais mal do que bem à praça. Junto com os ônibus, também foi embora o prédio Santa Helena, que se vê ao fundo, um dos mais belos que São Paulo já teve. Sua demolição, em 1971, acabou transformando as praças da Sé, à frente dele, e Clóvis Bevilacqua, atrás, numa maçaroca só.

Fotos em cores do Santa Helena são bastante raras, como eu já disse em outro post, e isso torna esta imagem particularmente interessante. Ela é reproduzida de um slide de 35 mm da época, de autor desconhecido.

A foto é de 1960. Não sei se este tipo de bicicleta era comum na cidade, nessa época. Acredito que não. Pelo jeito se trata de alguma ação promocional da Caloi, mas não parece estar sendo fácil, para este ciclista, pedalar no meio do trânsito.

Hoje a situação seria outra. É que o rapaz está na avenida Paulista, entre Augusta e Haddock Lobo, e poderia transitar confortavelmente pela ciclovia.

Pelo menos para ele, a cidade está mais gentil.

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(A foto só pode ser de 25 de fevereiro de 1960. Não sei quem é o fotógrafo, mas é alguém que foi assistir à passagem de Dwight Eisenhower, presidente dos Estados Unidos, em visita a São Paulo naquele dia. Entre uma foto e outra de Eisenhower desfilando em carro aberto, acabou tirando também esta, que acabou sendo, ao menos para mim, a mais interessante.)

Hoje em dia tem uns espíritos de porco que teimam em tentar argumentar que São Paulo não combina com bicicleta: porque tem trânsito, porque a cidade não é plana, porque aqui não é Amsterdam, porque a rua só para os carros é um direito sagrado da classe média…

Em 1957 essa cultura intolerante ainda não tinha se desenvolvido tanto, e as bicicletas estavam mais integradas à vida da cidade. Tinha bicicleta até na pista do aeroporto!

A foto é da chegada do Caravelle, o primeiro jato de passageiros com turbinas na fuselagem. As pessoas foram à pista, em Congonhas, para ver a novidade de perto. O avião pousou direitinho e ninguém saiu por aí resmungando que bicicleta atrapalha.

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186A imagem mostra o Teatro Municipal e a praça da República no começo da década de 1910. Até aí, nada demais: a internet está cheia de fotos desses dois locais tiradas nessa mesma época. O que torna estas duas fotos interessantes, no entanto, é que nelas aparecem os primeiros táxis da cidade, parados à espera de passageiros. É a frota da Companhia Auto-Taxímetros Paulista, empresa fundada em 1910 para explorar o serviço em São Paulo.

A imagem é de um livro com mais de 1000 páginas pulicado em 1913, organizado por um certo Reginald Lloyd e intitulado “Impressões do Brazil no Século Vinte: Sua Historia, Seo Povo, Commercio, Industrias e Recursos”. A referência aos táxis aparece lá pela página 700, e eles são apresentados como uma grande inovação:

“A história da fundação e desenvolvimento da companhia desperta real interesse, pois que representa a introdução de uma ideia nova e o seu completo êxito. Atualmente, tem a companhia 62 automóveis-taxímetros (…) e o número dos veículos cresce de dia para dia, com as contínuas aquisições que faz a empresa. (…) Para mostrar a grande aceitação que encontram os carros da companhia, basta dizer que estão em serviço contínuo, por assim dizer, noite e dia. O estabelecimento tem uma escola de choferes, e estes, para entrar no serviço da companhia, têm de passar por um exame rigoroso, com provas minuciosas e práticas. As oficinas da companhia são montadas com os mais modernos maquinismos e utensílios para construção de automóveis e seu reparo. Em suas diversas seções, emprega a empresa 150 homens. O enorme desenvolvimento que tiveram os serviços da companhia em 1911 tornou necessário o aumento do edifício em que se achava instalada. Tanto a garagem como as oficinas têm aspecto de limpeza e ordem perfeitas; os choferes da empresa são de uma cortesia que muito a recomenda. A garagem e oficinas da companhia ficam à Rua Conselheiro Nébias, 55 e 70, havendo, além disso, uma agência à Rua de São Bento, 21.”

Outra referência a esses táxis aparece em “São Paulo de Meus Amores”, livro do jornalista Afonso Schmidt publicado em 1954:

“Naquele tempo, os automóveis começavam a aparecer. Eram, geralmente, de marcas francesas e italianas: Berliet, De Dion Button, Fiat, Benz… Ainda se pareciam com carruagens. Os primeiros táxis eram umas caixas negras, com lanternas vermelhas ao lado, e os primeiros choferes de praça, pensando talvez que se tratasse de embarcações, lhes davam nomes femininos: a ‘Elisa’, a ‘Laura’, a ‘Rosalina’… Tais nomes eram mandados gravar em chapas metálicas e afixados atrás da carroceria”.

Mas nem tudo foi tranquilo, na introdução dos táxis em São Paulo. Em 25 de agosto de 1911, uma notícia d’O Estado de São Paulo relata que os cocheiros que viviam de transportar passageiros da estação da Luz não estavam recebendo nada bem os primeiros táxis que tentavam fazer ponto na porta da estação:

“Os cocheiros dos carros de praça que estacionam na estação da Luz não acolheram bem a concorrência que lhes vai fazer a nova companhia de Auto-transporte (…). No primeiro dia em que ali foram distribuídos vários automóveis, criou-se logo uma corrente de antipatias à nova empresa, e os cocheiros viram na conduta daquela empresa uma concorrência desleal e perniciosa”.

Segundo o Estadão, os protestos dos cocheiros foram bastante violentos, com tumulto e “grande correria”. Cem anos depois, eu fico morrendo de dó de terem amassado a Elisa, a Laura e a Rosalina. E também fico pensando em como as polêmicas se repetem. Agora são os táxis que assumem o papel de vítimas, acusando o aplicativo Uber, inovação da vez, da mesma “concorrência desleal e perniciosa”.

(A imagem, assim como o trecho do livro “Impressões do Brazil no Século Vinte”, foram reproduzidos de novomilenio.inf.br)