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fotos de família

Dizem que no final dos anos 50 e início dos 60, quando estava recém-construído, o edifício Bretagne era ponto de peregrinação turística. Os ônibus encostavam na avenida Higienópolis para que a turistada pudesse ver de perto aquele verdadeiro monumento, de finíssimo e arrojado mau gosto.

Esta foto parece confirmar a lenda. Ela apareceu num lote de slides velhos à venda em Columbus, Ohio, e deve ter sido feita por algum americano em viagem por aqui. A moldura do slide tem a data de revelação: janeiro de 1960. Pelo enquadramento ruim e pela má qualidade geral, a foto só pode ser de turista mesmo.

Mas apesar da qualidade, ela permite ver algumas características originais do prédio de Artacho Jurado que hoje não existem mais.

O que mais chama a atenção é a maior integração que havia entre o condomínio e o espaço público, mais tarde quebrada pela instalação de grades de segurança. Mas há outros detalhes. Um deles é a entrada para carros que parece estar funcionando à direita, hoje anulada. Outro é o guarda-corpo do terraço sobre o salão de festas, bem mais interessante que o atual. E ainda há as luminárias vermelhas e brancas dos postes, substituídas por uns globos brancos bem menos artachianos.

Deve haver mais diferenças que eu não notei. Se alguém perceber alguma, avise!

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Na seleção de fotos de Joe J. Heydecker publicada ontem, estas duas tinham ficado de fora. Mas eu as acho tão simpáticas que resolvi fazer um novo post só para elas.

Ao contrário das de ontem, que mostram gente anônima nas ruas, estas são fotos de família. É a esposa do fotógrafo, Charlotte, quem aparece se despedindo da filha, Tita Heydecker, na porta da perua escolar. Pelo menos é o que explicam as fichas de ambas as fotos, no organizado acervo da Biblioteca Nacional da Áustria. As imagens são de 1961. A perua parece meio velha, mesmo para a época.

O que os austríacos provavelmente não sabem, porque não incluíram na descrição, é o endereço exato da cena. Mas estamos na rua Rocha 318, na Bela Vista, e o prédio ao fundo continua igualzinho até hoje.

Schulbus in São Paulo

Schulbus in São Paulo

As fotos são de um álbum de família que foi desmembrado e posto à venda no Rio de Janeiro, então é provável que os personagens que aparecem nelas sejam cariocas endinheirados, em passeio por São Paulo. O ano da viagem está anotado a lápis no verso: 1921.

Fotos de turista quase sempre são ruins, e estas não fogem à regra: a qualidade das imagens é inversamente proporcional à estica desses cariocas. Mesmo assim, dá pra ter uma boa ideia de como era passear no Anhangabaú. Destaque para o contraste entre o aspecto aprazível do vale e o tráfego intenso de automóveis e bondes sobre o viaduto do Chá.

Das construções que aparecem nas três fotos, nenhuma sobreviveu muito tempo. O próprio viaduto ainda está em sua primeira versão, metálica e fininha, que só durará mais 17 anos. O teatro São José, à direita dele, e o hotel Sportsman, à esquerda, também virão abaixo em pouco tempo para dar lugar aos edifícios Alexandre Mackenzie (atual Shopping Light) e Matarazzo (atual prefeitura).

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A  alameda Fernão Cardim é uma ruazinha de apenas dois quarteirões, que corre paralela à avenida Paulista, começando na Brigadeiro Luís Antonio e terminando na alameda Campinas. Hoje ela é basicamente um corredor de guaritas e grades de segurança, que não se presta muito a festividades. Mas há 50 anos, era cenário dos carnavais de Mariana Pabst Martins.

Mariana é a mais alta das meninas que aparecem no portão, posando com suas fantasias no carnaval de 1967. Um pouco mais à esquerda, protegido pelo toldo que servia de garagem, aparece o DKW Fissore do pai de Mariana, o artista plástico Aldemir Martins.

A casa, segundo nos conta Mariana, foi demolida nos anos 70 junto com a vizinha da esquerda, no auge da febre imobiliária que alterou  a paisagem dos Jardins, substituindo as casinhas, mansões e cortiços que formavam um bairro misto e variado, pelo mar de prédios homogêneos que conhecemos hoje.

No lugar das duas casas, hoje existe o edifício alto e gradeado que se vê na foto abaixo, do Google. Seu “estilo neoclássico” relembra um passado que São Paulo nunca teve. E seu nome, “Mansão Fragonard”, homenageia o francês Jean-Honoré Fragonard, artista plástico do século 18 que, ao contrário do pai de Mariana, nunca teve nada a ver com o lugar.

Arquitetura neoclássica de carro alegórico e homenagem barroca de samba enredo…
Pensando bem, de alguma maneira o local conseguiu conservar, sim, a atmosfera festiva do carnaval.

 

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(Agradeço à Mariana, que pela segunda vez compartilhou conosco suas fotos e memórias.)

Este simpático casal de americanos esteve no Brasil em 1974, visitando cidades como Manaus, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.

Mas embora tenham fotografado muito as outras cidades, em São Paulo eles não se animaram. Somente três fotos da viagem são daqui, e todas foram tiradas dentro do hotel. A primeira é uma engenhosa selfie no banheiro, e as outras duas foram tomadas da janela do quarto, de onde se viam prédios como o Itália, o Viadutos e o Copan.

É realmente uma pena que eles não tenham fotografado mais a cidade, mas o pouco que produziram já nos serve para alguma coisa.  É que o hotel Hilton, onde o casal se hospedou, deixou de funcionar em 2004. Como não podemos nos hospedar lá, é só mesmo por meio das fotos que temos acesso ao banheiro e à paisagem…

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O menino que aparece à esquerda, acompanhado da mãe e do primo, é o pianista Fábio Caramuru. Eu pedi, e ele generosamente deixou que eu publicasse a foto aqui no blog.

Eu jamais reconheceria o local, mas o próprio Fábio explica: é a rua Cravinhos, no Jardim Paulista, com a avenida 9 de Julho ao fundo.

As árvores lá atrás ficavam ao lado do Colégio Assunção. Foram derrubadas mais tarde para construção de um supermercado Eldorado, hoje Carrefour, com entrada pela rua Pamplona.Hoje elas fazem falta na paisagem do local.

E além das árvores, também fazem falta os jardins de muro baixo, a rua da paralelepípedos e a calçada feita de caquinhos. Tudo isso dava à rua uma atmosfera de gentileza e tranquilidade, que combinava à perfeição com o coração estampado na roupinha do Fábio.

Hoje o local está assim:

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(A primeira foto, de 1958, é do acervo pessoal de Fábio Caramuru. A segunda, de 2014, é reproduzida do Google.)