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Os quatro postais foram enviados à terrinha por um português recém-chegado a São Paulo.

Não sabemos muito sobre ele, mas é possível inferir algumas coisas. Seu nome começa com R, pela forma como assina um dos cartões. A data em que escreve não é conhecida, mas os cartões que manda parecem ser da década de 1910. E pela forma como escreve, dá pra ver que não é uma pessoa com muita instrução.

Mas, de tudo o que se percebe, o que chama mais a atenção é seu deslumbramento com a cidade. A começar pelo postal em que R. mostra o local “adonde” estava empregado. Ele trabalhava em cima da Loja do Japão, na moderna e elegante rua São Bento.

“Adonde tem Lisboa uma rua como esta, ponhão aqui os olhos!”, escreve o português, maravilhado pelo lugar:

Outros motivos de admiração são o museu do Ipiranga e a estação da Luz.  “Adonde tem Lisboa um predio como este, olhem bem!”, pergunta R. sobre o museu.  “Adonde tem Portugal uma estação como esta? Olhem bem que não é feita de palha não!”, exclama sobre a estação.

 

Passado um século, eu não sei muito bem o que R. escreveria se visse esses lugares. A Loja do Japão fechou nos anos 30, e a São Bento há muito tempo entrou em decadência. Lisboa de fato não tem muitos prédios do tamanho do museu do Ipiranga, mas eles estão em geral mais firmes: nosso museu foi interditado às pressas em 2013, perigando desabar, e não tem previsão de reabrir pelos próximos anos. E a estação da Luz de fato não é de palha, mas isso não impediu que ardesse em fogo, em 2015. Imaginem se fosse!

Nossa vez de perguntar: Adonde erramos?

Dizem que no final dos anos 50 e início dos 60, quando estava recém-construído, o edifício Bretagne era ponto de peregrinação turística. Os ônibus encostavam na avenida Higienópolis para que a turistada pudesse ver de perto aquele verdadeiro monumento, de finíssimo e arrojado mau gosto.

Esta foto parece confirmar a lenda. Ela apareceu num lote de slides velhos à venda em Columbus, Ohio, e deve ter sido feita por algum americano em viagem por aqui. A moldura do slide tem a data de revelação: janeiro de 1960. Pelo enquadramento ruim e pela má qualidade geral, a foto só pode ser de turista mesmo.

Mas apesar da qualidade, ela permite ver algumas características originais do prédio de Artacho Jurado que hoje não existem mais.

O que mais chama a atenção é a maior integração que havia entre o condomínio e o espaço público, mais tarde quebrada pela instalação de grades de segurança. Mas há outros detalhes. Um deles é a entrada para carros que parece estar funcionando à direita, hoje anulada. Outro é o guarda-corpo do terraço sobre o salão de festas, bem mais interessante que o atual. E ainda há as luminárias vermelhas e brancas dos postes, substituídas por uns globos brancos bem menos artachianos.

Deve haver mais diferenças que eu não notei. Se alguém perceber alguma, avise!

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As fotos são de um álbum de família que foi desmembrado e posto à venda no Rio de Janeiro, então é provável que os personagens que aparecem nelas sejam cariocas endinheirados, em passeio por São Paulo. O ano da viagem está anotado a lápis no verso: 1921.

Fotos de turista quase sempre são ruins, e estas não fogem à regra: a qualidade das imagens é inversamente proporcional à estica desses cariocas. Mesmo assim, dá pra ter uma boa ideia de como era passear no Anhangabaú. Destaque para o contraste entre o aspecto aprazível do vale e o tráfego intenso de automóveis e bondes sobre o viaduto do Chá.

Das construções que aparecem nas três fotos, nenhuma sobreviveu muito tempo. O próprio viaduto ainda está em sua primeira versão, metálica e fininha, que só durará mais 17 anos. O teatro São José, à direita dele, e o hotel Sportsman, à esquerda, também virão abaixo em pouco tempo para dar lugar aos edifícios Alexandre Mackenzie (atual Shopping Light) e Matarazzo (atual prefeitura).

Este simpático casal de americanos esteve no Brasil em 1974, visitando cidades como Manaus, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.

Mas embora tenham fotografado muito as outras cidades, em São Paulo eles não se animaram. Somente três fotos da viagem são daqui, e todas foram tiradas dentro do hotel. A primeira é uma engenhosa selfie no banheiro, e as outras duas foram tomadas da janela do quarto, de onde se viam prédios como o Itália, o Viadutos e o Copan.

É realmente uma pena que eles não tenham fotografado mais a cidade, mas o pouco que produziram já nos serve para alguma coisa.  É que o hotel Hilton, onde o casal se hospedou, deixou de funcionar em 2004. Como não podemos nos hospedar lá, é só mesmo por meio das fotos que temos acesso ao banheiro e à paisagem…

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A foto estava meio amassada, entre dezenas de outras bem menos interessantes, à venda numa barraca da feira do Bixiga. Por 5 reais, ela veio para o blog.

Não há nenhuma indicação de quem seja o autor, mas obviamente é alguém que sabia fotografar e conseguiu um bonito efeito com o recurso da longa exposição.

Mas o efeito mais interessante da foto não é esse. Ele não foi intencional, e sequer podia ser percebido na época.

É que, curiosamente, tudo aquilo que na imagem saiu nítido continua em seu lugar até hoje. O Instituto Pasteur, o edifício Tuiuti, o totem com nome de rua e até mesmo a arvorezinha permanecem iguais. Esta última, se não for a mesma, é uma réplica perfeita…

Já o que aparece borrado – um Chevette, dois Fuscas, um Puma, um Passat e um Dodge Dart – sucumbiu à passagem do tempo e não existe mais por lá.

Quem quiser conferir, é só olhar a foto atual: https://goo.gl/maps/gtcBacoLRyo.

O reverendo Alva W. Knoll, até onde eu consegui pesquisar, foi um religioso americano que passou a maior parte da vida em Freeport, uma cidadezinha do estado de Ohio. As últimas informações que consegui achar dele são dos anos 1960: deve ter se aposentado ou morrido nessa época.

Mas bem antes disso, quando ainda era estudante em um seminário metodista, ele teve a chance de fazer longas viagens pelo mundo. E uma delas, em 1924, incluiu um tour pela América do Sul.

A viagem rendeu muitas fotos, e de volta aos Estados Unidos o futuro pastor resolveu ganhar um dinheirinho com elas, rodando as igrejas do estado de Ohio e oferecendo seus serviços como palestrante.

Como na época não exista powerpoint, o jeito era viajar carregando 50 delicados slides de vidro para serem projetados. A palestra se chamava “Little glimpses of daily life beyond the Equator” (Pequenos vislumbres da vida cotidiana debaixo do Equador), e a remuneração sugerida era de 10 dólares. O restante das informações está no folheto datilografado que Alva distribuía divulgando o serviço:

“Fifty minute lecture, with fifty colored slides selected from 800 photographs taken on the South American Tour. Slides made up and colored by Knoll. Slides give a fair picture of living conditions, customs, character, and some history.”

(Palestra de 50 minutos, com 50 slides coloridos selecionados de 800 fotografias do tour sulamericano. Os slides, produzidos e colorizados por Knoll, proporcionam uma imagem fiel das condições de vida, costumes, caráter e alguma história.)

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As imagens que ele mostrava de São Paulo eram interessantes, mas eu tenho cá as minhas dúvidas sobre a qualidade das informações que Alva Knoll divulgava na palestra. Em um dos slides, dá pra perceber que ele ficou na dúvida sobre como escrever “Butantan”. E em outro, errou bem mais feio: escreveu “Teatros” na foto do Anhangabaú em que aparecem os prédios da Prefeitura e do Automóvel Clube. Deve tê-los confundido com o Teatro Municipal e o Teatro São Pedro, que ficavam (um deles ainda fica) quase ali, mas do lado oposto do vale.

Mas o mais interessante nas fotos é que, se fossem tiradas hoje, a do Instituto Butantan ficaria praticamente igual, enquanto a do Anhangabaú seria totalmente diferente. Meu detalhe preferido  está na segunda: o edifício Sampaio Moreira, em construção, exibindo um anúncio do loteamento Bosque da Saúde. O prédio do centro e o bairro da zona sul estavam nascendo simultaneamente.

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Quando a construtora Monções começou a comercializar o edifício Louvre, em 1952, os anúncios nos jornais descreviam os “requintes de confôrto” que os moradores do prédio teriam à sua disposição nas áreas comuns. A lista era longa: playground, solarium, piscina, bar, jardim de inverno, salão de festas, salão de estar, salão de chá, salão para crianças…

Quase todos esses itens, na verdade, estavam presentes também em outros prédios do João Artacho Jurado, como por exemplo o Bretagne. O único realmente exclusivo era uma “Grandiosa Galeria de Arte” que seria instalada no térreo. Ela com certeza tinha sido concebida para ressaltar a atmosfera ‘artística’ do empreendimento, que não só tinha nome de museu, mas também se dividia em alas com nomes de pintores: Da Vinci, Rembrandt, Velázquez, Renoir, Pedro Américo.

Artacho, infelizmente, não conseguiu entregar essa galeria. Como tantos outros empreendimentos dele, o Louvre foi construído com grandes dificuldades. A obra se arrastou por mais de 15 anos e, quando o prédio ficou pronto, em 1967, a ideia já tinha ficado para trás.

Mas eis que, quase 65 anos depois de anunciada, a promessa será finalmente cumprida, com a inauguração em setembro próximo do Museu do Louvre Pau-Brazyl. O projeto é iniciativa do Guilherme Giufrida e da Jéssica Varrichio, moradores/curadores que convidaram artistas e coletivos e estão angariando fundos para viabilizá-lo.

Eu gostei muito do projeto e também da ideia de batizá-lo com o nome Pau-Brazyl. A meu ver, isso compensará uma feia injustiça cometida lá atrás pelo próprio Artacho. Eu sempre achei que não tinha sido muito elegante da parte dele dar nomes de artistas europeus aos quatro luxuosos blocos da frente, enquanto relegava o paraibano Pedro Américo ao bloco de apartamentos de fundos, mais barato e modesto. Um complexo de vira-lata que podia ter sido evitado…

Quem quiser conhecer os detalhes do Museu do Louvre Pau-Brazyl pode entrar na página do projeto no Facebook (www.facebook.com/louvrepaubrazyl), ou no link da campanha de crowdfunding (goo.gl/L7tz11).

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