A praga das casinholas

Em 30 de março de 1930, o cartunista Belmonte (1896-1947) publicou na Folha da Manhã uma das inúmeras histórias do seu mais famoso personagem, Juca Pato, que  era careca de tanto levar na cabeça e sempre reclamava de tudo.

Na tira, que aparece na íntegra ao final deste post, Juca Pato  estava “pálido de espanto”. O motivo da aflição eram os postos de gasolina – ou “casinholas de óleo”, como ele os chamava – que surgiam em grandes quantidades, em qualquer esquina e sem nenhum critério, estragando a cidade.

Pessoalmente, eu me vejo obrigado a discordar do Juca Pato. Se na época ele lamentava a construção das casinholas, que de fato eram muitas, eu lamento ainda mais que elas tenham desaparecido. Aliás, não eram casinholas coisa nenhuma: eram construções elegantes e simpáticas, a maioria em estilo Missões, com suas telhas de barro, frontões amplos e detalhes em pedra. Não quero nem imaginar o que Juca Pato diria se visse a dureza e a falta de imaginação arquitetônica dos postos atuais.

A cidade já esteve cheia desses postos-casinhola, mas hoje restam somente dois em pé. E apenas um está em funcionamento: é o da foto ao lado, na avenida Aclimação, esquina com Pires da Mota. Cliquem na foto para ampliá-la e reparem no  painel de azulejos com o logotipo antigo da Shell e a inscrição “Anglo Mexican Petroleum Company Limited”. Um outro fica na avenida Tiradentes, próximo à Marginal Tietê, mas está muito deteriorado e há vários anos deixou de ser usado para venda de combustível.

Até muito recentemente, ainda existia um terceiro na rua São Paulo, no bairro do Glicério, que aparece nesta segunda foto. Chamava-se Auto Posto Belo Car, foi inaugurado em 1931 e funcionou por quase 80 anos. Foi demolido há pouco tempo, em julho de 2011. Pouca gente notou e ninguém deu a menor importância. Acho bem provável que os dois que ainda restam acabem seguindo o mesmo caminho em breve.

Nas fotos abaixo, mais dois exemplares também perdidos, mas estes há bem mais tempo. O da esquerda ficava rua Domingos de Morais, na Vila Mariana, e o outro na avenida Angélica, esquina com rua Maranhão, em Higienópolis. Ambos demolidos para a construção de outros, mais atuais e mais sem graça, que hoje funcionam em seu lugar.

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A tira de Belmonte é reproduzida do arquivo da Folha. As imagens de postos são reproduzidas de flaviogomes.warmup.com.br (Aclimação), de saopauloantiga.com.br (Glicério) e de fotografias expostas nos próprios postos (Domingos de Morais e Angélica).

3 comentários
  1. tirei uma foto desse posto da tira-dentes alguns meses atrás. aparentemente foi ocupado por algumas famílias:

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